Queda da B3 mede expectativa de quem tem ações, não o voto

Opinião: a bolsa caiu com a reeleição de Lula, mas o preço das ações mede retorno esperado por investidores, não o consentimento dos eleitores.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Dois operadores de costas, sentados diante de telas e de um painel com cotações de ações, em pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
Operadores diante do painel de cotações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de arquivo.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Contraponto. Análise assinada, separada da apuração da Revista Independência.

Às 12h42 desta segunda-feira (26), o Ibovespa caía 14,44%. O índice reúne as ações mais negociadas da B3, a bolsa de valores de São Paulo. Nesse horário, o dólar comercial subia 8,47%, a R$ 5,415. Mais cedo, às 9h57, o pregão já tinha parado por 30 minutos pelo circuit breaker, mecanismo que suspende a negociação em quedas fortes. Os horários são do acompanhamento ao vivo do InfoMoney.

Lula foi reeleito no domingo (25), com 51,79% dos votos válidos, segundo a contagem final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quando a bolsa cai no dia seguinte a uma eleição, é tentador ler a queda como um veredito sobre o eleito. Essa leitura confunde duas coisas diferentes.

Preço de ação não é voto

Preço de ação mostra quanto investidores esperam ganhar com o próprio dinheiro. Não mostra o que a população quer do governo. A diferença aparece nos números.

A B3 contava 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas com conta em renda variável, como ações e fundos de preço oscilante, no segundo trimestre de 2026. No mesmo ano, o TSE registrou 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Ou seja, há quase 28 eleitores para cada CPF com investimento em bolsa, cálculo nosso.

O pregão pesa, portanto, a visão de cerca de 3,6% do eleitorado, e pesa mais quem tem mais ações. Ação não é urna. Quem investe pesa pelo tamanho da carteira, não pelo número de cidadãos.

A bolsa também sobe quando trabalhadores perdem o emprego. Em 16 de outubro de 2025, a Nestlé anunciou cerca de 16 mil demissões. Suas ações saltaram quase 8% no início do pregão em Zurique, segundo o Metrópoles. Em 2023, a Forbes Brasil registrou alta de 7,3% das ações da Meta no dia seguinte ao anúncio de 10 mil demissões. As ações da Disney subiram 8,5% nas horas seguintes ao corte de 7 mil vagas.

Para o mercado, demissão pode ser boa notícia. Para quem perde o emprego, não é.

Credibilidade se constrói com regra

O argumento do mercado merece resposta direta. Contas públicas fora de controle empurram os juros para cima, e juros altos pesam sobre todos: crédito, financiamento e a dívida do próprio governo. A Selic, a taxa básica de juros, está em 13,75% ao ano, após o corte do Banco Central em setembro.

Essa preocupação é legítima. A Revista Independência também defende que as contas fechem. A discussão é como fechá-las.

Mas credibilidade fiscal não nasce do pregão. Nasce de regra escrita e de resultado repetido. O arcabouço fiscal, criado pela Lei Complementar 200, de 2023, limita o crescimento das despesas e fixa metas para as contas. Sua força vem de cumpri-las, e não de uma cotação.

Em 2002, o mercado também temia uma vitória de Lula, e a resposta veio em forma de compromisso escrito. Na Carta ao Povo Brasileiro, de 22 de junho daquele ano, o candidato reconheceu “uma forte preocupação do mercado financeiro com o mau desempenho da economia”. Ele também prometeu “preservar o superávit primário”, ou seja, o dinheiro que sobra das receitas antes de pagar juros.

Dez meses depois da posse, em novembro de 2003, o Ibovespa chegou a 19.113 pontos. Foi o maior nível desde a criação da bolsa, em 1968, segundo a Agência Brasil. O medo de 2002 não foi resolvido em pregão. Foi tratado com regras, compromissos e resultados.

O que diz a B3: A bolsa publica boletins trimestrais com o número de pessoas físicas investidoras e não localizamos pronunciamento da bolsa sobre o resultado da eleição até as 13h15. Este texto é opinião da Revista Independência, e a B3 não foi consultada para ele.

Ações podem perder valor, e quedas como essa podem se aprofundar antes de qualquer recuperação. Este texto não é recomendação de investimento. A pergunta útil não é quanto caiu a bolsa. É quais regras o próximo governo vai apresentar para as contas, e quem vai pagar a conta. Essa resposta cabe ao governo e ao Congresso, eleitos pelo voto, e não ao pregão.

Como fizemos: Usamos a cobertura ao vivo do InfoMoney de 26/10/2026, com horários de 9h57 a 12h42, e não o fechamento do dia, que saiu depois das 13h15. O número de eleitores aptos vem do TSE, divulgado em julho de 2026, e o de CPFs vem do boletim da B3 sobre o 2º trimestre de 2026, acessados em 26/10/2026. Os cálculos são nossos: 158,7 milhões dividido por 5,7 milhões dá cerca de 28; 5,7 dividido por 158,7 dá 3,6%. CPF não é voto, e o número de pessoas com investimento pode mudar de um trimestre para outro.

Fontes