Flávio anuncia pedido de anulação; TSE diz que alegação é falsa

Flávio Bolsonaro não reconhece a derrota e fala em anular a eleição. Veja quem repete a tese de fraude e o que preveem as regras do TSE e do STF.

O senador Flávio Bolsonaro cercado por assessores e jornalistas com celulares e microfone, segurando um bolo com a frase "Coragem para liderar, força para vencer"
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista cercado por jornalistas e apoiadores no Senado, em foto de abril de 2026.Foto: Ton Molina / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na noite de domingo (25), Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos, segundo a Agência Brasil. A diferença foi de cerca de 4,4 milhões de votos. Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), disse que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição.

“É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram”, afirmou, segundo o InfoMoney. Ele criticou uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, e disse que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre.

Segundo a Agência Brasil, Zanin estendeu a votação até as 19h em todo o país, a pedido da coligação de Lula e da campanha de Flávio. A Brasil de Fato diz que a medida atingiu seções afetadas por chuva e falta de transporte. Ainda no domingo, a campanha de Flávio pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prorrogação em municípios de cinco estados.

Na segunda-feira (26), o TSE classificou a alegação sobre a sala-cofre como falsa, no serviço “Fato ou Boato”. Segundo o tribunal, a sala-cofre não recebe visitas. Fiscais do PL, porém, acompanharam o teste das urnas e visitaram a Sala de Totalização, onde há registro de presença e filmagem.

Quem amplifica a tese

A tese de fraude já circulava antes da votação. Segundo a Agência Pública, 60 canais do Telegram, com cerca de 891 mil inscritos, publicaram 418 postagens contra a confiabilidade das urnas desde 2022. Em 58 desses canais também há apoio a Flávio.

No primeiro turno, dez deles repetiram um alerta falso sobre travamento de urnas, que a Justiça Eleitoral desmentiu. A reportagem também cita Eduardo Bolsonaro, que afirmou em entrevista que fraude é possível.

Dez influenciadores investigados por desinformação ou tentativa de golpe seguem ativos, segundo a Pública. Entre eles estão Léo Índio, primo de Flávio, e Allan dos Santos, ambos foragidos. A reportagem diz que o TSE mandou tirar do ar uma postagem de Roger Moreira no X e um vídeo de Allan dos Santos.

Na Meta, dona do Facebook e do Instagram, a Pública encontrou 1.069 anúncios sobre Lula ou Flávio. Eles somaram ao menos US$ 120,8 mil entre 16 de agosto e 30 de setembro. Os anúncios não tinham o rótulo político exigido pela empresa, e só parte dos pagadores foi identificada.

Não encontramos reportagem que diga quem financia a contestação do resultado. Por isso, este texto não atribui financiamento a ninguém.

O que a lei prevê

Em 2022, a Resolução 23.714 do TSE proibiu divulgar fatos sabidamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a votação, a apuração ou a totalização. Nesses casos, o tribunal pode mandar plataformas removerem o conteúdo de imediato, com multa de R$ 100 mil a R$ 150 mil por hora. A Procuradoria-Geral da República (PGR) questionou a norma no STF (ação direta de inconstitucionalidade, ADI 7261). O pedido para suspendê-la foi negado em 2022. Não localizamos o julgamento do mérito.

Em 2 de março de 2026, o TSE aprovou por unanimidade a Resolução 23.755, sobre inteligência artificial (IA). Plataformas que não removerem conteúdo sintético sem identificação podem ser responsabilizadas. Nas 72 horas antes da votação e nas 24 horas depois, fica vedado novo conteúdo de IA que altere a imagem ou a voz de candidatos.

Em 26 de junho de 2025, o STF decidiu que o artigo 19 do Marco Civil da Internet, lei de 2014, é parcialmente inconstitucional. Para crimes em geral, a plataforma responde se não remover o conteúdo após notificação. Para crimes contra a honra, ainda é preciso ordem judicial. O STF ressalvou a legislação eleitoral e os atos normativos do TSE.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele não reconhece o resultado e afirma que vai pedir a anulação, citando a prorrogação da votação e a retirada de fiscais da sala-cofre. A declaração foi dada no domingo (25) e relatada pelo InfoMoney. O TSE responde que a alegação sobre os fiscais é falsa.

O que isso significa

Até a manhã de segunda-feira, a campanha ainda não tinha entrado com o pedido, segundo o Conjur. Pelo artigo 224 do Código Eleitoral, nova votação só ocorre se as nulidades atingirem mais da metade dos votos ou puderem mudar o vencedor. A advogada Tainã Góis, doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), diz que o caso não chega a esse ponto. Ela lembra que as duas campanhas pediram prorrogação.

O dado central é a diferença de 4,4 milhões de votos. O que segue em aberto é se o pedido sairá do papel e como as plataformas aplicarão as regras de remoção.

Como fizemos: Cruzamos reportagens de 25 e 26 de outubro de 2026 (Agência Brasil, InfoMoney, Brasil de Fato, Gazeta do Povo e Conjur) com levantamentos da Agência Pública, publicados entre 19 de agosto e 24 de outubro, feitos no Laboratório de Investigação Eleitoral (LIE). Os números de votos vêm da Agência Brasil e da Brasil de Fato; não consultamos o boletim do TSE diretamente. Os textos oficiais das resoluções e da decisão do STF não puderam ser abertos nesta data, e as regras foram verificadas em reportagens. A Pública não explica como escolheu os 60 canais. O PL e o Telegram não foram ouvidos antes desta publicação.

Fontes