Comprar dívida de banco com dinheiro público: o liberalismo de Flávio
No debate da Band, Flávio Bolsonaro propôs comprar as dívidas de famílias e empresas junto aos bancos, com mais de R$ 200 bilhões liberados no Orçamento.
Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Na noite de domingo (18), no debate da Band, Flávio Bolsonaro fez a promessa mais estatista desta campanha. Segundo o ND+, o candidato disse que, se eleito, o governo vai comprar as dívidas de famílias e empresas junto aos bancos. Para bancar a ideia, prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento federal.
Quem lê esta revista defende menos Estado, imposto menor e livre mercado. É por isso que esta coluna precisa dizer o óbvio: comprar dívida privada com dinheiro público não é liberalismo. É o oposto. Quando o Tesouro assume a carteira do banco, o risco deixa de ser de quem emprestou e passa a ser do contribuinte.
O devedor escolheu o banco; o banco escolheu o risco; o contribuinte não escolheu nada — e paga. Em nenhum manual de economia isso se chama livre mercado.
O palanque promete; o programa não sustenta
No mesmo debate, Flávio garantiu que a taxa de juros “vai cair de forma muito rápida”, como registrou a Metrópoles — e a promessa esbarra em três obstáculos. Primeiro: quem define a Selic, a taxa básica de juros do país, é o Comitê de Política Monetária (Copom), não o presidente. Segundo: a Selic já está em queda — foram cinco cortes seguidos, até 13,75% ao ano. Terceiro: o plano de governo registrado não traz meta para a Selic nem cita o Banco Central, segundo a Forbes.
Um plano que promete juros menores sem citar o banco que define os juros não é plano; é palanque. E palanque não derruba o preço do crédito de ninguém.
O documento promete um “tesouraço” na despesa, o corte de pelo menos 10 ministérios, novas regras fiscais e uma revisão da reforma tributária. Não informa, em trecho algum, um único real de economia. O corte existe como palavra de ordem. Como número, não.
Quando um número surgiu — corte de R$ 250 bilhões em despesas obrigatórias, estudado pela equipe econômica —, a campanha tratou de desmentir. A assessoria do candidato disse que “ainda não há posição oficial sobre o tema”, relatou o IstoÉ Dinheiro sobre a reportagem da Folha de S.Paulo.
É preciso registrar os fatos que favorecem o candidato, porque negá-los destruiria a credibilidade do resto. A inflação está acima da meta: 4,58% em 12 meses, contra o teto de 4,5%, segundo a Forbes. O mercado festejou a liderança dele no primeiro turno — a Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5, noticiou o Estado de Minas. E a dívida que o próprio Flávio citou no debate, de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), é verdadeira — a checagem é da Lupa.
O diagnóstico dele está certo. O remédio, não: ninguém reduz uma dívida dessas comprando a dívida dos outros.
O próprio time discorda
Marcelo Kayath, nome cotado para chefiar a equipe econômica de um eventual governo Flávio, considerou inviável um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões no prazo de um ano. A avaliação foi dada em entrevista ao Estadão — não por um adversário, mas por gente do próprio time. E o tamanho é o mesmo da promessa do debate: liberar mais de R$ 200 bilhões. O ajuste que sustentaria esse espaço é justamente o que Kayath considera impossível no prazo prometido.
Há ainda o mecanismo, que o contribuinte conhece de cor. Se o banco sabe que o governo compra o prejuízo, o crédito ruim volta a ser concedido — e a fatura retorna aos cofres públicos. Quem empresta e quem toma decidem entre si; quem paga a socialização nunca é consultado. Socializar perdas é a receita que esta revista combate desde a primeira edição — e não vira liberalismo porque quem a assina se diz de direita.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: No debate, o candidato culpou o gasto público pela alta dos juros e afirmou que os cortes de despesa devolvem confiança à economia. A assessoria dele diz que a orientação econômica da candidatura “está expressa, de forma objetiva e verificável, no plano de governo”, segundo reportagem do IstoÉ Dinheiro.
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não precisamos gostar de Lula para recusar esta conta. Basta levar a sério o que sempre defendemos. Quem promete menos Estado não pode prometer o Estado pagando a dívida do banco. No dia 25, a direita não precisa entregar sua bandeira a quem a usa como fantasia.
A direita tem nomes para 2030; não precisa queimar a marca em 2026. Se o adversário vencer, a direita fiscaliza do Congresso — e chega a 2030 com o nome limpo. O liberalismo sobrevive a quatro anos na oposição. Não sobrevive a quatro anos explicando o “liberal” que socializou dívida alheia com o dinheiro do contribuinte.
Fontes
- Dívida pública, juros e custo de vida no debate da Band — ND+
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Lula critica “tesouraço” e questiona onde Flávio Bolsonaro fará corte de R$ 250 bilhões — Terra/Estadão
- Checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Agência Lupa
- Eleição faz Ibovespa disparar e dólar opera abaixo de R$ 5 — Estado de Minas
- Inflação oficial medida pelo IPCA em setembro — Forbes
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro



