Livre mercado não chama banqueiro de irmão
Opinião: Flávio buscou US$ 24 milhões com Vorcaro e escreveu 'irmão' ao banqueiro um dia antes da prisão. Capitalismo sem regra igual não é liberalismo.
Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

No dia 16 de novembro de 2025, Flávio Bolsonaro escreveu ao banqueiro Daniel Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. No dia seguinte, Vorcaro foi preso. Hoje, o senador é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos uma regra básica do livre mercado: as regras valem igual para todos. Quem compra proximidade com o poder não está competindo. Está pegando um atalho que o empresário honesto não tem.
Compadrio é quando o acesso a dinheiro, a contrato ou a favor depende de quem você conhece, e não do que você entrega. O empresário que paga imposto em dia e segue a lei compete em desvantagem contra quem negocia com proximidade do poder. Isso não é liberalismo. É o contrário dele.
O dinheiro que não fecha
Segundo reportagem do Intercept Brasil, Vorcaro, do Banco Master, se comprometeu a pagar US$ 24 milhões para um filme sobre o pai de Flávio, Jair Bolsonaro. O projeto se chama Dark Horse. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.
Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou Vorcaro por atrasos nos pagamentos. Pouco mais de dois meses depois, veio a mensagem de lealdade. Cobrar pagamento atrasado é linguagem de negócio. Escrever “irmão” ao banqueiro um dia antes da prisão já é linguagem de compadrio.
A conta também não fecha no caminho de volta. Em outubro, a Polícia Federal (PF) classificou como “severa” a diferença entre o dinheiro enviado ao exterior e o que voltou. Mais de US$ 12 milhões saíram do país, e só US$ 2,8 milhões voltaram registrados. A PF pediu mais 90 dias de apuração, e o STF ainda não decidiu.
Os termos técnicos pesam aqui. Lavagem de dinheiro é disfarçar a origem de um valor para que ele pareça limpo. Evasão de divisas é mandar dinheiro para o exterior sem o registro que a lei exige. Essas são as suspeitas que o STF investiga, e não são julgamentos.
O que ele diz, e o que os fatos mostram
Flávio sustenta que o dinheiro era privado e lícito. Em 16 de outubro, ele disse que ser senador não deu nada a Vorcaro e atribuiu a diferença a um contrato que não foi cumprido, segundo a CNN Brasil. Essa defesa não explica a mensagem de lealdade enviada na véspera da prisão do banqueiro.
A versão mudou ao longo do caso. Em 13 de maio, pela manhã, Flávio chamou a história de mentira. À noite, confirmou ter pedido “patrocínio privado” para o filme, segundo o Poder360. O Aos Fatos contou pelo menos 43 declarações falsas de Flávio sobre o caso.
Admito o que joga a favor dele. Quando liderou o primeiro turno, a Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5, segundo o Estado de Minas. Mas, no dia do áudio, 13 de maio, o dólar subiu 2,31% e a Bolsa caiu 1,80%, segundo o Metrópoles. O mercado reage ao escândalo, e a euforia de véspera não é projeto de país.
A reação veio também de dentro da direita. Romeu Zema (Novo) chamou de “imperdoável” ouvir Flávio pedir dinheiro a Vorcaro, e disse que era “um tapa na cara” dos brasileiros de bem, segundo o BP Money. Hoje, Zema apoia Flávio e diz que “o inimigo é um só”. Kim Kataguiri (Missão) disse que “a direita brasileira não pode ser refém de bandido”, segundo O Antagonista, e não apoia Flávio no segundo turno.
O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo a CNN Brasil, em 16 de outubro ele disse que o dinheiro era privado e lícito, que ser senador não deu nada a Vorcaro e que a diferença veio de um contrato não cumprido. Em 13 de maio, confirmou ter pedido “patrocínio privado” para o filme, segundo o Poder360.
Não peço que você goste de Lula. Peço que não entregue a bandeira da direita a quem chamou de “irmão” um banqueiro que acabou preso. A Lava Jato cobrou regra igual para todos. Essa cobrança vale também para o candidato da nossa bandeira.
Ser investigado não é ser condenado, e a Justiça decide no tempo dela. Mas a pergunta que a direita precisa fazer não depende do veredito. Quem busca dinheiro de um banqueiro para um projeto pessoal deve explicações ao eleitor, antes de pedir o voto para governar.
No domingo, dia 25, o eleitor de direita pode separar a bandeira do sobrenome. Uma direita que quer economia livre e Justiça igual não pode dar o voto a quem buscou dinheiro com um banqueiro. Muito menos a quem o chamou de irmão às vésperas da prisão dele.
Como fizemos: Esta é uma coluna de opinião. Os fatos citados foram conferidos em reportagens listadas em Fontes, acessadas em outubro de 2026. Os valores de dólar e Bolsa são os publicados pelo Metrópoles e pelo Estado de Minas, sem cálculo próprio. Os valores de US$ 24 milhões, US$ 10,6 milhões, US$ 12 milhões e US$ 2,8 milhões vêm de reportagens e da PF, e não conferimos os documentos da investigação. Flávio é investigado, não réu, e afirma que o dinheiro era privado e lícito.
Fontes
- Intercept Brasil: áudio de Flávio e a negociação com Vorcaro
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Mendonça inclui Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- PF aponta divergência “severa” entre recursos enviados ao exterior — O Povo/DW
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil
- Reação do mercado ao áudio de Flávio Bolsonaro e Vorcaro — Metrópoles
- Eleição faz Ibovespa disparar e dólar operar abaixo de R$ 5 — Estado de Minas



