Endividamento das famílias cai para 81,7%, mas atrasos sobem
Pesquisa da CNC mostra 81,7% das famílias com dívidas em setembro e atraso médio de 65,3 dias, o maior desde novembro de 2024.

Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras tinham alguma dívida. É a primeira queda do indicador em 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Ao mesmo tempo, as contas atrasadas ficaram mais tempo sem ser pagas.
A leitura é mista. Menos famílias devem, mas quem atrasa demora mais para quitar. Com a Selic, a taxa básica de juros do país, em 13,75% ao ano, o dinheiro emprestado segue caro.
O que a Peic mede
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) é divulgada todo mês pela CNC. Ela traz três indicadores que são facilmente confundidos:
- Endividamento: parcela das famílias com alguma dívida, em atraso ou não.
- Inadimplência: parcela das famílias com dívida em atraso.
- Não conseguem pagar: parcela das famílias que dizem não ter condições de quitar contas atrasadas.
A pesquisa ouve cerca de 18 mil famílias em todo o país, segundo reportagem do O Povo sobre o levantamento de julho. As reportagens sobre setembro não informam o período de coleta.
Os números de setembro
Endividamento caiu, mas os atrasos ficaram mais longos Percentual de famílias e dias de atraso, agosto e setembro de 2026
| Indicador | Agosto | Setembro |
|---|---|---|
| Famílias com dívidas | 82% | 81,7% |
| Inadimplência | 29,9% | 29,6% |
| Não conseguem pagar contas atrasadas | 12,5% | 12,5% |
| Tempo médio de atraso (dias) | 65 | 65,3 |
Fonte: CNC, Peic. Elaboração: redação.
A inadimplência recuou 0,3 ponto percentual, para 29,6%, o menor nível desde março. O tempo médio de atraso, porém, subiu pelo segundo mês seguido, até 65,3 dias. É o maior patamar desde novembro de 2024, quando estava em 65,5 dias.
Quase metade das contas vencidas, 48,9%, estava atrasada havia mais de 90 dias. A parcela de famílias sem nenhuma dívida subiu de 17,7% para 18,1%.
A pressão é maior nas famílias de menor renda. Entre as que ganham até três salários mínimos, 84,6% têm dívidas. Entre as que ganham mais de dez salários mínimos, a inadimplência é de 15%. O cartão de crédito é a dívida mais citada: estava presente em 85,3% dos endividados em julho.
Juros altos no orçamento
O Banco Central (BC) mede o endividamento de outra forma, pelo total de dívidas em relação à renda. Em julho, esse total equivalia a 49,9% da renda anual das famílias. O número não é comparável ao da CNC, que pergunta às famílias diretamente.
O custo do crédito é o que mais pesa. Em agosto, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 61,7% ao ano, segundo o BC. Como conta simples, R$ 100 nessa taxa, sem nenhum pagamento por 12 meses, viram R$ 161,70 de dívida.
A Selic está em 13,75% desde 16 de setembro. Naquele dia, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC reduziu a taxa de 14% por unanimidade. Os dados diários do BC confirmam a taxa até 24 de outubro.
O que diz a CNC: O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, disse que “a redução do endividamento e da inadimplência dá um pequeno respiro para as famílias”. Ele afirmou que a continuidade exige “medidas que favoreçam o acesso ao crédito em condições mais adequadas”. Fonte: Gazeta do Povo e Folha PE, em 8/10/2026.
O que isso significa
O recuo do endividamento é positivo, mas, na avaliação da própria CNC, é pequeno. Os dados mostram que parte das famílias já não consegue pagar no prazo, e o atraso se alongou.
Com a Selic em 13,75%, o crédito continua caro, como mostra a taxa de 61,7% ao ano. A próxima Peic, sobre outubro, ainda não tinha sido divulgada até esta reportagem. O Copom volta a se reunir em novembro.
Como fizemos: Usamos os dados da Peic de setembro de 2026, divulgada pela CNC em 8/10/2026, conforme reportagens que reproduzem o levantamento, e os dados do BC: a meta Selic (série 432 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais) e as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas em 29/09/2026. Acessamos as fontes em 24/10/2026. Não localizamos o relatório completo da CNC, por isso a metodologia detalhada não foi verificada. A conta de R$ 161,70 é simples, sem juros compostos nem multas.
Fontes
- Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) – setembro 2026 — CNC, Portal do Comércio (08/10/2026)
- Inadimplência e endividamento recuam pela primeira vez, ainda em alta — Gazeta do Povo (08/10/2026)
- CNC registra recuo de 81,7% de famílias brasileiras com dívidas — Folha PE (08/10/2026)
- Inadimplência sobe a 29,9% em agosto, mostra CNC — BPMoney (10/09/2026)
- CNC: endividamento das famílias sobe para 82%, mas inadimplência cai — O Povo (06/08/2026)
- Juros para famílias sobem em agosto e inadimplência chega a 6% — Mercado&Consumo, com dados do Banco Central (29/09/2026)
- Endividamento alcançou 49,9% da renda anual das famílias em julho — Diário de Pernambuco, com Agência Brasil (set/2026)
- Copom reduz Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime — Atlas Público
- Série 432, meta Selic — Banco Central, API SGS (acesso em 24/10/2026)



