Até nome cotado para a equipe de Flávio acha o corte inviável

Cotado para a Fazenda de Flávio, Marcelo Kayath chama de inviável cortar R$ 200 bi em um ano — e o plano do candidato não traz valor algum para o tesouraço.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursa à tribuna do plenário do Senado Federal, em Brasília.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursa à tribuna do Plenário do Senado Federal, em Brasília, em 1º de setembro de 2026 (imagem de arquivo).Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O corte que Flávio Bolsonaro promete em campanha já foi chamado de inviável — por um nome cotado para comandar a própria equipe econômica do candidato. Segundo reportagem do Terra, o investidor Marcelo Kayath, ex-Credit Suisse, considera inviável um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões no período de um ano de mandato. A defesa dele é outra: um ajuste gradual, que comece por um “choque de gestão”.

Kayath aparece ao lado de Sachsida, Campos Neto, Mansueto Almeida e Montezano na lista de nomes ventilados para o Ministério da Fazenda de um eventual governo Flávio. A relação foi noticiada pelo NSC Total, que diz não haver nome para o Banco Central. É esse time que teria de transformar o “tesouraço” de palco em número. O número, até agora, não veio — nem do candidato, nem da equipe.

O tesouraço sem número

O plano de governo registrado por Flávio promete um “tesouraço” nos gastos públicos e o corte de pelo menos dez ministérios. O documento, porém, não traz valor algum em reais, segundo a Forbes. O número que circula veio da imprensa. A Folha relatou que a equipe econômica do candidato estuda cortar cerca de R$ 250 bilhões. É o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma das riquezas produzidas no país em um ano. O corte seria aprovado numa “Super PEC” antes da posse — PEC é a sigla de Proposta de Emenda à Constituição. A campanha diz que o estudo não é sua posição oficial. O estudo é o único lugar em que um valor para o tesouraço já apareceu. E a própria campanha diz que esse valor não vale.

No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no orçamento. Disse ainda que a taxa de juros cairia “de uma forma muito rápida”. Também prometeu comprar as dívidas das famílias e das empresas junto aos bancos, sem dizer com que dinheiro. O presidente Lula, seu adversário no segundo turno, persegue o número desde 10 de outubro. “Quando o meu adversário diz que vai cortar R$ 250 bilhões, que vai ter um tesouraço”, afirmou. “É preciso que a sociedade comece a se perguntar de onde é que vai ser esse corte.”

Se nada pode ser cortado, o corte não existe

O candidato, porém, descarta um a um os lugares onde o dinheiro poderia estar. “Bolsa família é sagrado, ninguém toca”, disse ao Terra. Na mesma reportagem, negou que vá mudar o reajuste de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Com os gastos sociais preservados, o tesouraço fica sem endereço — e sem endereço, não há como conferir se ele existe.

O mercado, por sua vez, já projeta juros menores com ou sem tesouraço. O Boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado, estima Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 12% no fim de 2027. A projeção vale independentemente do vencedor. A Selic é a taxa básica de juros do país, definida pelo Copom, o comitê do Banco Central — não pelo presidente. A inflação esperada pelo mercado, de 5,22%, segue acima da meta de 3%.

Para os economistas ouvidos pelo Correio Braziliense, o problema é a conta das promessas. Monica de Bolle diz que ela “não fecha de jeito algum”. Sergio Vale, da MB Associados, chama o corte de R$ 200 bilhões de irreal e alerta o eleitor para o que chama de “estelionato eleitoral”. A resposta da campanha, até agora, foi negar o estudo — nunca apresentar outro número. Um ajuste que o próprio time do candidato considera inviável não é plano. É discurso.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: No debate da Band, em 18 de outubro, o candidato afirmou: “O que eu vou fazer, Lula, é tesouraço na corrupção do seu governo. É isso que eu vou fazer.” A campanha sustenta ainda que o estudo do corte de R$ 250 bilhões, atribuído pela Folha à sua equipe econômica, não é sua posição oficial.

Para quem paga a conta — o contribuinte —, um corte sem número é slogan, não plano. Se os R$ 200 bilhões não existem, as promessas construídas sobre eles também não existem: juros caindo “muito rápido”, orçamento liberado, dívidas das famílias compradas pelo Estado. O segundo turno é em 25 de outubro. Antes de votar, o eleitor que confere contas em casa deve exigir do candidato o mesmo que exige de si. O número, até agora, ninguém apresentou.

Fontes