Preço do diesel é questão de soberania, não só de paridade
Defasagem do diesel chegou a R$ 3,53 por litro, segundo a Abicom, e o preço do combustível é também soberania e custo de vida.
Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Na quinta-feira (22), a defasagem do diesel nas refinarias da Petrobras (Petróleo Brasileiro S.A.) chegou, em média, a 108%, ou R$ 3,53 por litro. O dado é da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), segundo reportagem de 23 de outubro. A defasagem mostra quanto o litro teria de subir para igualar o chamado preço de paridade de importação.
Esse preço é o que o combustível custaria se fosse trazido do exterior, com dólar, frete e impostos de importação. Quando o petróleo ou o dólar sobem lá fora, o preço de importação sobe junto. A lógica de mercado é real. Mas ela diz pouco sobre o papel de uma empresa que o país controla.
A última mudança no preço do diesel foi em 1º de junho, quando a Petrobras reduziu R$ 0,35 por litro, segundo O Povo. Em setembro, o governo manteve o subsídio de R$ 2,12 por litro por mais 30 dias, a partir de 27 de setembro. O Ministério da Fazenda justificou a medida pela “persistência da volatilidade dos preços internacionais do petróleo e dos combustíveis”.
Soberania também passa pelo posto
A União controla a Petrobras com 50,26% das ações ordinárias, as que dão direito a voto. O dado é de maio de 2022, segundo o jornal A Gazeta, que cita a própria companhia. Uma empresa com esse controle é também uma ferramenta de política pública, e não só um negócio.
O preço do diesel chega a todo o resto da economia. Na Pesquisa CNT Perfil Empresarial, divulgada em abril de 2022 pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), 82,3% dos entrevistados apontaram as altas frequentes do diesel como a maior dificuldade do setor. Quando o diesel sobe, sobe o frete, e o frete chega ao preço dos alimentos.
A dependência de importação também aparece nos números. Em 16 de setembro, a Abicom dizia que a defasagem era de 104%, ou R$ 2,87 por litro. A importação programada para outubro somava 150 mil metros cúbicos, cerca de 18% dos 850 mil de setembro, segundo reportagem da Agora RN. Sergio Araujo, presidente da Abicom, afirmou: “Agora, em outubro, quando o consumo é ainda maior, há risco de falta de diesel”.
A defasagem subiu R$ 0,66 por litro entre 16 de setembro e 22 de outubro, cálculo nosso sobre os dados da Abicom. Desde 27 de setembro, o subsídio está em R$ 2,12 por litro, sem alteração de valor. A conta da defasagem cresceu, e o alívio do subsídio ficou parado.
Os argumentos contra, e a resposta
O argumento mais forte contra o subsídio é o custo fiscal. Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, a extensão do subsídio custará R$ 10,5 bilhões, informou a CNN Brasil em 1º de outubro. O dinheiro sai do Orçamento federal, e esse custo precisa de transparência.
A alternativa também custa. Igualar o preço de importação exigiria subir o diesel em R$ 3,53 por litro, na conta da Abicom. O subsídio espalha esse custo pelo Orçamento de todo o país. Um reajuste o concentra no bolso de quem depende do diesel para trabalhar.
O segundo argumento vem dos acionistas. Em janeiro de 2025, investidores privados ligados ao conselho da Petrobras pediram um reajuste que “equipare ou ao menos aproxime os preços da estatal do preço de importação”, segundo o Eixos. O pedido é legítimo, e a empresa precisa de caixa para investir. Mas a União tem a maioria dos votos, e a companhia serve ao país, não só a quem tem ações.
O terceiro argumento é o dos importadores. Quando o preço interno fica abaixo do externo, quem importa perde dinheiro ou deixa de trazer produto. Em março, Araujo falou em “um maior risco de desabastecimento” nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segundo o Cenário Energia. Esse risco é nacional, e não apenas dos importadores.
O que diz a Petrobras: Em outubro de 2025, a presidente Magda Chambriard, perguntada se cortaria o preço da gasolina, afirmou: “Isso vale para a gasolina, isso vale para o diesel. Então, não estamos fazendo nada de diferente”. A declaração foi dada em evento da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), segundo o Times Brasil. Não encontramos manifestação recente da companhia sobre a defasagem de outubro de 2026.
O que está em aberto é concreto. O subsídio de R$ 2,12 venceria em 26 de outubro, e não encontramos o ato que o prorroga. Também não localizamos anúncio de reajuste da Petrobras após a eleição. Segundo o Times Brasil, a política da companhia equilibra paridade de importação e de exportação, participação de mercado e estabilidade.
O preço do diesel não cabe numa conta só. A paridade de importação mostra o tamanho da defasagem. Não diz quem paga por ela, nem o que o país perde se o combustível faltar. Um país soberano decide esse equilíbrio com transparência, usando a Petrobras como instrumento, e não só como espelho do mercado externo.
Como fizemos: Usamos a Abicom pelo relato de reportagens de 23/10/2026 (Mercado&Consumo) e de 16/09/2026 (Agora RN), acessadas em 27/10/2026. O site da Abicom não abriu para consulta. O subsídio vem da portaria da Fazenda relatada pelo DGABC em 26/09/2026, e o custo de R$ 10,5 bilhões, da informação do Planejamento à CNN Brasil, em 01/10/2026. A alta de R$ 0,66 por litro é nosso cálculo (R$ 3,53 menos R$ 2,87), supondo que as duas medições sigam a mesma metodologia da Abicom. Não confirmamos os valores de R$ 4,15 por litro no diesel e R$ 0,96 na gasolina, nem os 149 dias sem reajuste; não os usamos. A participação da União e a pesquisa da CNT são de 2022, as datas mais recentes que encontramos.
Fontes
- Defasagem do diesel nas refinarias da Petrobras ultrapassa subvenção e atinge R$ 3,53/l — Mercado&Consumo (23/10/2026)
- Abicom: queda do petróleo não alivia diesel e defasagem no Brasil abre semana em 58% — O Povo (27/07/2026)
- Reportagem sobre defasagem, importação de diesel para outubro e alerta da Abicom — Agora RN (16/09/2026)
- Governo prorroga subvenção ao diesel em R$ 2,12 por litro por 30 dias — DGABC (26/09/2026)
- Prorrogação da subvenção ao diesel em R$ 2,12 custará R$ 10,5 bilhões — Novacana, com informação da CNN Brasil (01/10/2026)
- Defasagem do diesel dispara e acende alerta para risco de desabastecimento no Brasil — Cenário Energia (25/03/2026)
- Petrobras evita trazer volatilidade externa ao mercado interno, diz Magda — Times Brasil (14/10/2025)
- Conselho da Petrobras se reúne para discutir preços sob pressão de investidores por reajuste — Eixos (29/01/2025)
- Brasil é acionista majoritário e responsável pelo controle da Petrobras — A Gazeta (02/07/2022)
- CNT faz raio X do transportador de carga no Brasil — Setcesp (27/04/2022)



