Sachsida promete não tocar na Petrobras. Em 2022, pediu estudos de venda

Coordenador de Flávio diz que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa ficam fora de privatizações. Como ministro, em 2022, pediu estudos para vender a petroleira.

Adolfo Sachsida, de terno e gravata, discursa ao microfone diante de um painel azul durante cerimônia no Palácio do Planalto.
Adolfo Sachsida, então secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, discursa no Palácio do Planalto, em Brasília, em julho de 2019 (imagem de arquivo).Foto: Marcos Corrêa / Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não serão tocados. A garantia foi dada em 8 de outubro por Adolfo Sachsida, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, segundo a InfoMoney. Na mesma ocasião, a campanha negou planos de privatizar estatais e prometeu fortalecer programas sociais.

A frase tem um problema de memória. Em 2022, como ministro de Minas e Energia do governo Jair Bolsonaro, o próprio Sachsida pediu estudos para privatizar a Petrobras, lembrou a Forbes. O coordenador que hoje fecha a porta foi quem, quatro anos atrás, tentou abri-la.

O que a garantia não cobre

A Forbes notou outro detalhe. Sachsida não disse se a promessa vale para as demais empresas estatais. A garantia cobre três nomes. Todas as outras estatais federais ficaram fora da resposta.

A Forbes publicou a fala sob a pergunta que muitos eleitores fazem: Petrobras, BB e Caixa serão privatizados? Para os três, a resposta do coordenador foi não. Para o resto, houve silêncio. E é nesse resto que o plano de governo pode agir.

Isso pesa porque o plano de governo de Flávio, registrado em 13 de agosto, retoma o Programa Nacional de Desestatização “caso a caso”, segundo o eixos. O programa é o instrumento federal de venda de estatais. O documento não cita a Petrobras, mas também não lista quais empresas entrariam.

Sachsida já tinha defendido o candidato antes. Em fevereiro, segundo o eixos, Flávio afirmou que uma empresa estratégica e monopolista não pode simplesmente ser vendida. Na mesma reportagem, Sachsida garantiu que ele não vai privatizar a Petrobras.

Um candidato de muitas posições

A trajetória do próprio Flávio torna a garantia ainda mais frágil. Em 5 de abril de 2022, ele disse que o pai tinha dado aval para estudar a privatização da Petrobras, em vídeo publicado pelo UOL.

Em 22 de dezembro de 2025, em entrevista à Reuters relatada pela InfoMoney, chamou a Petrobras de complexa demais. Disse que as partes que funcionam deveriam ficar e que as que não funcionam poderiam ser privatizadas.

Em 9 de outubro, um dia depois da fala de Sachsida, Flávio chamou o debate sobre privatização de “boataria”. Também acusou Lula de usar a Petrobras eleitoralmente, segundo a InfoMoney.

A equipe, porém, não fala em uma só voz. Em 18 de agosto, Rogério Marinho, também coordenador da campanha, disse que não há plano para privatizar a Petrobras. Mas não descartou a venda de ativos da empresa, segundo a CNN Brasil.

Venda de ativos é a venda de partes do negócio, como refinarias ou campos de petróleo. Na prática, é uma privatização em fatias, que não exige vender o controle da empresa. É parecido com o que Flávio defendeu à Reuters em 2025.

O registro não sustenta a frase “Flávio vai privatizar a Petrobras”. O que ele mostra é um candidato que já defendeu privatizar e que não descarta vender partes da empresa. E mostra uma equipe em que cada porta-voz diz uma coisa.

Para quem tem ações da Petrobras ou investe em empresas do setor, essa indefinição tem preço. O mercado lida com risco, mas detesta regra incerta. Um governo que pode tanto manter quanto fatiar a empresa deixa o investidor sem base para decidir.

Para o contribuinte, a questão é de franqueza. A Petrobras é uma empresa de capital aberto, controlada pela União, e qualquer mudança no seu controle interessa a acionistas, consumidores e contribuintes. Esta revista defende privatizações bem feitas, com regras claras e concorrência. O que não dá para defender é uma agenda que muda conforme o calendário eleitoral.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Adolfo Sachsida afirma que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não serão tocados e que a campanha vai fortalecer os programas sociais. Flávio chama de “boataria” a discussão sobre privatizar a Petrobras e acusa Lula de usar a empresa eleitoralmente.

A promessa de Sachsida pode até ser cumprida. Mas vem de quem já pediu estudos para vender a Petrobras, em nome de um candidato que já defendeu privatizá-la em partes. A onze dias do segundo turno, o eleitor merece mais do que uma garantia de três nomes. Merece a lista completa do que o “caso a caso” vai incluir.

Fontes