Plano de Flávio omite a Petrobras, mas ressuscita as privatizações

O programa retoma a desestatização "caso a caso" e revê a Lei das Estatais sem citar a Petrobras. Flávio já defendeu vendê-la e hoje fala em "boataria".

Edifício-sede da Petrobras, no centro do Rio de Janeiro, visto de baixo para cima contra o céu azul.
Edifício-sede da Petrobras, no centro do Rio de Janeiro, em maio de 2012 (imagem de arquivo).Foto: Jim Killock / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O plano de governo que Flávio Bolsonaro registrou em 13 de agosto não cita a Petrobras. Mas retoma o Programa Nacional de Desestatização (PND) “caso a caso”, segundo o eixos. O PND é o programa federal que organiza a venda de empresas estatais. O documento também revê a Lei das Estatais e amplia o mercado de gás, inclusive com fracking.

A Lei das Estatais fixa regras de governança e de nomeação de dirigentes nas empresas públicas. Fracking é a extração de gás pelo fraturamento de rochas no subsolo. As três medidas apontam na mesma direção: mais espaço para o capital privado no setor estatal e na energia. Curiosamente, o eixos observou que o plano abraça parte do “espólio petista”, como a agenda do gás.

Esta revista defende privatizações bem feitas. O problema, aqui, não é a ideia. É a falta de clareza sobre o que seria vendido, e o vaivém do candidato sobre a maior estatal do país.

Do “sim” ao “é boataria”

Em 5 de abril de 2022, Flávio disse que o pai tinha dado aval para estudar a privatização da Petrobras, em vídeo publicado pelo UOL. Era a posição liberal clássica, e foi dita com todas as letras.

Em 22 de dezembro de 2025, em entrevista à Reuters relatada pela InfoMoney, ele chamou a Petrobras de complexa demais. Disse que as partes que funcionam deveriam ficar e que as que não funcionam poderiam ser privatizadas. Era uma defesa de privatização parcial, sem rodeios.

Em fevereiro de 2026, mudou o tom. Afirmou que uma empresa estratégica e monopolista não pode simplesmente ser vendida, segundo o eixos. Em dois meses, a posição tinha mudado de novo. Desde agosto, a campanha nega qualquer plano de privatização.

Em 9 de outubro, Flávio chamou a discussão de “boataria” e acusou Lula de usar a Petrobras eleitoralmente, segundo a InfoMoney. Uma semana depois, o Aos Fatos checou uma entrevista dele à Globo. Concluiu que, ao classificar o tema como terrorismo do PT, ele omitiu as próprias declarações anteriores e as de sua equipe.

A equipe não fecha a porta

As falas da equipe mostram que a porta segue entreaberta. Em 18 de agosto, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, chamou a Petrobras de estratégica e disse que não há plano para privatizá-la. Mas não descartou a venda de ativos da empresa, segundo a CNN Brasil.

Em 25 de agosto, o conselheiro de energia Adriano Pires afirmou que uma capitalização da Petrobras poderia ser debatida, embora não esteja no programa, segundo o SBT News. Capitalização é a emissão de novas ações, que pode diluir a fatia do governo na empresa.

O registro, portanto, não sustenta a frase “Flávio vai privatizar a Petrobras”. O que ele sustenta é outra coisa. Flávio já defendeu a privatização, não descarta vender partes da empresa e apresentou um plano que retoma as desestatizações sem listar empresas.

Para quem investe, o vaivém tem custo. A Petrobras tem ações negociadas em bolsa, e acionistas precificam o risco de mudança de regra. Um candidato que muda de posição a cada entrevista aumenta esse risco, seja qual for a direção final.

Para o eleitor liberal, o problema é de outra natureza. Quem acredita em privatização deveria defendê-la abertamente, com lista, prazo e modelo. Esconder a agenda para não perder votos é exatamente o contrário da franqueza que o liberalismo exige. E quem é contra a privatização também merece saber o que está em jogo antes de votar.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato chama de “boataria” a discussão sobre privatizar a Petrobras e acusa Lula de usar a empresa eleitoralmente. Sua campanha afirma que não há plano de privatização da estatal.

A oito dias do segundo turno, o eleitor tem diante de si um plano que ressuscita as privatizações e um candidato que nega querer usá-lo na Petrobras. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Mas o eleitor que vai votar no dia 25 merece saber qual estatal entra no “caso a caso”. Até agora, a lista não apareceu. E, sem ela, cada eleitor lê no plano o que quiser.

Fontes