Livre mercado é não usar banco estatal para comprar mansão

Coluna: quem prega livre mercado não compra mansão com crédito de banco estatal a juros abaixo da média. Flávio Bolsonaro fez — e a direita precisa cobrar.

Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Edifício-sede do BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal, em Brasília.
Edifício-sede do BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal, em Brasília, em outubro de 2019 (imagem de arquivo).Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também defendemos o livre mercado — de verdade, não de palanque. E o livre mercado tem uma regra simples: ninguém deve pagar juro menor porque tem sobrenome ou telefone útil. Crédito subsidiado em banco estatal é o contrário disso.

A conta do privilégio é fácil de fazer. Crédito subsidiado distorce o preço do dinheiro. Quem tem acesso paga menos; quem não tem paga duas vezes — no imposto que cobre a diferença e na taxa mais alta que recebe. A crítica não é ao banco público em si, e sim ao privilégio: taxa abaixo do mercado para quem tem porta de entrada.

É por isso que o histórico de Flávio Bolsonaro incomoda quem é de direita por convicção. O candidato que prega o liberalismo econômico comprou uma mansão com crédito de um banco estatal, o BRB, a juros abaixo da média do mercado. O BRB é o Banco de Brasília, sociedade de economia mista controlada pelo governo do Distrito Federal. Quem banca a diferença entre a taxa dele e a taxa do mercado é o banco — e, no fim das contas, o contribuinte.

A direita sempre criticou o crédito dirigido — quando o petista usa. Quando o favorecido é o nosso candidato, o discurso muda. Não deveria. Princípio que vale para o adversário e não vale para aliado não é princípio: é torcida.

O histórico que o palanque não mostra

Os números da família com imóveis estão documentados desde 2022. Segundo levantamento do UOL, os Bolsonaro negociaram 107 imóveis. Ao menos 51 foram pagos, total ou parcialmente, em dinheiro vivo: R$ 13,5 milhões, corrigidos para R$ 25,6 milhões. Vinte e cinco desses imóveis aparecem nas apurações da rachadinha. A participação individual de Flávio nas compras em dinheiro não foi apurada pelo levantamento — e isso precisa ser dito com todas as letras.

Cinquenta e um imóveis pagos em dinheiro vivo não são um detalhe: são o retrato de uma família que preferiu o caixa ao banco. A resposta do senador foi processar. Entrou com queixa-crime contra os dois repórteres do UOL, por calúnia e difamação, com pedido de indenização por danos morais. Uma ordem de retirada das reportagens foi revertida pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na mesma noite, em setembro de 2022.

O “irmão” da Faria Lima

O segundo episódio é o caso Dark Horse. Segundo o Intercept, o banqueiro Daniel Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — por um filme sobre Jair Bolsonaro. Ao menos US$ 10,6 milhões saíram entre fevereiro e maio de 2025, rumo a um fundo no Texas ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro. Na véspera da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal (PF), em 16 de novembro de 2025, Flávio mandou uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

O inquérito corre no STF, aberto pelo ministro André Mendonça a pedido da PF, por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio é investigado, não réu. Confirmou que buscou o que chama de “patrocínio privado” para um filme privado, e nega ter oferecido qualquer contrapartida. O Aos Fatos contabilizou ao menos 43 afirmações falsas dele sobre Vorcaro. A Lupa classificou como falso o argumento de que o contrato e o fundo já haviam sido mostrados. Quem conta a verdade simples não precisa de 43 versões.

Uma candidatura de direita se sustenta em coerência: a mesma régua para o adversário e para o aliado. Se o crédito estatal subsidiado é ruim quando beneficia petista, continua ruim quando beneficia bolsonarista. Caso contrário, não sobra princípio — sobra camisa.

O que diz Flávio Bolsonaro: Sobre os imóveis, o senador entrou com queixa-crime por calúnia e difamação contra os repórteres do UOL que assinaram a série. A ordem de retirada das reportagens foi revertida pelo ministro André Mendonça na mesma noite, em setembro de 2022. Sobre o caso Dark Horse, ele diz que o dinheiro era privado e lícito — “Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet” — e nega ter oferecido vantagens em troca.

Não peço a ninguém que goste de Lula. Peço que não entreguem a bandeira da liberdade econômica a quem a usa como fantasia de palanque. A direita liberal não pode ter, como candidato, um histórico desses. Mansão financiada por banco estatal. Cinquenta e um imóveis em dinheiro vivo na família. US$ 24 milhões pedidos a um banqueiro depois preso pela PF. O eleitor de direita não precisa de pureza; precisa de alguém que não faça do Estado o cofre da família.

No dia 25, esse eleitor decide entre uma direita de princípios e uma direita de sobrenome. Livre mercado é não usar banco estatal para comprar mansão. Flávio usou. Cobrar coerência agora é o mínimo — para não passar os próximos quatro anos explicando o inexplicável.

Fontes