Contra fintechs do crime, plano de Flávio só tem um apelo ao mercado

Carbono Oculto e Fluxo Oculto mostram fintechs usadas pelo crime. O plano de Flávio detalha a força contra facções, mas não cita regra para esse dinheiro.

Trânsito na Avenida Faria Lima, com carros parados, pedestres na calçada e prédios comerciais ao fundo, em São Paulo.
Avenida Faria Lima, no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, em dezembro de 2024.Foto: Fronteira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 28 de agosto de 2025, a Polícia Federal (PF) cumpriu mais de 350 mandados de busca em oito estados, na Operação Carbono Oculto. Segundo a investigação, mais de mil postos de combustíveis movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

O dinheiro não parou no posto. Uma fintech, empresa de tecnologia que faz pagamentos e mantém contas digitais, atuava como “banco paralelo” do grupo. Segundo a Receita Federal, ela movimentou mais de R$ 46 bilhões. Os fundos sob investigação somam cerca de R$ 30 bilhões, segundo o Poder360.

Dividido pelos cinco anos de 2020 a 2024, o total de R$ 52 bilhões dá, em média, cerca de R$ 10 bilhões por ano. Esse é um cálculo nosso, com base no número da reportagem, e mostra a escala do dinheiro que passou pelos postos.

Regra que saiu e voltou

Em janeiro de 2025, a Receita Federal revogou a exigência de que as fintechs informassem suas movimentações ao fisco. A decisão veio depois de uma notícia falsa sobre uma “taxa do Pix”. Segundo a Agência Brasil, a própria Receita reconheceu que a mudança enfraqueceu a fiscalização, e a exigência voltou.

Na prática, a obrigação de informar é o que permite ao fisco enxergar quem movimenta o dinheiro. Sem ela, o controle depende de a suspeita chegar primeiro pela polícia. Para o contribuinte que paga imposto em dia, a conta é simples: a empresa que lava dinheiro compete com ele em condições melhores.

O Banco Central também apertou o cerco. Empresas de pagamento sem autorização passaram a ter um teto de R$ 15 mil para transferências por Pix e TED, a transferência entre contas bancárias, segundo a CNN Brasil.

Em 28 de maio de 2026, uma nova fase da operação, a Fluxo Oculto, mirou seis fintechs que teriam movimentado mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. As empresas negam irregularidades, segundo a CNN Brasil. Essas são acusações, e ainda não foram julgadas.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) é o órgão que recebe alertas de operações suspeitas. Por isso, a discussão sobre fintechs passa também pelos poderes do Coaf. Nas reportagens consultadas, não há registro de posição de Flávio sobre o tema.

Duas frentes, dois tamanhos

A tabela compara duas frentes. De um lado, o que Flávio Bolsonaro propõe e vota contra as facções armadas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Do outro, o que ele propõe para o sistema financeiro.

Plano de Flávio tem força para as facções e quase nada para as fintechs Medidas citadas por Flávio Bolsonaro e registro de votos, até 21 de outubro de 2026

Tema Contra o soldado (facções armadas) Contra o operador financeiro
Instrumento Força: criminosos com fuzil seriam “abatidos” Pedido ao mercado financeiro para “asfixiar” os grupos
Presídios Cinco presídios de segurança máxima e 500 mil vagas em quatro anos Nenhuma medida citada
Classificação PCC, CV e milícias como “narcoterroristas”, com bens congelados Nenhuma regra específica para fintechs
Coaf Não citado Nenhuma medida sobre o Coaf
Votação Votou SIM no PL Antifacção (Senado, 64 a 0, em dezembro de 2025) Sem registro de voto ou fala sobre a regra de 2025 para fintechs

Fonte: propostas de segurança pública e votação no Senado, conforme SBT News e Gazeta do Povo. Elaboração: redação.

A diferença é de ênfase, e os textos a registram. Em 18 de junho de 2026, num evento na Faria Lima, Flávio pediu ao mercado financeiro que ajudasse a “asfixiarmos financeiramente essas organizações narcoterroristas”, segundo a Gazeta do Povo. A reportagem não cita medida concreta sobre Coaf, Receita ou fintechs.

Especialistas ouvidos pela Folhapress criticam o plano por punir mais sem provar que o crime cai. Pesquisadores da UFC e da UFF são citados nessa linha. Outros veem valor no rótulo de terrorismo para a fiscalização financeira, segundo o Bem Paraná.

Há limites a respeitar. Nenhuma reportagem citada liga Flávio ao dinheiro do PCC, e este texto não sugere essa ligação. A Agência Pública relata que a PF suspeita que fundos da gestora Reag tenham movimentado cerca de R$ 250 milhões para o PCC, e a Reag nega. A alegação recai sobre o banco Master e a gestora, não sobre o senador. Reportagens que dizem que o Master lavou R$ 11,5 bilhões para o PCC misturam casos separados.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em 18 de junho de 2026, na Faria Lima, ele pediu ao mercado financeiro que ajudasse a asfixiar financeiramente os grupos narcoterroristas, segundo a Gazeta do Povo. Nas reportagens consultadas, não há registro de posição dele sobre a revogação de 2025, sobre o Coaf ou sobre projetos de regulação de fintechs.

Duro na favela, vago na Faria Lima: a frase resume a diferença de ênfase do plano. O texto registra força contra as facções, apelo ao mercado e nenhuma regra específica para as fintechs. Em aberto estão as investigações, que cabem à Justiça, e a pergunta sobre quem vai fiscalizar o dinheiro que circula por essas empresas.

Como fizemos: Reunimos reportagens e documentos sobre a Operação Carbono Oculto (28/8/2025), a fase Fluxo Oculto (28/5/2026), a regra da Receita e as falas de Flávio Bolsonaro, acessados em outubro de 2026. Os valores (R$ 52 bilhões, R$ 46 bilhões, R$ 30 bilhões e R$ 26 bilhões) são os informados pelas fontes citadas, sem correção pela inflação. A única conta nossa é a média anual de R$ 52 bilhões em cinco anos (2020 a 2024), cerca de R$ 10 bilhões por ano. A tabela resume o plano e a votação conforme as reportagens listadas. Os dados não mostram culpa: as empresas negam irregularidades e as investigações não foram julgadas.

Fontes