Responsabilidade fiscal não é prometer tudo a todos

Coluna: Flávio promete reajuste real do mínimo e compra das dívidas das famílias — e, ao mesmo tempo, um tesouraço sem números. A conta não fecha.

Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, durante entrevista.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, durante entrevista à Agência Senado, em 30 de abril de 2026 (foto de arquivo).Foto: Ton Molina / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na noite de domingo (18), no debate da Band, Flávio Bolsonaro fez a promessa mais cara da campanha: comprar as dívidas das famílias e das empresas junto aos bancos. Segundo o ND+, ele também garantiu que vai liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento. Dois dias antes, na Globo, prometera manter o ganho real do salário mínimo, acima da inflação, relatou o InfoMoney.

Contra tudo isso, o candidato do Partido Liberal (PL) promete, ao mesmo tempo, um tesouraço — o corte radical de gastos. O plano de governo registrado fala em eliminar pelo menos dez ministérios e criar novas regras fiscais. Em nenhuma linha, porém, aparece quanto seria cortado, em reais, segundo a Forbes. É a tesoura sem número.

Escrevo esta coluna como quem defende o livre mercado, a Lava Jato e o agro. Para este leitor, responsabilidade fiscal começa com uma palavra difícil: não. Dizer sim a todo mundo e sim à tesoura, na mesma frase, não é liberalismo. É o velho populismo, com vocabulário novo. E populismo, na economia, tem endereço certo: quem paga é quem produz.

A conta que não fecha

Não sou eu quem fez a conta. A economista Monica de Bolle é direta, em reportagem do Correio Braziliense: as promessas de Flávio “não fecham de jeito algum”. Sergio Vale, da MB Associados, chama o corte de R$ 200 bilhões de irreal e alerta para o “estelionato eleitoral”. Prometer gasto novo sem dizer de onde vem o dinheiro é, no dicionário do contribuinte, cheque sem fundo.

Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), avalia que os sinais econômicos do candidato são confusos. E há um risco específico, segundo o Jornal de Brasília: economistas temem que a “pauta da vingança” — anistia e impeachment de ministros — atrapalhe o ajuste fiscal. Quem governa cobrando contas antigas não fecha contas novas.

O plano também promete rever a reforma tributária recém-aprovada. Para o contribuinte, o problema é o mesmo do tesouraço: promessa sem planilha. E o mercado cobra precisão, não adjetivo.

O que é verdade do outro lado

Sejamos honestos com os fatos, porque o leitor de direita detesta coluna que esconde número. A herança fiscal de Lula é ruim. A dívida bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 11,1 trilhões. Flávio citou a cifra no debate, e a checagem da Lupa a classificou como verdadeira. A inflação segue fora do combinado: o IPCA, a inflação oficial, acumula 4,58% em 12 meses, acima do teto da meta, de 4,5%.

Admito também que o mercado apostou nele. Quando Flávio liderou o primeiro turno, a Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5, segundo o Estado de Minas. Nenhum dos três fatos, porém, paga a conta prometida. O mesmo mercado que aplaudiu é o que teme a pauta da vingança. Aposta de véspera não é plano de governo.

Vá além: é justamente porque as contas públicas estão ruins que a direita precisava de um candidato fiscalmente crível, capaz de dizer não. Flávio diz sim a todos e empunha a tesoura sem dizer onde ela corta. Alguém paga a diferença, e nunca é o candidato. É o contribuinte, no imposto, na inflação ou no juro.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O plano de governo registrado prevê o tesouraço, com corte de pelo menos dez ministérios e novas regras fiscais. O candidato nega que cortará benefícios: prometeu manter o ganho real do salário mínimo acima da inflação. No debate da Band, sustentou que os cortes liberariam mais de R$ 200 bilhões no Orçamento — o dinheiro que bancaria as promessas.

O segundo turno é no dia 25. Quem vencer herdará a mesma dívida de R$ 11,1 trilhões, a mesma inflação acima da meta e o mesmo Congresso. A diferença é o que sobra da direita depois de quatro anos. Eu, que defendo a Lava Jato, a polícia e o agro, não empresto a bandeira fiscal a quem promete tudo a todos. Quem promete tudo não corta nada.

Fontes