Em 2002, dólar bateu R$ 3,95 antes do segundo turno de Lula

Em 2002, o dólar subiu 52% e a Ibovespa caiu 17%. Em 2003, a Selic chegou a 26,5% e a Bolsa subiu 97%. Veja o que os dados oficiais mostram.

Entrada com arcos e placa Bovespa do prédio da B3, antiga Bolsa de Valores de São Paulo, no centro da capital paulista
Entrada da antiga Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), hoje B3, no centro da capital paulista.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Em 22 de outubro de 2002, a cotação oficial do dólar chegou a R$ 3,9552. Foi o maior valor do período, segundo a série do Banco Central (BC). O mercado temia a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que disputava o segundo turno.

Lula venceu em 27 de outubro, com 61,27% dos votos válidos, segundo a apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O que veio depois é menos lembrado. Em 2003, a Bolsa subiu com força, e o juro básico chegou a 26,5%.

Contexto: a carta de junho

Em 22 de junho de 2002, a campanha de Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. O texto, datado de São Paulo, prometia respeitar os compromissos do país. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Inteligência, da Abin, atribui à carta a queda do risco-país no meio do ano.

O risco-país mede o custo extra que o Brasil paga para tomar dinheiro em relação aos títulos do governo dos EUA. Segundo o Banco da Inglaterra, o indicador passou de cerca de 700 pontos-base em fevereiro de 2002 para cerca de 2.400 em setembro. Cem pontos-base equivalem a 1 ponto percentual.

Os números de 2002 e 2003

Dólar, juro e risco-país em datas-chave Valores oficiais do BC e do Banco da Inglaterra, em reais, percentuais e pontos-base

Data Indicador Valor
31/12/2001 Dólar (PTAX de venda) R$ 2,3204
22/10/2002 Dólar, maior valor do período R$ 3,9552
31/12/2002 Dólar R$ 3,5333
15/10/2002 Selic (meta), início da alta 21%
20/02/2003 Selic (meta), ponto mais alto 26,5%
Setembro de 2002 Risco-país (EMBI+) cerca de 2.400 pontos-base

Fonte: Banco Central (séries 1, 432 e 433 do SGS); Banco da Inglaterra, Quarterly Bulletin, outono de 2003. Elaboração: redação.

Entre 31 de dezembro de 2001 e 31 de dezembro de 2002, o dólar subiu 52,3%. Em outubro de 2002, a alta acumulada no ano chegou a 70%. A Selic subiu de 18% para 26,5% em quatro meses, em cinco decisões do Comitê de Política Monetária (Copom).

O que diz a Carta ao Povo Brasileiro, da campanha de Lula: o texto afirma que “premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país”, e promete manter o superávit primário, a sobra das contas públicas antes dos juros. A íntegra foi publicada pelo Congresso em Foco.

O que veio depois

Lula tomou posse em 1º de janeiro de 2003. Em 20 de junho daquele ano, o BC começou a reduzir a Selic, para 26%. Até dezembro de 2003, a taxa caiu para 16,5%.

A inflação oficial, medida pelo IPCA, foi de 12,53% em 2002 e de 9,30% em 2003. O PIB, na série revisada pelo IBGE, cresceu 2,7% em 2002, 1,1% em 2003 e 5,7% em 2004.

A Ibovespa, principal índice da Bolsa, caiu 17,01% em 2002, em valores nominais. Em 2003, subiu 97,33%. De 2003 a 2007, acumulou alta de cerca de 467% em valores nominais, ou cerca de 323% descontada a inflação. Essa conta é nossa, a partir dos anuais publicados.

Fatores que não cabem na história da eleição

A recuperação não se explica só pela carta ou pela eleição. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) atribui os superávits comerciais, sobretudo, ao aumento das exportações e ao preço do que o Brasil vende ao exterior. O BC informou, em 2006, que as transações correntes eram positivas desde 2003.

Esse cenário externo favorável ajudou as contas externas do país. Também houve juro alto e meta fiscal apertada. Quem atribui a virada apenas à política do novo governo deixa de fora esses dois fatores.

O que isso significa

Os números não mostram que 2002 antecipa 2026. Os contextos são outros, e esta reportagem não compara as contas públicas de hoje com as de 2002. O que o período mostra é que a incerteza eleitoral pode mover o dólar e o risco-país em poucas semanas.

Mostra também que a recuperação veio com juro alto, compromisso fiscal e cenário externo favorável. Rentabilidade passada não garante resultado futuro. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos as séries do Banco Central no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): PTAX de venda (série 1), meta da Selic (série 432) e IPCA (série 433), acessadas em 26/10/2026. As variações do dólar, o IPCA anual e o acumulado da Ibovespa são nossos cálculos a partir desses dados e dos anuais do site meusdividendos, fonte secundária que deve ser conferida na B3. O pico do risco-país vem do Banco da Inglaterra; não localizamos a série diária do JP Morgan para confirmar o dia exato. Não comparamos o desemprego, porque o IBGE mudou a metodologia da Pesquisa Mensal de Emprego em 2002. O PIB segue a série revisada pelo IBGE.

Fontes