Exportar mais exige diversificar mercados e agregar valor

Alta de 87% nas vendas aos EUA e liderança do petróleo são avanços, mas déficit bilateral e concentração exigem estratégia soberana.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Terminal de contêineres e navios cargueiros no Porto de Santos
Terminal de contêineres do Porto de Santos, principal porto brasileiro de comércio exterior.Foto: Elgaard / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

As exportações brasileiras aos Estados Unidos cresceram 87% em outubro. O petróleo se tornou o principal item vendido pelo Brasil no ano. São resultados positivos e devem ser reconhecidos. Mas não bastam para definir uma política de desenvolvimento.

No mês, o Brasil teve déficit de US$ 788 milhões com os Estados Unidos. No acumulado, as vendas ao país cresceram só 0,2%, e o déficit chegou a US$ 5,157 bilhões. A Revista Independência defende uma política externa comercial que amplie mercados e agregue valor à produção nacional.

O recorde não elimina a vulnerabilidade

A corrente de comércio entre Brasil e Estados Unidos caiu 1,8% no acumulado até outubro. Portanto, ainda não há recuperação consolidada. Comemorar um único mês sem registrar essa trajetória seria confundir alívio com estratégia.

Bons resultados mensais convivem com concentração e déficit Indicadores do comércio exterior brasileiro em 2026

Indicador Resultado Período
Crescimento das exportações aos EUA 87% Outubro ante outubro de 2025
Crescimento das exportações aos EUA 0,2% Janeiro a outubro
Participação do petróleo nas exportações 16% Janeiro a outubro
Superávit com todos os países US$ 71,04 bilhões Janeiro a outubro

Fonte: Secex/MDIC e cálculos da redação.

O superávit total mostra que o déficit americano não é uma crise da balança brasileira. Outros mercados compensam o saldo negativo. O problema é a dependência criada quando um comprador pode alterar regras unilateralmente e afetar empregos no Brasil.

Em julho, os Estados Unidos aplicaram sobretaxas de 25% e 12,5% sobre parte dos produtos brasileiros. Segundo o governo, 52,7% das vendas ficaram fora da medida. A ampla exceção não elimina o risco para os setores atingidos.

Soberania não significa fechar o país nem abandonar o mercado americano. Significa ter alternativas reais, capacidade produtiva e instituições para negociar. Diversificar reduz o poder de pressão de qualquer parceiro.

Commodities financiam o país, mas não podem ser o projeto inteiro

O petróleo respondeu por 16% das exportações até outubro. No mês, a participação chegou a 22,6%, segundo cálculo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A produção do pré-sal gera receita e fortalece a balança comercial.

Também aumenta a exposição aos preços internacionais. Em outubro, o preço médio do petróleo exportado subiu 36,7%, segundo a Reuters. Uma pauta concentrada em produtos primários aproveita os ciclos favoráveis, mas sofre quando eles mudam.

A própria estrutura do crescimento confirma a necessidade de avançar. As vendas da indústria extrativa cresceram 24,4% no acumulado. As da indústria de transformação avançaram 6,3%. A diferença não apaga o valor das commodities, mas mostra onde está o desafio de agregar conhecimento e renda.

Agregar valor não é rejeitar petróleo, soja ou minério. É construir mais etapas produtivas no Brasil, com tecnologia, logística e fornecedores nacionais. É permitir que pequenas empresas participem das cadeias exportadoras, em vez de observar apenas os grandes embarques.

O Brasil já demonstra capacidade de diversificar destinos. Desde 2023, o Ministério da Agricultura registra 700 aberturas de mercado para produtos agropecuários em 99 destinos. Os postos de adidos agrícolas passaram de 29 para 40.

Esse trabalho público importa. Defesa sanitária, diplomacia e promoção comercial abrem portas que uma empresa pequena dificilmente abriria sozinha. O Estado não substitui o produtor; cria condições para que ele venda em mais países.

O que dizem MDIC e Mapa: O MDIC destaca recordes nas exportações, importações e corrente total até outubro. O Ministério da Agricultura afirma que as 700 aberturas ampliam destinos e produtos, com participação de cooperativas, agroindústrias e empresas de diferentes regiões.

Uma política exportadora deve medir emprego e conteúdo nacional

O próximo passo é avaliar exportações por mais que o valor em dólares. Importa quanto trabalho qualificado é gerado, quanta tecnologia fica no país e quantas regiões participam. Uma política soberana mede desenvolvimento, não apenas volume embarcado.

Crédito público, pesquisa e infraestrutura devem apoiar essa transformação. A abertura de mercados precisa alcançar produtos de maior valor agregado e empresas menores. Diversificar destinos sem mudar a pauta seria avanço insuficiente.

Esse esforço precisa chegar ao interior. Portos, ferrovias, energia e internet determinam o custo de competir. Quando a logística falha, a empresa regional exporta menos e vende mais barato. Investimento público bem avaliado reduz esse obstáculo e aproxima o desenvolvimento de quem produz longe dos grandes centros.

O resultado de outubro prova que o Brasil consegue ampliar vendas mesmo sob pressão. A lição não é acomodação nem alarmismo. É usar a força das commodities para financiar uma economia mais diversificada, com decisões tomadas em Brasília e oportunidades distribuídas pelo país.

Como fizemos: Analisamos os dados da Secex divulgados em 06/11/2026, o recorte bilateral com os EUA e as aberturas de mercado informadas pelo Mapa. Calculamos as participações do petróleo no total exportado. Não atribuímos a alta mensal a uma política específica nem projetamos os próximos meses.

Fontes