Mais Estado, mais promessa, menos conta: o programa da falsa direita
Coluna: Flávio promete comprar dívidas, dar reajuste real e ampliar o Bolsa Família. Nenhuma promessa vem com o número que diria quem paga a conta.
Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos cedo uma regra de economia doméstica: promessa sem conta é dívida. No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro esqueceu essa regra. Prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e comprar as dívidas de famílias e empresas junto aos bancos, segundo o ND+.
Não foi um deslize de uma noite. Em menos de duas semanas, o candidato que se apresenta como liberal juntou promessas que fariam corar qualquer desenvolvimentista. E nenhuma veio com o número que o eleitor de direita mais deveria cobrar: quanto custa e quem paga.
A lista de promessas
Comece pela aposentadoria. Em 8 de outubro, Flávio prometeu reajuste acima da inflação para os aposentados, informou o Poder360. Na mesma resposta, chamou de “fake news” do PT a notícia de que sua equipe estudava o contrário.
Em 16 de outubro, ele foi além. Garantiu manter os ganhos reais do salário mínimo, não desvincular dele as aposentadorias e não mexer nos pisos de saúde e educação, relatou a InfoMoney. Cada uma dessas garantias é legítima. Juntas, formam uma conta que cresce todo ano.
Agora acrescente a compra de dívidas privadas. Quando o Estado compra a carteira de um banco, o risco sai de quem emprestou e passa para quem paga imposto. É o contrário de tudo o que a direita sempre pregou sobre responsabilidade individual.
E a conta?
Do outro lado do balanço, o programa registrado oferece um “tesouraço” na despesa e o corte de pelo menos dez ministérios. Não informa, porém, um único real de economia, segundo a Forbes. O corte existe como palavra de ordem; como número, não existe.
Quando um número apareceu, a campanha o desmentiu. A Folha revelou que a equipe econômica estudava um corte de cerca de R$ 250 bilhões, perto de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Uma das medidas: corrigir só pela inflação as aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Outra: fazer o mesmo com o BPC, o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.
O mesmo estudo previa reajustar pela inflação os pisos de saúde e educação. Tudo seria aprovado numa “Super PEC” antes mesmo da posse, segundo a IstoÉ Dinheiro. PEC é a proposta de emenda à Constituição. A campanha respondeu que aquela não era sua posição oficial.
Ficou assim: o único corte com número foi negado, e as promessas de gasto continuam de pé. Mais Estado de um lado, menos conta do outro.
Nem a própria equipe fecha essa conta. Marcelo Kayath, cotado para comandar a economia num governo Flávio, considerou inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo entrevista ao Estadão reproduzida pelo Terra. É exatamente o tamanho do espaço que o candidato prometeu liberar.
E a campanha não decide nem para que lado vai. Na segunda-feira (19), a coordenadora do programa, Daniella Marques, anunciou uma transição de dois anos para quem recebe o Bolsa Família, segundo o Metrópoles. Onze dias antes, o candidato falava em ampliar o programa. Ampliar ou limitar? Cada porta-voz responde uma coisa.
Há um fato que precisa ser dito, porque negá-lo seria desonesto. A dívida bruta citada por Flávio no debate, de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB, é real. A Lupa checou e confirmou. O diagnóstico dele está certo. O problema é o remédio: ninguém reduz uma dívida dessas prometendo gastar mais.
O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato chama de “fake news” do PT a ideia de corrigir benefícios só pela inflação e promete reajuste real aos aposentados. Ele diz que manterá os ganhos reais do salário mínimo e não alterará os pisos de saúde e educação, segundo o Poder360 e a InfoMoney.
Mais Estado, mais promessa, menos conta: esse é o programa que se vende como direita. Não peço a ninguém que goste de Lula. Peço que ninguém entregue a bandeira da responsabilidade fiscal a quem a usa como enfeite de palanque.
A direita que cobrou contas em dia de todos os governos não pode abrir exceção para o próprio candidato. No dia 25, o eleitor de direita pode recusar essa fatura. E chegar a 2030 com o nome limpo e um programa que caiba no Orçamento.
Fontes
- Dívida pública, juros e custo de vida no debate da Band — ND+
- Flávio nega corte em aposentadoria e cita reajuste acima da inflação — Poder360
- Flávio diz que não vai desvincular reajuste do mínimo nem alterar pisos de saúde — InfoMoney
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro
- Lula critica “tesouraço” e questiona onde Flávio fará corte de R$ 250 bilhões — Terra/Estadão
- Bolsa Família terá período de 2 anos para transição, diz campanha de Flávio — Metrópoles
- Checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Agência Lupa



