Queda da B3 mede expectativa de quem tem ações, não o voto
Opinião: a bolsa caiu com a reeleição de Lula, mas o preço das ações mede retorno esperado por investidores, não o consentimento dos eleitores.
Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Contraponto. Análise assinada, separada da apuração da Revista Independência.
Às 12h42 desta segunda-feira (26), o Ibovespa caía 14,44%. O índice reúne as ações mais negociadas da B3, a bolsa de valores de São Paulo. Nesse horário, o dólar comercial subia 8,47%, a R$ 5,415. Mais cedo, às 9h57, o pregão já tinha parado por 30 minutos pelo circuit breaker, mecanismo que suspende a negociação em quedas fortes. Os horários são do acompanhamento ao vivo do InfoMoney.
Lula foi reeleito no domingo (25), com 51,79% dos votos válidos, segundo a contagem final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quando a bolsa cai no dia seguinte a uma eleição, é tentador ler a queda como um veredito sobre o eleito. Essa leitura confunde duas coisas diferentes.
Preço de ação não é voto
Preço de ação mostra quanto investidores esperam ganhar com o próprio dinheiro. Não mostra o que a população quer do governo. A diferença aparece nos números.
A B3 contava 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas com conta em renda variável, como ações e fundos de preço oscilante, no segundo trimestre de 2026. No mesmo ano, o TSE registrou 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Ou seja, há quase 28 eleitores para cada CPF com investimento em bolsa, cálculo nosso.
O pregão pesa, portanto, a visão de cerca de 3,6% do eleitorado, e pesa mais quem tem mais ações. Ação não é urna. Quem investe pesa pelo tamanho da carteira, não pelo número de cidadãos.
A bolsa também sobe quando trabalhadores perdem o emprego. Em 16 de outubro de 2025, a Nestlé anunciou cerca de 16 mil demissões. Suas ações saltaram quase 8% no início do pregão em Zurique, segundo o Metrópoles. Em 2023, a Forbes Brasil registrou alta de 7,3% das ações da Meta no dia seguinte ao anúncio de 10 mil demissões. As ações da Disney subiram 8,5% nas horas seguintes ao corte de 7 mil vagas.
Para o mercado, demissão pode ser boa notícia. Para quem perde o emprego, não é.
Credibilidade se constrói com regra
O argumento do mercado merece resposta direta. Contas públicas fora de controle empurram os juros para cima, e juros altos pesam sobre todos: crédito, financiamento e a dívida do próprio governo. A Selic, a taxa básica de juros, está em 13,75% ao ano, após o corte do Banco Central em setembro.
Essa preocupação é legítima. A Revista Independência também defende que as contas fechem. A discussão é como fechá-las.
Mas credibilidade fiscal não nasce do pregão. Nasce de regra escrita e de resultado repetido. O arcabouço fiscal, criado pela Lei Complementar 200, de 2023, limita o crescimento das despesas e fixa metas para as contas. Sua força vem de cumpri-las, e não de uma cotação.
Em 2002, o mercado também temia uma vitória de Lula, e a resposta veio em forma de compromisso escrito. Na Carta ao Povo Brasileiro, de 22 de junho daquele ano, o candidato reconheceu “uma forte preocupação do mercado financeiro com o mau desempenho da economia”. Ele também prometeu “preservar o superávit primário”, ou seja, o dinheiro que sobra das receitas antes de pagar juros.
Dez meses depois da posse, em novembro de 2003, o Ibovespa chegou a 19.113 pontos. Foi o maior nível desde a criação da bolsa, em 1968, segundo a Agência Brasil. O medo de 2002 não foi resolvido em pregão. Foi tratado com regras, compromissos e resultados.
O que diz a B3: A bolsa publica boletins trimestrais com o número de pessoas físicas investidoras e não localizamos pronunciamento da bolsa sobre o resultado da eleição até as 13h15. Este texto é opinião da Revista Independência, e a B3 não foi consultada para ele.
Ações podem perder valor, e quedas como essa podem se aprofundar antes de qualquer recuperação. Este texto não é recomendação de investimento. A pergunta útil não é quanto caiu a bolsa. É quais regras o próximo governo vai apresentar para as contas, e quem vai pagar a conta. Essa resposta cabe ao governo e ao Congresso, eleitos pelo voto, e não ao pregão.
Como fizemos: Usamos a cobertura ao vivo do InfoMoney de 26/10/2026, com horários de 9h57 a 12h42, e não o fechamento do dia, que saiu depois das 13h15. O número de eleitores aptos vem do TSE, divulgado em julho de 2026, e o de CPFs vem do boletim da B3 sobre o 2º trimestre de 2026, acessados em 26/10/2026. Os cálculos são nossos: 158,7 milhões dividido por 5,7 milhões dá cerca de 28; 5,7 dividido por 158,7 dá 3,6%. CPF não é voto, e o número de pessoas com investimento pode mudar de um trimestre para outro.
Fontes
- Ibovespa hoje: bolsa de valores ao vivo, 26/10/2026 — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Resultado final do 2º turno de 2026, com votos de Lula e Flávio Bolsonaro — ND Mais
- Eleições 2026: mais de 158,7 milhões de pessoas estão aptas a votar, segundo o TSE — Bloomberg Línea (24/07/2026)
- Base de investidores pessoa física da B3 no 2º trimestre de 2026 — LetsMoney (18/09/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Nestlé anuncia demissões em massa; 16 mil vão perder empregos — Metrópoles (16/10/2025)
- Há lucro com layoffs? Como se comportam as ações após anúncios de demissões — Forbes Brasil (21/12/2023)
- Lei Complementar nº 200, de 30/08/2023, arcabouço fiscal — Senado Federal
- Carta ao Povo Brasileiro, de 22/06/2002 — Congresso em Foco
- Ibovespa atinge 19.113 pontos, maior nível desde 1968 — Agência Brasil (13/11/2003)
- Taxa Selic e comunicados do Copom — Banco Central do Brasil
- Sao Paulo Stock Exchange, foto de Rafael Matsunaga — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



