Privatização "caso a caso": a lista que o plano de Flávio não mostra

O plano retoma as desestatizações "caso a caso", sem citar empresas. Sachsida poupou Petrobras, BB e Caixa e não disse o que vale para as demais estatais.

Fachada de pedra do antigo prédio da Bovespa, no centro de São Paulo, com três portões em arco e o nome Bovespa em letras douradas.
Fachada do antigo prédio da Bolsa de Valores de São Paulo, no centro da capital paulista, em fevereiro de 2017 (imagem de arquivo).Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Três palavras resumem a política de privatizações de Flávio Bolsonaro: “caso a caso”. O plano registrado em 13 de agosto retoma o Programa Nacional de Desestatização (PND) com esse critério, segundo o eixos e a Forbes. O PND é o programa federal que organiza a venda de empresas estatais. O que o plano não traz é a lista de empresas.

Para um leitor liberal, a retomada das privatizações é uma boa notícia em tese. Esta revista defende menos Estado na economia. Mas privatização séria começa por dizer o que será vendido, quando e com qual modelo. “Caso a caso”, sem caso nenhum listado, é uma carta em branco.

O que já está fora, e o que fica em aberto

A primeira pista veio em 8 de outubro. Adolfo Sachsida, coordenador da campanha, afirmou que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não serão tocados, segundo a InfoMoney. Na mesma ocasião, a campanha negou planos de privatizar estatais.

A Forbes notou o detalhe que importa. Sachsida não disse se a garantia vale para as outras empresas estatais. Ficaram fora da resposta, portanto, todas as demais estatais federais.

A Forbes lembrou ainda um dado incômodo. Em 2022, como ministro, o próprio Sachsida pediu estudos para privatizar a Petrobras. O coordenador que hoje promete não tocar na empresa já tentou abrir esse caminho.

Outras falas da equipe mostram que nem a Petrobras está totalmente fora do debate. Em 18 de agosto, Rogério Marinho, coordenador da campanha, disse que não há plano para privatizar a empresa. Mas não descartou a venda de ativos, segundo a CNN Brasil.

Em 25 de agosto, o conselheiro de energia Adriano Pires disse que uma capitalização da Petrobras poderia ser debatida, ainda que não esteja no programa, segundo o SBT News. Capitalização é a emissão de novas ações, que pode reduzir a fatia do governo na empresa.

O próprio candidato já foi mais explícito. Em dezembro de 2025, em entrevista à Reuters relatada pela InfoMoney, Flávio defendeu um governo enxuto. Disse que as partes da Petrobras que funcionam deveriam ficar e que as que não funcionam poderiam ser privatizadas.

Em 9 de outubro, porém, ele chamou a discussão de “boataria” e acusou Lula de usar a Petrobras eleitoralmente, segundo a InfoMoney. Em menos de um ano, o discurso foi da venda de partes da empresa à acusação de boato.

Por que a lista importa

O registro não sustenta a frase “Flávio vai privatizar a Petrobras”. Sustenta outra: ele já defendeu privatizar, não descarta vender partes e apresentou um plano que retoma as desestatizações sem nomes.

Para o mercado, a ausência de lista é um problema. Investidores precificam regras claras. Um programa de privatizações sem empresas, sem prazo e sem modelo dificilmente atrai capital, porque ninguém sabe o que estará à venda.

Para o contribuinte, o problema é a confiança. Privatizar exige apoio no Congresso e na opinião pública. Esse apoio se constrói com transparência, não com uma agenda que só aparece depois da eleição.

O plano registrado vai além das vendas. Também revê a Lei das Estatais, que fixa regras de governança e de nomeação de dirigentes nas empresas públicas, segundo o eixos. Sem detalhes, não se sabe se a revisão endurece ou afrouxa essas regras.

O documento ainda amplia o mercado de gás e prevê o fracking, a extração de gás pelo fraturamento de rochas no subsolo. É mais uma frente de abertura ao capital privado. Também aqui faltam modelo e prazo.

O plano promete, além disso, um “tesouraço” nos gastos e o corte de pelo menos dez ministérios, segundo a Forbes. As vendas de estatais poderiam ajudar a fechar essa conta. Sem lista, porém, não há como estimar quanto renderiam.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Adolfo Sachsida afirma que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não serão tocados e que a campanha vai fortalecer os programas sociais. Flávio chama de “boataria” a discussão sobre privatizar a Petrobras e acusa Lula de usar a estatal eleitoralmente.

Quem defende o livre mercado deveria ser o primeiro a cobrar a lista. Privatização apresentada às escondidas perde apoio antes de começar. A dez dias do segundo turno, o eleitor tem o critério “caso a caso” e nenhum caso. É pouco para quem pede um mandato de quatro anos.

Fontes