IPCA acima do teto pressiona o Copom de 4 de novembro

O IPCA chegou a 4,58% em 12 meses, acima do teto da meta. Com a Selic em 13,75%, o juro real pesa no bolso de quem tem dívida.

Fachada do edifício-sede do Banco Central, em Brasília, com duas torres de vidro escuro ligadas a um núcleo central de concreto, sob céu azul
Edifício-sede do Banco Central, em Brasília, fotografado ao entardecer.Foto: Paulo Rená da Silva Santarém / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58%, segundo o IBGE. O número ficou acima do teto da meta, de 4,5% ao ano. A próxima decisão sobre os juros do país sai em 4 de novembro.

Na sexta-feira (23), a prévia de outubro confirmou o problema. O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,32% no mês e acumulou 4,62% em 12 meses, também segundo o IBGE.

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), decide a Selic. Essa é a taxa básica de juros da economia, a referência para o crédito e para a dívida pública. Ela está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro, após o quinto corte seguido, de 0,25 ponto.

A inflação segue acima do teto

O Boletim Focus é uma pesquisa semanal do BC com instituições financeiras. Na edição de 19 de outubro, a mediana para o IPCA de 2026 ficou em 5,22%. A mediana é o valor do meio entre todas as respostas. Para 2027, a projeção é de 4,32%.

O mesmo levantamento vê a Selic em 13,25% no fim de 2026. Para a reunião de novembro, a mediana é de 13,50%, um corte de 0,25 ponto, segundo a edição de 13 de outubro.

O próprio BC também faz projeções. No comunicado de setembro, o Copom estimou IPCA de 5,2% em 2026 e de 3,9% em 2027, segundo a DGABC. Ou seja, a projeção oficial para este ano já passa do teto.

Quem paga a conta dos juros

Juros altos pesam primeiro sobre quem toma crédito. No rotativo do cartão de crédito, o saldo da fatura que não foi pago, a taxa média chegou a 444,9% ao ano em agosto, segundo o BC.

Empresas também sentem o custo. A taxa média do crédito para capital de giro, usado para pagar fornecedores e despesas do dia a dia, foi de 1,73% ao mês em agosto. Na nossa conta, isso equivale a cerca de 23% ao ano.

O setor público também paga. Em 12 meses até agosto, os juros somaram R$ 1,182 trilhão, ou 8,86% do PIB, a soma de tudo o que o país produz em um ano. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB no mesmo mês, segundo o BC.

Juros e dívida em números Valores mais recentes divulgados até 25 de outubro de 2026

Indicador Valor Referência
Selic (taxa básica) 13,75% ao ano Desde 16/09/2026
IPCA em 12 meses 4,58% Setembro de 2026
Rotativo do cartão 444,9% ao ano Agosto de 2026
Capital de giro para empresas 1,73% ao mês Agosto de 2026
Juros do setor público 8,86% do PIB 12 meses até agosto de 2026
Dívida federal atrelada à Selic 52,74% Agosto de 2026

Fonte: Banco Central, Tesouro Nacional e IBGE. Elaboração: redação.

A dívida também acompanha a Selic. Em agosto, 52,74% dos títulos federais estavam atrelados à taxa básica, segundo o Tesouro Nacional. Quem compra esses títulos recebe juros que sobem junto com a Selic. Cada real pago em juros deixa de financiar outras despesas do orçamento.

Com a Selic em 13,75% e a inflação em 4,58%, o juro real fica perto de 8,8% ao ano, cálculo nosso.

O que pesa sobre a decisão

Há quem veja espaço para o corte. Em 16 de setembro, Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, disse que o Copom “deixa uma porta aberta para fazer o que for necessário”. Para ele, o próximo encontro pode trazer um novo corte ou nenhum. O banco prevê mais um corte em novembro e uma pausa depois.

O fator eleitoral também entra na conta. Em 14 de setembro, Jeferson Bittencourt, do ASA, afirmou que “o cenário fiscal só se desanuvia no primeiro, segundo ou terceiro discurso do presidente eleito, seja ele quem for”. O segundo turno da eleição acontece neste domingo (25).

O que diz o Banco Central: No comunicado de setembro, o Copom projetou IPCA de 5,2% para 2026 e de 3,9% para 2027, segundo a DGABC. Até o fechamento deste texto, não localizamos outra manifestação do BC sobre a reunião de novembro.

O que isso significa

A decisão do dia 4 fica entre segurar a inflação e aliviar o crédito caro. O mercado aposta num corte pequeno.

Quem mais sente o juro alto é quem depende de crédito caro, como o consumidor com dívida no cartão e a pequena empresa. Se a inflação seguir acima do teto, o Copom terá menos espaço para cortar. O próximo encontro do comitê está marcado para 8 e 9 de dezembro.

Como fizemos: Usamos as séries do Banco Central no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): IPCA mensal e em 12 meses (séries 433 e 13522), taxa de capital de giro (série 25444) e acesso em outubro de 2026. Também usamos a prévia do IPCA-15 divulgada pelo IBGE em 23/10/2026, as medianas do Boletim Focus de 13/10 e 19/10/2026, e reportagens sobre o rotativo, a dívida e o calendário do Copom. Os cálculos de juro real (13,75% e 4,58%, cerca de 8,8%) e de capital de giro em 12 meses (cerca de 23%) são nossos. Os dados não mostram o efeito dos juros sobre o emprego.

Fontes