Crédito ao exportador atingido pelo tarifaço é defesa do emprego

Contraponto: o governo liberou R$ 6,49 bilhões para exportadores atingidos pelo tarifaço. O custo existe, mas o emprego e a soberania pesam mais.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de chapéu, discursa atrás de um púlpito de madeira, diante de painel com a inscrição 'Edição Medida Provisória Brasil Soberano'
Lula discursa em evento do Programa Brasil Soberano, em 22 de julho de 2026, conforme o registro no Wikimedia Commons.Foto: Ricardo Stuckert / Flickr Lula Oficial / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Contraponto. Opinião da Revista Independência, separada da apuração.

Na quarta-feira (21), o Diário Oficial da União publicou a Medida Provisória (MP) 1.397. Ela abre crédito extraordinário de R$ 6.494.296.446 para financiar exportadores atingidos pelas tarifas dos Estados Unidos. Crédito extraordinário é a abertura de verba para despesas urgentes e imprevisíveis, prevista no artigo 167 da Constituição.

Há quem veja nesse apoio um favor a empresas. Nossa posição é outra. Quando uma decisão tomada em Washington ameaça vagas no Brasil, o Estado que responde cumpre o seu papel. Defender o emprego é também defender a soberania.

O tarifaço e o que o crédito cobre

Em 15 de julho de 2026, o escritório de comércio dos EUA (USTR) anunciou tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida veio de uma investigação com base na Seção 301, uma lei comercial americana. Segundo a Agência Brasil, a tarifa atinge cerca de 15% da pauta exportadora do Brasil para os EUA, o equivalente a US$ 5,8 bilhões.

O plano de apoio começou em agosto de 2025, com linha de R$ 30 bilhões para exportadores. Em julho de 2026, o governo anunciou até R$ 18,5 bilhões. Segundo a Agência Brasil, R$ 13,5 bilhões vêm do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES.

A MP 1.397 destina o dinheiro às operações do plano. Ela alcança pessoas físicas e jurídicas que exportam bens e serviços, além de seus fornecedores. O texto não informa quantas empresas nem quantos empregos serão atendidos.

Os argumentos contrários, com números

O argumento contrário tem três partes, e todas merecem resposta.

A primeira é o custo fiscal. Dinheiro público para empresas pesa no déficit e pode afetar a dívida. A economista Mônica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, avalia que o efeito “não é um efeito fiscal enorme”. Ela alerta, porém, para o “custo implícito de apoiar setores que já apresentam certa dependência de benesses governamentais”.

O custo precisa ser comparado com o que ele evita. Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou perda de até 65 mil empregos no Brasil, entre agosto de 2025 e dezembro de 2026. Sem o plano de socorro, a estimativa era de 138 mil postos fechados. Na nossa conta, a diferença entre os dois cenários é de cerca de 73 mil empregos. É uma projeção, não um resultado medido.

A segunda crítica é a escolha de vencedores. Subsídio pode distorcer a concorrência e favorecer quem tem melhor acesso ao crédito. Essa crítica tem base. A lista de setores de 2026 inclui agropecuária, mineração, têxtil, automotivo e máquinas, entre outros. Uma lista tão longa exige critérios públicos.

O plano de 2025 trazia uma contrapartida: quem contratasse o financiamento deveria manter ou ampliar o número de empregos, segundo a Agência Câmara. No mesmo ano, o BNDES financiou R$ 19,5 bilhões para 676 empresas, segundo o balanço do banco. Na nossa conta, isso dá cerca de R$ 28,8 milhões por empresa, em média.

A terceira objeção diz que tarifa é imposto e quem paga é o consumidor. Essa tese vale para a tarifa de importação, quando o próprio país encarece o que compra. No tarifaço, quem paga a sobretaxa americana é o comprador nos EUA. Estudos citados pelo PIIE, de agosto de 2026, indicam que compradores americanos, empresas e consumidores, arcaram com cerca de 90% do custo das tarifas de 2025. O exportador brasileiro perde venda, e o emprego em sua cadeia vem junto.

Soberania é não deixar a conta cair sobre o trabalhador

Soberania não é uma palavra vazia. Significa decidir, dentro do país, como proteger a produção quando uma decisão externa atinge o setor. A parcela afetada é menor do que parece. Um texto de 2025 do próprio governo, publicado pela Agência Câmara, diz que o tarifaço atingia 35,9% das mercadorias enviadas aos EUA. Isso representava 4% das exportações brasileiras.

Essa proporção é a razão para exigir limite e prazo. Um crédito emergencial não pode virar subsídio permanente. Mas, sem ele, a conta cai sobre a fábrica do interior, o fornecedor e o trabalhador da ponta. Esse é o custo que a crítica costuma deixar de fora.

O que diz a Fazenda: Segundo o Itatiaia, Dario Durigan afirmou que “Os R$ 13,5 bilhões representam um limite e serão utilizados conforme a necessidade aparecer.” Não entramos em contato direto com a pasta para esta análise; a fala é pública, de 23 de julho de 2026.

O que isso significa

O que falta é transparência. Até esta publicação, não encontramos número oficial de empresas nem de empregos atendidos pelo crédito de 2026. A MP 1.397 também não traz essa conta.

Cobrar esse dado não enfraquece a política. Ele é o que a torna defensável. O governo deveria publicar, periodicamente, quantas empresas e vagas o dinheiro sustenta, e por quanto tempo. Só assim a conta do tarifaço deixa de ser discurso e vira prestação de contas.

Como fizemos: Usamos o texto da MP 1.397 (publicada no DOU em 21/10/2026), a reportagem da Agência Brasil sobre o Brasil Soberano 3 (julho de 2026), o balanço do BNDES de 2025 (divulgado em março de 2026), a estimativa da SPE publicada em 11/09/2025, a análise do Itatiaia de 23/07/2026, o texto da MP 1.309/2025 citado pela Agência Câmara e o estudo citado pelo PIIE (03/08/2026), acessados em 26/10/2026. Cálculos nossos: R$ 19,5 bilhões divididos por 676 empresas, cerca de R$ 28,8 milhões; e 138 mil menos 65 mil, cerca de 73 mil empregos. As estimativas da SPE são projeções, não resultados. Os dados não mostram quantas empresas e vagas o crédito de 2026 efetivamente sustenta.

Fontes