Queda média da luz não pode esconder a conta do Nordeste

Projeção de tarifa 9,58% maior no Nordeste exige planejamento público, transparência e proteção ao consumidor, não discursos contra renováveis.

Contraponto. Análise assinada: os argumentos pertencem a quem escreve e não necessariamente à Revista Independência.

Reservatório de Sobradinho com vegetação exposta e barragem ao fundo
Reservatório da hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, em dezembro de 2015.Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

A previsão de queda média de 2% nas tarifas brasileiras de energia em 2027 parece uma boa notícia para todos. Mas não é. A consultoria Thymos Energia projeta alta de 9,58% no Nordeste e de 1,29% no Norte. O contraste cobra atenção pública, não uma comemoração baseada na média.

A Revista Independência defende energia como serviço essencial e instrumento de desenvolvimento. Isso exige olhar para quem receberá a conta maior. O país precisa planejar a transição elétrica com transparência, proteção social e investimento em redes. A média nacional não pode apagar as desigualdades regionais.

O alívio temporário virou risco previsível

A diferença entre o Nordeste e o Sul chega a 17,17 pontos percentuais. Enquanto o Nordeste teria alta de 9,58%, o Sul teria redução de 7,59%. O Sudeste cairia 5,14%, e o Centro-Oeste teria quase estabilidade.

A tarifa projetada tem direções opostas entre regiões Variação estimada para 2027, por região

Região Variação projetada
Nordeste +9,58%
Norte +1,29%
Centro-Oeste -0,66%
Sudeste -5,14%
Sul -7,59%

Fonte: Thymos Energia. Projeções não são reajustes homologados pela Aneel.

Parte do aumento nordestino decorre do fim de um alívio temporário. Recursos de hidrelétricas antecipados pelo Uso de Bem Público (UBP) reduziram tarifas elegíveis em 2026. O UBP remunera o poder público pela exploração do potencial dos rios.

A antecipação teve uma função legítima: aliviar consumidores em um ano de custos elevados. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reconhece esse efeito em seu boletim de setembro. Mas um alívio com prazo conhecido deveria vir acompanhado de comunicação clara sobre a conta seguinte.

Não se trata de acusar o mecanismo que reduziu a tarifa. Trata-se de cobrar planejamento na saída. Política pública não deve transformar a normalização de um custo em surpresa para famílias e pequenos negócios.

O consumidor cativo não pode financiar a desorganização

A Thymos também projeta queda de 3,6% na energia vendida no mercado regulado do Nordeste. Nesse mercado, o consumidor compra diretamente da distribuidora. Com menos volume, alguns custos são divididos por uma base menor.

A consultoria cita como possíveis causas a migração para o mercado livre e o crescimento da geração distribuída. Grandes consumidores podem negociar energia com fornecedores. Já famílias e pequenos comércios permanecem, em geral, no mercado cativo.

Seria um erro apresentar esses consumidores como culpados pela pressão tarifária. Também seria equivocado culpar painéis solares pela estrutura do problema. O dado mede uma mudança de mercado, não uma falha moral de quem busca alternativa.

O regulador precisa mostrar quais custos são inevitáveis e quais decorrem de decisões passadas. Deve separar compra de energia, distribuição, encargos e componentes temporários. Sem essa decomposição, a sociedade recebe apenas um percentual e perde a capacidade de fiscalizar.

A Thymos estima aumento de R$ 3,2 bilhões na compra de energia e de R$ 1,1 bilhão na distribuição no Nordeste. São valores relevantes para justificar investimentos e eficiência. Não bastam, porém, para concluir que toda alta deva ser repassada sem proteção.

O argumento de que custos reais precisam ser pagos é verdadeiro, mas incompleto. A questão democrática é como dividi-los. Um sistema que concentra o ajuste em quem permanece cativo aprofunda desigualdade. Planejamento público existe justamente para impedir esse resultado.

O que dizem Aneel e Thymos: A Aneel informa que a repactuação do UBP atenuou reajustes no Norte e no Nordeste em 2026. A Thymos afirma que custos regionais e cobranças temporárias explicam trajetórias diferentes, conforme análise da gerente Ana Paula Ferme ao Canal Solar.

Planejamento é defender o Brasil

A transição energética precisa de transmissão, armazenamento, gestão da demanda e regras estáveis. Também precisa de instituições capazes de avaliar efeitos regionais antes que eles cheguem à fatura. Energia barata e limpa não será conquista social se a distribuição dos custos for injusta.

A Agência Nacional de Energia Elétrica ainda decidirá os reajustes de cada distribuidora. Os números da Thymos são projeções, não decisões. Há tempo para detalhar os custos e adotar medidas de proteção ao consumidor.

O Brasil tem recursos naturais e capacidade técnica para liderar uma transição soberana. Aproveitá-los exige mais que celebrar recordes de geração ou quedas médias. Exige garantir que o benefício chegue a todas as regiões e que a conta não pese mais justamente em quem tem menos margem.

Como fizemos: Analisamos as projeções regionais publicadas pela Thymos e o boletim InfoTarifas da Aneel, acessados em 07/11/2026. Calculamos a diferença de 17,17 pontos percentuais entre Nordeste e Sul. Não tratamos a projeção como reajuste confirmado nem atribuímos causalidade à migração de consumidores.

Fontes