Com dólar mais alto, exportador ganha e insumo do interior encarece

Em 23 de outubro, a cotação oficial do dólar foi de R$ 5,04. Exportador recebe mais em reais, mas insumo importado e juro pesam no interior.

Colheitadeira amarela cortando uma lavoura de soja madura, com outra máquina ao fundo e céu nublado, em Rondonópolis (MT)
Colheita de soja em Rondonópolis, Mato Grosso, em foto de arquivo de 2009; o agro exportador é um dos setores mais sensíveis ao câmbio.Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Na sexta-feira (23), a cotação oficial do dólar foi de R$ 5,0377 na venda, segundo o Banco Central. No dia 1º de outubro, estava em R$ 5,2079. A cotação oficial é a PTAX, apurada pelo BC a partir de consultas a bancos.

Quando o dólar sobe, a conta muda de lado. Quem vende em dólar recebe mais reais pela mesma venda. Quem compra insumo importado paga mais. E quem deve ao banco continua pagando juros.

Quem ganha: o exportador

Em setembro, a agropecuária exportou US$ 7 bilhões, alta de 4,8%, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O total exportado no mês foi de US$ 34,42 bilhões. O superávit da balança comercial, a diferença entre o que entra e o que sai do país, foi de US$ 7,74 bilhões.

Ou seja, a agropecuária ficou com cerca de 20% das exportações de setembro. Esse cálculo é nosso e não inclui carnes e alimentos processados.

A venda lá fora, porém, tem um freio. Desde 22 de julho de 2026, os Estados Unidos cobram sobretaxa de 25% sobre exportações brasileiras. A medida vem de uma investigação do escritório de comércio americano (USTR). Carne, café e suco de laranja ficaram de fora. Mesmo assim, as vendas brasileiras aos EUA caíram 13% no primeiro semestre, o equivalente a US$ 2,6 bilhões.

Quem sente o dólar no interior Efeito de um dólar mais alto, por grupo, com o dado mais recente verificado

Grupo Efeito de dólar mais alto Dado verificado
Exportador da agropecuária Mais reais por venda em dólar US$ 7 bi em setembro, alta de 4,8% (MDIC)
Quem compra fertilizante Custo em reais sobe 93% dos fertilizantes usados em 2025 foram importados (CNA)
Produtor com dívida rural Juro e atraso pesam mais que o câmbio Inadimplência acima de 7% no crédito rural (Banco Central)

Fonte: MDIC, CNA e Banco Central, este último via Conexão Tocantins. Elaboração: redação.

Quem paga: insumo e dívida

O fertilizante é o custo mais exposto. A CNA informa que a ureia subiu 40% em maio de 2026. A entidade também diz que 93% dos fertilizantes usados no país em 2025 vieram de fora. Quem compra no exterior paga em dólar, e o câmbio entra no preço final.

Os dados de entrega ajudam a ver o aperto. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), as entregas caíram 22,3% em julho, para 3,96 milhões de toneladas, ante julho de 2025.

A dívida pesa de outro jeito. Segundo o Banco Central, citado em reportagem de julho, a inadimplência de pessoas físicas no crédito rural ficou acima de 7% em 2026. A advogada Lousiani Câmara, do escritório Pinheiro, Câmara & Dreyer, resume o cuidado: “Antes de assinar qualquer novo acordo, o produtor precisa avaliar juros, garantias, prazos e capacidade real de pagamento.”

O que diz a CNA: em dezembro de 2025, a entidade estimou em R$ 2,7 bilhões a perda do agro com o tarifaço em 2026, caso os EUA mantivessem a lista de produtos sobretaxados, segundo o Poder360. Não encontramos posição da CNA sobre a sobretaxa de 25% de julho.

O que isso significa

O efeito de um dólar mais alto não é igual para todos. O exportador ganha em reais. O produtor que compra adubo importado perde margem. O produtor endividado depende mais do juro e do prazo da dívida do que da cotação.

Os dados nacionais mostram esse efeito, mas não mostram o saldo de cada município. Ninguém publica, para uma cidade do interior, quanto ela ganha e quanto perde com o câmbio. Isso precisa ser medido caso a caso.

Uma sessão na B3 mostra o humor do mercado. A colheita mostra o resultado do trabalho no campo. Para o interior, a conta chega primeiro no adubo, no crédito e no caixa da cooperativa.

Esta reportagem não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e movimentos de pânico podem se aprofundar.

Como fizemos: Usamos a PTAX de venda do Banco Central de 01/10/2026 e 23/10/2026, acessada em 26/10/2026. A queda de R$ 0,17 por dólar, e os R$ 170 a menos por US$ 1.000, são cálculos nossos. A fatia de 20% é nossa: US$ 7 bilhões divididos por US$ 34,42 bilhões, só agropecuária, dados do MDIC divulgados em 06/10/2026. Não conseguimos verificar cotações de soja, milho e boi anteriores à abertura de 26/10, por isso o texto não cita preços por saca. Os dados não mostram o saldo cambial de cada produtor nem de cada município.

Fontes