Mais Estado, mais promessa, menos conta: o programa da falsa direita

Coluna: Flávio promete comprar dívidas, dar reajuste real e ampliar o Bolsa Família. Nenhuma promessa vem com o número que diria quem paga a conta.

Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com os prédios dos ministérios enfileirados dos dois lados do gramado central.
Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em julho de 2015 (imagem de arquivo).Foto: Ana Volpe / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos cedo uma regra de economia doméstica: promessa sem conta é dívida. No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro esqueceu essa regra. Prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e comprar as dívidas de famílias e empresas junto aos bancos, segundo o ND+.

Não foi um deslize de uma noite. Em menos de duas semanas, o candidato que se apresenta como liberal juntou promessas que fariam corar qualquer desenvolvimentista. E nenhuma veio com o número que o eleitor de direita mais deveria cobrar: quanto custa e quem paga.

A lista de promessas

Comece pela aposentadoria. Em 8 de outubro, Flávio prometeu reajuste acima da inflação para os aposentados, informou o Poder360. Na mesma resposta, chamou de “fake news” do PT a notícia de que sua equipe estudava o contrário.

Em 16 de outubro, ele foi além. Garantiu manter os ganhos reais do salário mínimo, não desvincular dele as aposentadorias e não mexer nos pisos de saúde e educação, relatou a InfoMoney. Cada uma dessas garantias é legítima. Juntas, formam uma conta que cresce todo ano.

Agora acrescente a compra de dívidas privadas. Quando o Estado compra a carteira de um banco, o risco sai de quem emprestou e passa para quem paga imposto. É o contrário de tudo o que a direita sempre pregou sobre responsabilidade individual.

E a conta?

Do outro lado do balanço, o programa registrado oferece um “tesouraço” na despesa e o corte de pelo menos dez ministérios. Não informa, porém, um único real de economia, segundo a Forbes. O corte existe como palavra de ordem; como número, não existe.

Quando um número apareceu, a campanha o desmentiu. A Folha revelou que a equipe econômica estudava um corte de cerca de R$ 250 bilhões, perto de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Uma das medidas: corrigir só pela inflação as aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Outra: fazer o mesmo com o BPC, o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.

O mesmo estudo previa reajustar pela inflação os pisos de saúde e educação. Tudo seria aprovado numa “Super PEC” antes mesmo da posse, segundo a IstoÉ Dinheiro. PEC é a proposta de emenda à Constituição. A campanha respondeu que aquela não era sua posição oficial.

Ficou assim: o único corte com número foi negado, e as promessas de gasto continuam de pé. Mais Estado de um lado, menos conta do outro.

Nem a própria equipe fecha essa conta. Marcelo Kayath, cotado para comandar a economia num governo Flávio, considerou inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo entrevista ao Estadão reproduzida pelo Terra. É exatamente o tamanho do espaço que o candidato prometeu liberar.

E a campanha não decide nem para que lado vai. Na segunda-feira (19), a coordenadora do programa, Daniella Marques, anunciou uma transição de dois anos para quem recebe o Bolsa Família, segundo o Metrópoles. Onze dias antes, o candidato falava em ampliar o programa. Ampliar ou limitar? Cada porta-voz responde uma coisa.

Há um fato que precisa ser dito, porque negá-lo seria desonesto. A dívida bruta citada por Flávio no debate, de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB, é real. A Lupa checou e confirmou. O diagnóstico dele está certo. O problema é o remédio: ninguém reduz uma dívida dessas prometendo gastar mais.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato chama de “fake news” do PT a ideia de corrigir benefícios só pela inflação e promete reajuste real aos aposentados. Ele diz que manterá os ganhos reais do salário mínimo e não alterará os pisos de saúde e educação, segundo o Poder360 e a InfoMoney.

Mais Estado, mais promessa, menos conta: esse é o programa que se vende como direita. Não peço a ninguém que goste de Lula. Peço que ninguém entregue a bandeira da responsabilidade fiscal a quem a usa como enfeite de palanque.

A direita que cobrou contas em dia de todos os governos não pode abrir exceção para o próprio candidato. No dia 25, o eleitor de direita pode recusar essa fatura. E chegar a 2030 com o nome limpo e um programa que caiba no Orçamento.

Fontes