Inadimplência recua, mas dívida pesa mais na baixa renda

Peic aponta 81,6% de famílias endividadas e 29,3% com atrasos; faixa de até três salários mínimos teve piora na inadimplência.

Cédula brasileira de vinte reais sobre uma superfície cinza
Cédula de R$ 20 com a imagem do mico-leão-dourado, fotografada em 6 de dezembro de 2018.Foto: Oleg Yunakov / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O percentual de famílias com contas em atraso caiu de 29,6% em setembro para 29,3% em outubro. Já o endividamento passou de 81,7% para 81,6%. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) na quinta-feira (5).

As quedas de 0,3 e 0,1 ponto percentual não mudam o quadro de pressão sobre o orçamento. Mais de oito em cada dez famílias ainda têm dívidas a vencer. Além disso, a melhora nacional convive com piora entre quem ganha até três salários mínimos.

A média esconde duas mudanças por renda

Na faixa de até três salários mínimos, a inadimplência subiu de 38,5% para 38,6%. Outros 18,3% dessas famílias afirmaram não ter condições de quitar os atrasos. O recuo nacional, portanto, não alcançou da mesma forma os lares com menor margem financeira.

Entre as famílias com renda de cinco a dez salários mínimos, o problema apareceu em outro indicador. O endividamento avançou 1,4 ponto percentual, de 77,9% para 79,3%. É uma mudança maior que a oscilação negativa registrada no total do país.

Recuo nacional convive com pressão nas faixas de renda Indicadores da Peic, outubro de 2026

Indicador Outubro Mudança ante setembro
Famílias endividadas 81,6% -0,1 ponto percentual
Famílias com contas em atraso 29,3% -0,3 ponto percentual
Inadimplência até três salários mínimos 38,6% +0,1 ponto percentual
Endividamento entre cinco e dez mínimos 79,3% +1,4 ponto percentual
Famílias com mais da metade da renda em dívidas 19,3% Sem comparação divulgada

Fonte: CNC, Peic de outubro de 2026. Endividamento inclui contas a vencer; inadimplência mede débitos já atrasados.

A Peic também mostra que 19,3% dos lares destinam mais da metade da renda mensal às dívidas. O tempo médio de atraso recuou apenas dois décimos de dia, para 65,1 dias. E 48,8% dos débitos estavam atrasados havia mais de 90 dias.

Prazo menor aperta a parcela mensal

A parcela de compromissos com pagamento superior a um ano caiu de 33,8% para 33,4%. Segundo a CNC, prazos menores aumentam o peso da amortização, parte da parcela que reduz o saldo devedor. Mesmo sem nova dívida, essa composição pode pressionar o caixa imediato.

A pesquisa mede a presença de obrigações como cartão, carnês e financiamentos. Ela não deve ser confundida com as estatísticas do Banco Central sobre estoques de crédito. Uma apuração ouve famílias; a outra reúne informações das instituições financeiras.

A CNC associou a melhora parcial ao fim das plataformas de apostas esportivas virtuais, proibidas no começo de outubro. O economista-chefe Fabio Bentes apresentou a hipótese de que parte do dinheiro antes gasto com apostas passou a pagar dívidas ou consumir.

Os próprios dados disponíveis não comprovam essa ligação. A entidade informou que os números oficiais de consumo de outubro só sairão em dezembro. Buscas na internet por itens de farmácia e supermercado cresceram 2,4% entre 6 e 24 de outubro, mas pesquisa on-line não equivale a compra realizada.

Também houve alta nas buscas por Magalu (7,7%), Mercado Livre (1,5%) e iFood (0,6%), segundo o levantamento citado pela CNC. Os percentuais ajudam a formular uma pergunta para os próximos dados, não a declarar que o fim das bets causou a redução da inadimplência.

O que diz a CNC: O presidente José Roberto Tadros afirma que a oscilação mostra um orçamento doméstico ainda comprimido. A entidade defende previsibilidade na reforma tributária e transição mais longa para mudanças trabalhistas; a pesquisa não mede o efeito dessas propostas.

O que confirmar nos próximos meses

Outubro oferece um alívio pequeno nos totais, mas nenhuma comprovação de melhora estrutural. Renda, inflação, juros e contratações de fim de ano também afetam a capacidade de pagamento. Separar esses fatores exige observar os próximos meses e outras pesquisas.

Para o leitor, a distinção principal é simples: ter dívidas a vencer não significa estar inadimplente. Para a política pública, o alerta está na baixa renda e nos 19,3% que comprometem mais da metade do que recebem. É nesse grupo que crédito caro e prazo curto deixam menos espaço para alimentação, transporte e serviços essenciais.

Como fizemos: Comparamos os percentuais de setembro e outubro na síntese integral da Peic divulgada pela CNC em 05/11/2026. Calculamos as diferenças em pontos percentuais e separamos faixas de renda. Não atribuímos causalidade ao fim das bets porque a entidade ainda não dispõe dos dados de consumo necessários para testar essa hipótese.

Fontes