Liberal de palanque: Flávio promete gastar sem dizer com que dinheiro

Ampliar o Bolsa Família, manter o mínimo acima da inflação e comprar dívidas junto aos bancos: as promessas de Flávio Bolsonaro seguem sem fonte de recursos.

Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fala durante entrevista a jornalistas em dependência do Senado Federal.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista a jornalistas no Senado Federal, em Brasília, em 30 de abril de 2026.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em onze dias de campanha, Flávio Bolsonaro prometeu quatro vezes gastar mais dinheiro público. Em nenhuma delas disse de onde o dinheiro sai. Quem acompanha esta eleição com a planilha aberta encontra sempre o mesmo vazio: a linha “fonte de recursos” está em branco.

A sequência começou em 8 de outubro. Ao rebater Lula, o candidato negou que vá acabar com o Bolsa Família e prometeu ampliar os benefícios, segundo o O Tempo. Do palanque ao debate da Band, o padrão se repetiu — sempre sem a conta.

Esta revista existe para ler Orçamento. Montou o inventário das promessas com a única régua que interessa: o que cada compromisso diz — e o que ele esconde sobre quem paga a conta.

O inventário das promessas

No dia 16, em entrevista à TV Globo, Flávio disse que não vai desvincular o reajuste do salário mínimo. Ou seja: manterá os aumentos acima da inflação. Ele também afirmou que não tocará nos pisos de saúde e educação, segundo o InfoMoney. Fonte dos recursos: não informada.

No dia 18, no debate da Band, prometeu comprar as dívidas de famílias e empresas junto aos bancos. O espaço prometido no Orçamento federal é de mais de R$ 200 bilhões, segundo o ND+. Fonte dos recursos: não informada.

No mesmo palco, prometeu ainda que a taxa de juros “vai cair de forma muito rápida”, como registrou a Metrópoles. O plano registrado, porém, não traz meta para a Selic nem cita o Banco Central, segundo a Forbes. Mais uma promessa, mais uma ausência.

No dia 19, Daniella Marques, coordenadora do programa econômico da campanha, detalhou ao Metrópoles a transição do Bolsa Família. Seriam dois anos para o beneficiário procurar emprego ou abrir o próprio negócio, com retorno automático ao programa se a tentativa fracassar. O custo da regra não foi divulgado. A regra atual já paga 50% do benefício por até 18 meses.

Do outro lado da conta, o plano de governo registrado promete um “tesouraço” e o corte de pelo menos 10 ministérios — sem informar um real, segundo a Forbes. O documento repete o corte como palavra de ordem, nunca como número. Quem promete gastar mais é o mesmo que promete cortar sem dizer onde.

Quatro compromissos, quatro linhas de custo em branco. Juntas, elas desenham um Estado maior, não menor. O mesmo Estado que o candidato promete encolher com o tal tesouraço.

A conta, segundo os economistas

A soma não fecha nem para quem faz contas por profissão — muito menos para quem as paga. A economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute, afirmou ao Correio Braziliense que “a conta das promessas não fecha de jeito algum”. Na avaliação dela, para chegar aos R$ 200 bilhões, “eles vão ter que mexer com a aposentadoria, com o salário mínimo, com o Benefício de Prestação Continuada (BPC)”.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, é igualmente direto: cortar mais de R$ 200 bilhões “não para em pé, porque o governo não tem onde cortar esse montante”. E faz o alerta: “o estelionato eleitoral vai necessariamente acontecer depois”, segundo o mesmo jornal.

O alerta não veio de adversário eleitoral. Veio de economistas de mercado, ouvidos pelo Correio Braziliense. E a palavra que ficou não foi “aperto” — foi “estelionato”, dita por um deles. Prometer tudo a todos é a velha cartilha que a direita sempre criticou no adversário — até agora.

Parece detalhe técnico. Não é: toda promessa de gasto sem fonte termina de um de dois jeitos — imposto maior ou dívida maior. O leitor desta revista não pede milagre; pede planilha. Quer saber se a promessa vem com imposto, com dívida ou com corte — as três únicas fontes que existem.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato nega que vá cortar benefícios. Em 8 de outubro, citou reajuste de aposentadorias acima da inflação e chamou a reportagem sobre o assunto de “fake news” do PT, segundo o Poder360. No dia 16, repetiu que não vai desvincular o reajuste do mínimo nem alterar os pisos de saúde e educação, segundo o InfoMoney.

Liberal no palanque, estatista na planilha. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não somos obrigados a gostar de Lula para cobrar coerência do nosso lado. O contribuinte não é o pagador de última instância das promessas de ninguém — e um liberal de verdade jamais assinaria uma conta dessas. Cobrar coerência do próprio lado é o que separa quem tem princípios de quem tem só um time. No dia 25, a direita pode simplesmente recusar a assinatura — e cobrar, do Congresso, o que o palanque prometeu.

Fontes