IPCA acima do teto pressiona o Copom de 4 de novembro
O IPCA chegou a 4,58% em 12 meses, acima do teto da meta. Com a Selic em 13,75%, o juro real pesa no bolso de quem tem dívida.

Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58%, segundo o IBGE. O número ficou acima do teto da meta, de 4,5% ao ano. A próxima decisão sobre os juros do país sai em 4 de novembro.
Na sexta-feira (23), a prévia de outubro confirmou o problema. O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,32% no mês e acumulou 4,62% em 12 meses, também segundo o IBGE.
O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), decide a Selic. Essa é a taxa básica de juros da economia, a referência para o crédito e para a dívida pública. Ela está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro, após o quinto corte seguido, de 0,25 ponto.
A inflação segue acima do teto
O Boletim Focus é uma pesquisa semanal do BC com instituições financeiras. Na edição de 19 de outubro, a mediana para o IPCA de 2026 ficou em 5,22%. A mediana é o valor do meio entre todas as respostas. Para 2027, a projeção é de 4,32%.
O mesmo levantamento vê a Selic em 13,25% no fim de 2026. Para a reunião de novembro, a mediana é de 13,50%, um corte de 0,25 ponto, segundo a edição de 13 de outubro.
O próprio BC também faz projeções. No comunicado de setembro, o Copom estimou IPCA de 5,2% em 2026 e de 3,9% em 2027, segundo a DGABC. Ou seja, a projeção oficial para este ano já passa do teto.
Quem paga a conta dos juros
Juros altos pesam primeiro sobre quem toma crédito. No rotativo do cartão de crédito, o saldo da fatura que não foi pago, a taxa média chegou a 444,9% ao ano em agosto, segundo o BC.
Empresas também sentem o custo. A taxa média do crédito para capital de giro, usado para pagar fornecedores e despesas do dia a dia, foi de 1,73% ao mês em agosto. Na nossa conta, isso equivale a cerca de 23% ao ano.
O setor público também paga. Em 12 meses até agosto, os juros somaram R$ 1,182 trilhão, ou 8,86% do PIB, a soma de tudo o que o país produz em um ano. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB no mesmo mês, segundo o BC.
Juros e dívida em números Valores mais recentes divulgados até 25 de outubro de 2026
| Indicador | Valor | Referência |
|---|---|---|
| Selic (taxa básica) | 13,75% ao ano | Desde 16/09/2026 |
| IPCA em 12 meses | 4,58% | Setembro de 2026 |
| Rotativo do cartão | 444,9% ao ano | Agosto de 2026 |
| Capital de giro para empresas | 1,73% ao mês | Agosto de 2026 |
| Juros do setor público | 8,86% do PIB | 12 meses até agosto de 2026 |
| Dívida federal atrelada à Selic | 52,74% | Agosto de 2026 |
Fonte: Banco Central, Tesouro Nacional e IBGE. Elaboração: redação.
A dívida também acompanha a Selic. Em agosto, 52,74% dos títulos federais estavam atrelados à taxa básica, segundo o Tesouro Nacional. Quem compra esses títulos recebe juros que sobem junto com a Selic. Cada real pago em juros deixa de financiar outras despesas do orçamento.
Com a Selic em 13,75% e a inflação em 4,58%, o juro real fica perto de 8,8% ao ano, cálculo nosso.
O que pesa sobre a decisão
Há quem veja espaço para o corte. Em 16 de setembro, Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, disse que o Copom “deixa uma porta aberta para fazer o que for necessário”. Para ele, o próximo encontro pode trazer um novo corte ou nenhum. O banco prevê mais um corte em novembro e uma pausa depois.
O fator eleitoral também entra na conta. Em 14 de setembro, Jeferson Bittencourt, do ASA, afirmou que “o cenário fiscal só se desanuvia no primeiro, segundo ou terceiro discurso do presidente eleito, seja ele quem for”. O segundo turno da eleição acontece neste domingo (25).
O que diz o Banco Central: No comunicado de setembro, o Copom projetou IPCA de 5,2% para 2026 e de 3,9% para 2027, segundo a DGABC. Até o fechamento deste texto, não localizamos outra manifestação do BC sobre a reunião de novembro.
O que isso significa
A decisão do dia 4 fica entre segurar a inflação e aliviar o crédito caro. O mercado aposta num corte pequeno.
Quem mais sente o juro alto é quem depende de crédito caro, como o consumidor com dívida no cartão e a pequena empresa. Se a inflação seguir acima do teto, o Copom terá menos espaço para cortar. O próximo encontro do comitê está marcado para 8 e 9 de dezembro.
Como fizemos: Usamos as séries do Banco Central no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): IPCA mensal e em 12 meses (séries 433 e 13522), taxa de capital de giro (série 25444) e acesso em outubro de 2026. Também usamos a prévia do IPCA-15 divulgada pelo IBGE em 23/10/2026, as medianas do Boletim Focus de 13/10 e 19/10/2026, e reportagens sobre o rotativo, a dívida e o calendário do Copom. Os cálculos de juro real (13,75% e 4,58%, cerca de 8,8%) e de capital de giro em 12 meses (cerca de 23%) são nossos. Os dados não mostram o efeito dos juros sobre o emprego.
Fontes
- Prévia da inflação de outubro é menor, com queda de preços de água e luz — Agência Gov (23/10/2026)
- Série 13522, IPCA acumulado em 12 meses — Banco Central, API SGS (acesso em outubro de 2026)
- Série 433, IPCA mensal — Banco Central, API SGS (acesso em outubro de 2026)
- Série 25444, taxa de juros do capital de giro para pessoas jurídicas — Banco Central, dados abertos (acesso em outubro de 2026)
- Copom reduz Selic para 13,75% ao ano — Poder360 (16/09/2026)
- Boletim Focus: mercado mantém IPCA de 2026 em 5,22%, acima do teto da meta — Central do Varejo (19/10/2026)
- Focus: Selic a 13,25% no fim de 2026 e corte em novembro — Rankia (14/10/2026)
- Mediana das projeções para o IPCA de 2026 sobe de 5,01% para 5,22% no Focus do BC — DGABC (13/10/2026)
- Juro médio do rotativo do cartão de crédito sobe a 444,9% ao ano em agosto, diz BC — Jornal do Comércio (29/09/2026)
- Contas públicas têm déficit de R$ 10 bilhões em agosto — O Povo, com Agência Brasil (30/09/2026)
- Dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central — Poder360
- Dívida pública federal atinge R$ 9,29 trilhões em agosto de 2026 — Tribuna PR, com Agência Brasil (28/09/2026)
- Copom deixa porta aberta para um novo corte na Selic em novembro, diz economista-chefe do Bmg — Money Times (16/09/2026)
- Copom deve cortar juros, mas eleição, El Niño e petróleo travam sinalização do BC — InfoMoney (14/09/2026)
- Copom terá 8 reuniões em 2026; veja calendário e projeção para a Selic — B3 Bora Investir



