Salário mínimo alto também move o comércio do interior

Contraponto: o piso e os benefícios ligados a ele somam renda que gira nas cidades do interior. O custo fiscal existe e precisa ser comparado.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Plenário do Senado visto da galeria, com aposentados de camisetas amarelas de braços erguidos durante a votação
Aposentados nas galerias do Plenário do Senado durante a votação, em 19 de maio de 2010, de projeto que reajustou benefícios previdenciários.Foto: Moreira Mariz / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Contraponto. Opinião da Revista Independência, separada da apuração.

No dia 31 de agosto, o governo enviou ao Congresso o projeto de Orçamento de 2027. Nele, o salário mínimo sobe de R$ 1.621 para R$ 1.741. Em abril, a previsão era de R$ 1.717. A alta de R$ 120 equivale a 7,4%.

Nos debates sobre o Orçamento, esse reajuste costuma aparecer só como custo para o Tesouro. Nossa tese é outra. O piso e os benefícios ligados a ele são renda que circula nas cidades pequenas, onde o comércio depende do que as famílias recebem.

Quanto da economia depende do piso

O salário mínimo serve de base para boa parte dos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ele também define o valor do Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cerca de 61,9 milhões de brasileiros têm renda vinculada ao piso. Entre os beneficiários do INSS, 70,8% recebem até um salário mínimo. Os cálculos são de dezembro de 2025 e usam o piso de R$ 1.621.

Segundo o INSS, cerca de 21,9 milhões de benefícios do Regime Geral de Previdência Social têm valor igual ou inferior ao piso. Esse número não inclui o BPC.

Um estudo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), publicado em 2019, usa dados de 2017. Nele, os benefícios do INSS superam o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que repassa impostos federais às prefeituras, em 4.101 dos 5.570 municípios. Isso equivale a 73,6%.

Essa comparação é bruta. Ela mostra o peso da renda previdenciária, não o efeito líquido sobre cada cidade. Ainda assim, aponta onde o dinheiro chega primeiro.

Nossa conta é simples. Se o reajuste for aprovado, cada beneficiário do piso recebe R$ 120 a mais por mês. Contando o 13º salário, são R$ 1.560 por ano. Em um município com 1.000 beneficiários nessa faixa, seriam R$ 1,56 milhão a mais em renda por ano. É um exemplo hipotético.

O custo fiscal é real

A conta do outro lado também existe, e não deve ser escondida. O Dieese estima que o reajuste de 2026 eleva em cerca de R$ 39,1 bilhões as despesas da Previdência naquele ano. O projeto de 2027 prevê R$ 1,22 trilhão em benefícios previdenciários.

A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico ligado ao Senado, analisou o pacote de gastos do governo em novembro de 2024. Para o órgão, a despesa com aposentadorias “deverá continuar aumentando além de 2,5%” ao ano. O limite de 2,5% é o teto de crescimento real previsto na regra fiscal.

O economista Felipe Salto, da Warren Investimentos, defendeu em entrevista à Folha, em maio de 2024, discutir a indexação caso a caso. Ele disse que o salário mínimo “serve de indexação para um monte de gasto social”. É um argumento sério.

Críticos também alertam para a informalidade. Se o piso sobe acima da produtividade, parte das vagas pode migrar para a informalidade. Essa tese precisa de dados de emprego, e não de slogans.

Nossa resposta tem três partes. Primeiro, o custo existe e entra no Orçamento. Segundo, a renda dos benefícios volta ao comércio da cidade. Terceiro, o Dieese estima em R$ 81,7 bilhões a renda extra injetada na economia em 2026. Essa soma não se compara de um para um com os R$ 39,1 bilhões da Previdência, porque inclui outros trabalhadores ligados ao piso.

O que diz a IFI: em nota de novembro de 2024, o órgão afirmou que a despesa com aposentadorias deve seguir acima do teto de 2,5%. Segundo a IFI, o impacto fiscal nos anos seguintes vem do próprio reajuste, “não pelo teto do aumento”.

O que fica em aberto

O projeto ainda será analisado pela Comissão Mista de Orçamento e pelo Congresso. O valor final do piso de 2027 só será fixado em dezembro, depois que o INPC de novembro for conhecido. O INPC é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, medido pelo IBGE.

Discutir o custo é legítimo. Mas a conta honesta olha os dois lados: o que o Tesouro paga e o que volta para as cidades pequenas. Para o interior, o piso forte não é só despesa. É renda que fica por perto.

Como fizemos: Usamos a nota técnica do Dieese sobre o piso de 2026 (dezembro de 2025), reportagem do Brasil de Fato de 23/12/2025, dados do INSS divulgados na imprensa em janeiro de 2026, o estudo da Anfip de 2019 (dados de 2017), reportagens sobre o projeto de 2027 de 31/08/2026 e 01/09/2026, e a nota da IFI de novembro de 2024. Acessamos as fontes em 26/10/2026. A conta de R$ 1.560 é nossa: R$ 120 multiplicados por 13 pagamentos. O exemplo de 1.000 beneficiários é hipotético. Os R$ 39,1 bilhões e os R$ 81,7 bilhões são estimativas do Dieese, não medições oficiais. Os dados não mostram quanto da renda do piso é gasto no comércio local: essa parte é argumento, não dado verificado.

Fontes