Flávio recusa o resultado; a primeira regra do mercado é aceitá-lo

Ao recusar o resultado da eleição de 25 de outubro, Flávio Bolsonaro mina a regra que sustenta contratos, crédito e investimento.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Fachada espelhada do edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, com cúpulas brancas em primeiro plano.
Edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília.Foto: Alexandresena / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Opinião. Texto de opinião da Revista Independência, separado da apuração.

No domingo (25), Lula foi reeleito presidente com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro teve 59.826.041, ou 48,21%. Os números são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reunidos pela Jovem Pan. A diferença é de 4.430.191 votos.

Na mesma noite, Flávio disse que “é impossível reconhecer o resultado” e anunciou que vai pedir a anulação do segundo turno. Este texto defende uma tese simples. Nenhuma economia funciona sem que o perdedor aceite as regras do jogo, e a contagem dos votos é a mais básica delas.

Contrato, crédito e investimento dependem de uma premissa. Quem perde aceita o resultado, e quem ganha governa até a próxima eleição. Quando essa premissa cai, cada decisão passa a depender de quem fala mais alto.

Os 34 mil votos e a conta de 4,4 milhões

Flávio diz que a prorrogação da votação quebrou a igualdade entre eleitores de diferentes estados. No meio da tarde de domingo, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu a votação até as 19h. Segundo a Agência Brasil, o pedido veio da campanha de Lula.

Entre 17h e 19h, foram registrados 34.319 votos, segundo registros de urna compilados pela Jovem Pan. A CNN Brasil, com dados do TSE, fala em 34.330. Esses registros mostram o horário do voto, não o candidato escolhido.

Nossa conta é simples. A diferença final é cerca de 129 vezes maior que esse número. Mesmo que todos os 34 mil votos tivessem ido para Flávio, a vantagem de Lula ainda seria de mais de 4,3 milhões.

Votar depois das 17h também não é novidade. No primeiro turno, sem prorrogação, 3.724.999 eleitores votaram após esse horário, porque já estavam na fila, segundo a CNN Brasil.

Zanin também esclareceu a decisão. A prorrogação vale nos locais onde a votação ainda não tinha sido encerrada, e os votos das urnas já fechadas seriam computados, segundo a Migalhas.

Flávio também acusa o ministro, ex-advogado de Lula, de mudar as regras no meio da disputa. Quem discorda de uma decisão judicial tem recursos previstos em lei. Recusar o resultado das urnas não é um deles.

Sala-cofre, fiscais e a conta do mercado

Flávio afirmou que “nossos fiscais do PL foram retirados dentro da sala-cofre” depois da decisão de Zanin. Os fiscais são representantes dos partidos que acompanham a votação. Ele disse ainda que há “muita coisa para ser esclarecida”.

O TSE classificou a afirmação como falsa. Segundo a nota, a sala-cofre “não é um espaço aberto à visitação”, mas fiscais podem circular por outras áreas, como a Sala de Totalização. O tribunal diz ter registros de presença e filmagem que comprovam o acesso. Se houver prova em contrário, ela deve ir à Justiça Eleitoral, não ao noticiário.

O mercado reagiu na segunda-feira (26). Às 9h57, a B3, bolsa de valores brasileira, acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende os negócios após uma queda forte, por 30 minutos. Na abertura, o dólar chegou a R$ 5,60, alta de 12,52%, segundo a CNN Brasil.

A maioria dos analistas aponta o risco fiscal, ou seja, dúvidas sobre as contas do próximo governo. Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, cita também o risco institucional ligado à polêmica eleitoral. Não dá para atribuir toda a reação à recusa do resultado. Mas a dúvida sobre a regra soma-se à dúvida sobre as contas.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não indica nenhum investimento. Quem sente a conta no fim não é só o investidor. Dólar mais caro encarece importados. Juros altos encarecem o crédito de quem compra casa, carro ou abre um negócio.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ao anunciar o pedido de anulação, em 25 de outubro, disse que “é impossível reconhecer o resultado”, segundo o Poder360. Em entrevista à TV Globo, em 16 de outubro, afirmou que disputaria “com as regras que estão aí” e que vai “respeitar” o resultado.

O pedido de anulação ainda terá de passar pela Justiça Eleitoral, que deve decidir com base em provas. A dúvida não pode ser tratada como verdade. Quem fala em segurança jurídica e defesa do mercado precisa começar pelo básico. É preciso respeitar a regra que o próprio Flávio disse, em 16 de outubro, que respeitaria.

Como fizemos: Usamos a apuração do segundo turno do TSE, reunida pela Jovem Pan e acessada em 26/10/2026. A diferença de 4.430.191 votos, a comparação com os 34.319 votos registrados após as 17h e a razão de cerca de 129 vezes são cálculos nossos. Os registros mostram o horário do voto, não o candidato escolhido, e por isso não dizem quem recebeu esses votos. A CNN Brasil, com dados do TSE, registra 34.330.

Fontes