Flávio promete criar um ministério e cortar ao menos dez, sem custo

O plano registrado no TSE prevê cortar ao menos dez ministérios; a promessa de criar o Ministério da Prosperidade não traz custo nem lista de pastas.

Bloco A da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com as placas dos ministérios da Cidadania e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.
O bloco A da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com as placas de dois ministérios; foto de arquivo.Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 9 de outubro, num programa de TV, Flávio Bolsonaro disse: “Eu vou criar o Ministério da Prosperidade.” O Congresso em Foco publicou a fala no mesmo dia. No debate da Band, em 18 de outubro, ele repetiu a promessa, segundo o InfoMoney.

Já o plano de governo registrado em agosto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete cortar pelo menos dez ministérios, segundo o Congresso em Foco. O nome da nova pasta não aparece nesse plano, segundo o InfoMoney. Uma pasta a mais e pelo menos dez a menos, sem que o texto diga como as duas coisas se encaixam.

O que seria a nova pasta

Segundo o InfoMoney, o ministério reuniria programas sociais, capacitação profissional e apoio ao empreendedorismo. Ele assumiria funções hoje do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O Bolsa Família seria mantido, mas ligado a iniciativas de geração de renda, segundo a mesma reportagem. O mesmo texto diz que o plano propõe transformar a Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”.

Promessa por promessa, o que tem número

Quanto custa e quanto economiza cada promessa Valores publicados até 20 de outubro de 2026. “Não informado” quando nenhuma fonte trouxe número

Promessa Valor informado Situação
Criar o Ministério da Prosperidade (TV, 9/10; Band, 18/10) Não informado Nome não consta do plano no TSE
Cortar pelo menos dez ministérios (plano no TSE) Não informado Nenhuma pasta nomeada
“Tesouraço” de gastos (plano no TSE) Não informado Nenhuma economia estimada
Abrir mais de R$ 200 bilhões no Orçamento (Band, 18/10) Mais de R$ 200 bilhões Sem corte com valor no plano
Corte estudado pela equipe econômica (Folha, 7 e 8/10) Cerca de R$ 250 bilhões Campanha diz que não há posição oficial
Banco da Prosperidade (Caixa) Não informado Prazos, juros e volume de crédito não divulgados

Fontes: InfoMoney, Congresso em Foco, Forbes, ND+ e IstoÉ Dinheiro (Folha). Elaboração: redação.

O único corte em reais atribuído à equipe de Flávio veio de um estudo relatado pela Folha. Segundo a Folha, citada pela IstoÉ Dinheiro, a equipe estudava reduzir despesas obrigatórias em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), ou cerca de R$ 250 bilhões. A campanha respondeu que “ainda não há posição oficial sobre o tema”.

Segundo o InfoMoney, a campanha ainda não informou quanto custaria a nova estrutura. Também não há prazo, taxa ou volume de crédito para o Banco da Prosperidade.

Criar uma pasta exige sede, cargos e orçamento. Segundo o Congresso em Foco, o plano também prevê menos cargos comissionados. Nenhum desses itens vem com valor.

O padrão se repete. Os cortes que a campanha assume, como o tesouraço e os dez ministérios, não têm valor. Nas reportagens consultadas, o R$ 200 bilhões prometido no debate não aparece ligado a nenhum corte com valor. O único valor de corte veio de um estudo que a campanha não assume.

Dois anos de Bolsa Família, sem custo

Na segunda-feira (19), a coordenadora do programa de governo, Daniella Marques, anunciou dois anos de transição no Bolsa Família. Quem recebe o benefício teria esse prazo para achar emprego ou abrir um negócio. Se não der certo, a pessoa volta ao programa automaticamente, segundo o Metrópoles.

O InfoMoney atribui ao novo ministério justamente programas sociais e capacitação para o trabalho. A agenda já tem prazo anunciado, mas as reportagens consultadas não trazem custo nem economia estimada.

Os R$ 200 bilhões seguem a mesma lógica. Marcelo Kayath, cotado para a equipe de Flávio, considerou inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra.

Segundo a BBC, reproduzida pelo O Povo, indexar o salário mínimo só pela inflação pouparia cerca de R$ 15 a 16 bilhões no primeiro ano. Isso dá cerca de 6% dos R$ 250 bilhões, conta nossa. O restante teria de vir das aposentadorias, onde cerca de 70% dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebem um salário mínimo.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Segundo a IstoÉ Dinheiro, a assessoria afirma que a posição econômica do candidato “está expressa, de forma objetiva e verificável, no plano de governo”. Sobre o corte estudado pela equipe, a assessoria disse que “ainda não há posição oficial sobre o tema”.

O que isso significa

O único corte com valor é um estudo relatado pela Folha, que a campanha não assume como posição oficial. As promessas de gasto estão no discurso: reajuste das aposentadorias acima da inflação, Bolsa Família ampliado e salário mínimo com ganho real, segundo Poder360, O Tempo e InfoMoney. As promessas de corte, que deveriam pagá-las, não têm valor.

Na disputa, o gasto prometido tem voz, mas a conta que o pagaria não tem número. As reportagens consultadas não trazem o custo do ministério, a lista de pastas que cairiam nem a origem dos R$ 200 bilhões.

Ficam em aberto quatro pontos: quanto custa o novo ministério, quais pastas fecham, como funcionaria o Banco da Prosperidade e de onde sai o dinheiro prometido. Nas reportagens consultadas, nenhum deles tem valor ou fonte publicados pela campanha.

Como fizemos: Reunimos reportagens publicadas entre 9 e 20 de outubro de 2026 sobre as promessas, o plano de governo registrado no TSE e os valores citados, acessadas em 21 de outubro de 2026. Não lemos o PDF do plano; usamos as reportagens que o descrevem. Na tabela, “não informado” quer dizer que nenhuma fonte consultada trouxe número. A proporção de cerca de 6% é nosso cálculo sobre o valor de R$ 15 a 16 bilhões, relatado pela BBC, e os R$ 250 bilhões do estudo relatado pela Folha. Não fizemos outras estimativas de custo. Não foi possível contatar a campanha para esta análise; a posição dela vem de respostas já publicadas.

Fontes