Ajuste de 2027 não pode cair só sobre quem trabalha

Contraponto: a Fitch prevê aperto fiscal em 2027, seja quem vencer. Os juros, que somam 8,86% do PIB em 12 meses, são o centro da conta.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

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Contraponto. Análise assinada, separada da apuração da Revista Independência.

Em 12 meses até agosto, o setor público gastou R$ 1,182 trilhão com juros. Isso equivale a 8,86% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz em um ano. Os números são do Banco Central (BC), divulgados em 30 de setembro.

Na quarta-feira (21), a agência de classificação de risco Fitch previu um aperto fiscal em 2027, seja quem for o vencedor da eleição. Essas agências avaliam a chance de um país pagar suas dívidas. Para a Fitch, a política fiscal ficará mais rígida no próximo ano.

Nossa tese é simples. O ajuste não pode cair sobre salários, o Sistema Único de Saúde (SUS), escolas e aposentadorias. O centro do problema está na conta de juros, e é por ela que a discussão deve começar.

A conta que não aparece no debate

Sem os juros, as contas públicas ficam perto do zero. O resultado primário, que não considera a despesa com juros, foi um déficit de 0,62% do PIB em 12 meses, ou R$ 82,1 bilhões.

O rombo com juros, chamado de resultado nominal, chegou a 9,48% do PIB. A série 5727 do BC mostra esse número para agosto de 2026. Dividindo 8,86 por 9,48, os juros respondem por cerca de 93% do rombo. Esse cálculo é nosso.

Em outras palavras, a maior parte do déficit é juro. O restante do gasto, sem juros, fica quase equilibrado. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o BC.

De onde pode vir o ajuste

Há três fontes que pesam menos sobre quem trabalha. A primeira são os dividendos, a parte do lucro que as empresas pagam aos sócios. Até 2025, esses pagamentos a pessoas físicas eram isentos de Imposto de Renda.

A Lei 15.270, sancionada em 26 de novembro de 2025, passou a reter 10% na fonte sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês, pagos pela mesma empresa a um mesmo acionista. A mesma lei isentou do imposto quem ganha até R$ 5 mil por mês.

A segunda fonte é uma tributação mínima para quem recebe mais de R$ 600 mil por ano, também criada pela lei. A terceira são os benefícios fiscais, isto é, receitas que o governo abre mão por lei. O Demonstrativo de Gastos Tributários do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 (PLDO) projetou R$ 620,8 bilhões para isso, ou 4,53% do PIB.

O orçamento também já vem preso. O projeto de 2027 reserva R$ 44,8 bilhões para emendas impositivas, verbas que o governo é obrigado a pagar. O valor foi enviado ao Congresso em 31 de agosto.

O argumento contrário precisa ser ouvido. Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional, defende cortar gastos. Em agosto, disse: “O desafio do Brasil é controlar o crescimento do gasto.” Sobre elevar a carga tributária para melhorar as contas, afirmou: “Isso não vai funcionar.”

Em janeiro, ele também disse que 90% da despesa é obrigatória. Por isso, afirmou, a regra de reajuste do salário mínimo pode precisar de revisão. Do lado da receita, o economista-chefe do Sicredi, André Nunes, lembra um limite: “o Brasil já atingiu, em 2014, a maior relação de carga tributária da sua história, quase 35% do PIB.”

Esse limite é real. Mas ele trata da carga total e não responde quem paga hoje, nem por que lucro e alta renda pesam menos. A pergunta é onde cortar, e o risco está na escolha. Em julho, Gabriel de Barros, economista-chefe da ARX, propôs reduzir os pisos de saúde e educação, segundo a InfoMoney. Esses pisos são gastos mínimos que a Constituição manda aplicar nessas áreas. Cortá-los seria tirar da saúde e da escola justamente quem depende delas.

O que diz a Fitch: No relatório divulgado na quarta-feira (21), a agência afirma que a política fiscal ficará mais rígida em 2027, qualquer que seja o eleito. Ela diz também que os juros poderiam cair mais rápido com um ajuste fiscal significativo. O texto integral não foi localizado por nós; a posição vem da cobertura da Bora Investir, que republicou texto da ISTOÉ Dinheiro.

O que isso significa

A Selic, a taxa básica de juros da economia, está em 13,75% ao ano, e a Fitch projeta 11,75% no fim de 2027. Quem decide a Selic é o Comitê de Política Monetária (Copom), dentro do BC. A lei fixa mandato de quatro anos para o presidente do BC, em período diferente do mandato presidencial. Esse desenho deve ser respeitado.

A Fitch vê juros mais baixos com um ajuste fiscal significativo. Essa é a ligação entre as duas contas. Quem vencer no domingo (25) terá de escolher onde ajustar.

Nossa posição é direta. O ajuste deve começar pelo topo da renda, pelos benefícios fiscais e pela conta de juros. Não deve começar pelo salário, pelo SUS, pela escola ou pela aposentadoria de quem trabalha.

Como fizemos: Usamos o relatório da Fitch, por reprodução da Bora Investir (21/10/2026), e a divulgação do BC de 30/09/2026, por O Povo com Agência Brasil. A série 5727 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do BC foi acessada em 24/10/2026. As séries 5793 e 13762 não puderam ser consultadas diretamente; os valores de 0,62% e 82,9% do PIB vêm da divulgação do BC. A participação dos juros no rombo (8,86 ÷ 9,48, cerca de 93%) é cálculo nosso. As regras de dividendos e de tributação mínima vêm de reportagens sobre a Lei 15.270, e o texto integral da Fitch não foi lido.

Fontes