Flávio promete criar um ministério e cortar ao menos dez, sem custo
O plano registrado no TSE prevê cortar ao menos dez ministérios; a promessa de criar o Ministério da Prosperidade não traz custo nem lista de pastas.

Em 9 de outubro, num programa de TV, Flávio Bolsonaro disse: “Eu vou criar o Ministério da Prosperidade.” O Congresso em Foco publicou a fala no mesmo dia. No debate da Band, em 18 de outubro, ele repetiu a promessa, segundo o InfoMoney.
Já o plano de governo registrado em agosto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete cortar pelo menos dez ministérios, segundo o Congresso em Foco. O nome da nova pasta não aparece nesse plano, segundo o InfoMoney. Uma pasta a mais e pelo menos dez a menos, sem que o texto diga como as duas coisas se encaixam.
O que seria a nova pasta
Segundo o InfoMoney, o ministério reuniria programas sociais, capacitação profissional e apoio ao empreendedorismo. Ele assumiria funções hoje do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O Bolsa Família seria mantido, mas ligado a iniciativas de geração de renda, segundo a mesma reportagem. O mesmo texto diz que o plano propõe transformar a Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”.
Promessa por promessa, o que tem número
Quanto custa e quanto economiza cada promessa Valores publicados até 20 de outubro de 2026. “Não informado” quando nenhuma fonte trouxe número
| Promessa | Valor informado | Situação |
|---|---|---|
| Criar o Ministério da Prosperidade (TV, 9/10; Band, 18/10) | Não informado | Nome não consta do plano no TSE |
| Cortar pelo menos dez ministérios (plano no TSE) | Não informado | Nenhuma pasta nomeada |
| “Tesouraço” de gastos (plano no TSE) | Não informado | Nenhuma economia estimada |
| Abrir mais de R$ 200 bilhões no Orçamento (Band, 18/10) | Mais de R$ 200 bilhões | Sem corte com valor no plano |
| Corte estudado pela equipe econômica (Folha, 7 e 8/10) | Cerca de R$ 250 bilhões | Campanha diz que não há posição oficial |
| Banco da Prosperidade (Caixa) | Não informado | Prazos, juros e volume de crédito não divulgados |
Fontes: InfoMoney, Congresso em Foco, Forbes, ND+ e IstoÉ Dinheiro (Folha). Elaboração: redação.
O único corte em reais atribuído à equipe de Flávio veio de um estudo relatado pela Folha. Segundo a Folha, citada pela IstoÉ Dinheiro, a equipe estudava reduzir despesas obrigatórias em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), ou cerca de R$ 250 bilhões. A campanha respondeu que “ainda não há posição oficial sobre o tema”.
Segundo o InfoMoney, a campanha ainda não informou quanto custaria a nova estrutura. Também não há prazo, taxa ou volume de crédito para o Banco da Prosperidade.
Criar uma pasta exige sede, cargos e orçamento. Segundo o Congresso em Foco, o plano também prevê menos cargos comissionados. Nenhum desses itens vem com valor.
O padrão se repete. Os cortes que a campanha assume, como o tesouraço e os dez ministérios, não têm valor. Nas reportagens consultadas, o R$ 200 bilhões prometido no debate não aparece ligado a nenhum corte com valor. O único valor de corte veio de um estudo que a campanha não assume.
Dois anos de Bolsa Família, sem custo
Na segunda-feira (19), a coordenadora do programa de governo, Daniella Marques, anunciou dois anos de transição no Bolsa Família. Quem recebe o benefício teria esse prazo para achar emprego ou abrir um negócio. Se não der certo, a pessoa volta ao programa automaticamente, segundo o Metrópoles.
O InfoMoney atribui ao novo ministério justamente programas sociais e capacitação para o trabalho. A agenda já tem prazo anunciado, mas as reportagens consultadas não trazem custo nem economia estimada.
Os R$ 200 bilhões seguem a mesma lógica. Marcelo Kayath, cotado para a equipe de Flávio, considerou inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra.
Segundo a BBC, reproduzida pelo O Povo, indexar o salário mínimo só pela inflação pouparia cerca de R$ 15 a 16 bilhões no primeiro ano. Isso dá cerca de 6% dos R$ 250 bilhões, conta nossa. O restante teria de vir das aposentadorias, onde cerca de 70% dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebem um salário mínimo.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Segundo a IstoÉ Dinheiro, a assessoria afirma que a posição econômica do candidato “está expressa, de forma objetiva e verificável, no plano de governo”. Sobre o corte estudado pela equipe, a assessoria disse que “ainda não há posição oficial sobre o tema”.
O que isso significa
O único corte com valor é um estudo relatado pela Folha, que a campanha não assume como posição oficial. As promessas de gasto estão no discurso: reajuste das aposentadorias acima da inflação, Bolsa Família ampliado e salário mínimo com ganho real, segundo Poder360, O Tempo e InfoMoney. As promessas de corte, que deveriam pagá-las, não têm valor.
Na disputa, o gasto prometido tem voz, mas a conta que o pagaria não tem número. As reportagens consultadas não trazem o custo do ministério, a lista de pastas que cairiam nem a origem dos R$ 200 bilhões.
Ficam em aberto quatro pontos: quanto custa o novo ministério, quais pastas fecham, como funcionaria o Banco da Prosperidade e de onde sai o dinheiro prometido. Nas reportagens consultadas, nenhum deles tem valor ou fonte publicados pela campanha.
Como fizemos: Reunimos reportagens publicadas entre 9 e 20 de outubro de 2026 sobre as promessas, o plano de governo registrado no TSE e os valores citados, acessadas em 21 de outubro de 2026. Não lemos o PDF do plano; usamos as reportagens que o descrevem. Na tabela, “não informado” quer dizer que nenhuma fonte consultada trouxe número. A proporção de cerca de 6% é nosso cálculo sobre o valor de R$ 15 a 16 bilhões, relatado pela BBC, e os R$ 250 bilhões do estudo relatado pela Folha. Não fizemos outras estimativas de custo. Não foi possível contatar a campanha para esta análise; a posição dela vem de respostas já publicadas.
Fontes
- O que é o Ministério da Prosperidade, promessa de Flávio Bolsonaro se eleito — InfoMoney
- Em programa de TV, Flávio promete criar o Ministério da Prosperidade — Congresso em Foco
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro
- Dívida pública, juros e custo de vida no debate da Band — ND+
- Bolsa Família terá período de 2 anos para transição, diz campanha de Flávio — Metrópoles
- Lula critica “tesouraço” e questiona onde Flávio fará corte de R$ 250 bilhões — Terra/Estadão
- O que Flávio Bolsonaro e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias — BBC via O Povo



