Liberal não recria privilégio: Flávio quer voltar com o Perse

Coluna: o Perse zerou tributos federais de empresas de eventos, somou R$ 15,685 bilhões em um ano e estourou o teto; Flávio quer restabelecê-lo.

Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

O senador Flávio Bolsonaro, de terno cinza e gravata amarela, concede entrevista em ambiente interno.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista, em foto de arquivo da Agência Senado.Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na terça-feira (20), num vídeo publicado nas redes sociais, Flávio Bolsonaro prometeu trazer de volta o Perse. “Eu vou restabelecer o Perse para todos os setores de eventos culturais, shows e turismo”, disse, segundo a Agenda do Poder.

Nós, que defendemos o livre mercado, a Lava Jato e o agro, precisamos olhar essa promessa com a conta na mão. Antes da conta, um fato que a direita não pode esconder: o Perse nasceu no governo de Jair Bolsonaro, em 2021, durante a pandemia.

Um benefício que estourou o teto

O Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) zerou tributos federais de empresas de eventos culturais, shows e turismo. Entre eles estão o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). O Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) incidem sobre o faturamento.

Em 2024, uma lei fixou um teto de R$ 15 bilhões para o benefício. A Receita informou que o total chegou a R$ 15,685 bilhões entre abril de 2024 e março de 2025, ou 105% do limite. O benefício acabou a partir de abril de 2025, segundo o Mercado & Consumo.

O mesmo site relata que a Fazenda previu que o total poderia “ultrapassar facilmente os R$ 17,55 bilhões”. O custo também já tinha sido subestimado. Segundo a Agenda do Poder, em 2023 as empresas declararam R$ 17 bilhões em benefícios, contra uma previsão de custo anual de R$ 4,4 bilhões. A diferença é de quase quatro vezes.

Flávio diz que as empresas do setor estão sufocadas e endividadas pela crise que atribui ao governo Lula. Segundo a CNN Brasil, ele também disse: “Vou salvar o setor de shows, porque onde tem eventos, o comércio vende mais”. O governo Lula argumentou que o benefício estava sendo usado por empresas fora do setor de eventos. As reportagens sobre a promessa não trazem valor estimado para a volta do benefício. Nelas, a promessa também não menciona teto nem critério para entrar no benefício.

Liberal corta privilégio, não recria

Um benefício para um setor escolhido cria uma exceção. Quem paga a alíquota cheia são os demais contribuintes, que não ganharam o mesmo favor. Nós sempre dissemos que isso é privilégio, e não política de crescimento. Um liberal de verdade pergunta três coisas antes de aprovar um benefício: quanto custa, quem recebe e quem paga. Nos números publicados, o Perse falhou nas duas primeiras: o custo ficou acima do previsto e o teto foi estourado.

O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fala em “tesouraço” e em cortar pelo menos dez ministérios. Segundo a Forbes, o texto não diz quais pastas cairiam nem quanto economizariam. No debate da Band, Flávio prometeu abrir mais de R$ 200 bilhões no Orçamento, segundo o ND+.

A economista Monica de Bolle disse que a conta das promessas “não fecha de jeito algum”. Sergio Vale, da MB Associados, chamou o corte de R$ 200 bilhões de irreal, segundo o Correio Braziliense. Marcelo Kayath, cotado para a equipe econômica, considerou inviável um ajuste desse tamanho em um ano, segundo o Terra.

Admitimos o que é verdadeiro. A dívida bruta chegou a R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o total de tudo o que o país produz em um ano. A Lupa checou a afirmação de Flávio no debate e a classificou como verdadeira. O diagnóstico está certo; o problema é o remédio.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirma que vai “restabelecer o Perse para todos os setores de eventos culturais, shows e turismo”, e que o benefício ajuda artistas e comércio, segundo a Agenda do Poder e a CNN Brasil. Nas reportagens consultadas, a campanha não informa quanto custaria a volta do benefício nem de onde viria a compensação.

O que isso significa

Quem defende a Lava Jato, a polícia e o agro sabe ler essa conta. Basta não entregar a bandeira da responsabilidade fiscal a quem recria um privilégio setorial em nome da liberdade econômica.

No segundo turno, dia 25, o eleitor de direita pode cobrar essa conta. Não peço que ninguém goste de Lula. Peço que ninguém confunda volta de privilégio com liberalismo. A pergunta não é sobre Lula. É se a direita aceita um benefício para setor escolhido só porque a proposta vem do próprio candidato.

Como fizemos: Esta é uma coluna de opinião. Os fatos foram conferidos nas reportagens listadas em Fontes, acessadas em outubro de 2026. Os valores de Receita e Fazenda são de períodos diferentes e não foram corrigidos pela inflação. A projeção de R$ 17,55 bilhões é da Fazenda, e a comparação de quase quatro vezes (R$ 17 bilhões ante R$ 4,4 bilhões) é nosso cálculo sobre valores de 2023, publicados pela Agenda do Poder. Os dados não mostram quanto custaria a volta do Perse.

Fontes