Endividamento de risco: como o BC classifica as famílias
Indicador exige pelo menos dois de quatro sinais, como atraso acima de 90 dias e mais da metade da renda presa às dívidas.

O Banco Central (BC) identificou 20,3 milhões de pessoas em endividamento de risco em junho de 2026. O número não representa todos os consumidores com dívidas nem todos os inadimplentes. Ele reúne tomadores que apresentam pelo menos dois de quatro sinais de fragilidade financeira.
A metodologia consta no Relatório de Estabilidade Financeira de outubro. O objetivo é localizar situações em que o crédito pode se tornar insustentável. Uma pessoa pode ter parcelas em dia e ainda assim ser classificada, se outros critérios mostrarem vulnerabilidade.
O levantamento usa informações de tomadores do Sistema Financeiro Nacional. Não é uma pesquisa domiciliar nem uma lista pública de nomes. O resultado de 20,3 milhões corresponde a 17% das pessoas com dívidas no sistema.
Quatro sinais formam a classificação
Pelo menos dois critérios precisam estar presentes Sinais usados pelo BC para medir endividamento de risco
| Critério | O que indica |
|---|---|
| Inadimplência superior a 90 dias | Atraso prolongado no pagamento |
| Mais de 50% da renda comprometida | Grande parte do orçamento presa às parcelas |
| Renda restante abaixo da linha da pobreza | Recursos insuficientes após pagar dívidas |
| Uso simultâneo de três créditos caros | Dependência de modalidades sem garantia |
Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, outubro de 2026.
O último critério reúne cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo. O rotativo é o juro cobrado quando o consumidor não paga o total da fatura do cartão. A combinação das três modalidades precisa ocorrer ao mesmo tempo para completar esse sinal.
Ter apenas um dos quatro critérios não basta para entrar no grupo. Alguém com atraso superior a 90 dias, por exemplo, precisa apresentar outro sinal. Essa regra evita tratar qualquer atraso isolado como endividamento de risco.
Indicador não é nota de crédito
A classificação não funciona como o score usado por bureaus de crédito. Score é uma pontuação estimada por empresas para prever comportamento de pagamento. O indicador do BC é estatístico e combina critérios objetivos para avaliar riscos no sistema financeiro.
Ele também não significa que todas as dívidas sejam ruins. Financiamentos podem ajudar a comprar moradia ou investir em um negócio. O problema surge quando as parcelas reduzem a renda disponível, se acumulam atrasos ou há uso simultâneo de linhas caras.
A faixa de até dois salários mínimos apresenta 42% da renda comprometida com dívidas. Entre quem ganha mais de dez mínimos, a proporção é de 18,6%. A diferença mostra que o mesmo mercado de crédito produz pressões distintas por renda.
O que diz o Banco Central: O relatório afirma que o endividamento de risco cresceu 75% em cinco anos e que a oferta digital aumenta a exposição de consumidores de menor renda. O BC estuda medidas para reduzir contratações inadequadas e fortalecer a sustentabilidade do crédito.
O que a pessoa pode conferir
O primeiro passo é somar as parcelas mensais e comparar com a renda líquida. O segundo é identificar juros, prazos e saldo de cada contrato. O BC oferece o Registrato, serviço que permite consultar relacionamentos e dívidas registradas no sistema financeiro.
A classificação agregada não informa se uma pessoa específica faz parte dos 20,3 milhões. O cálculo individual depende dos quatro critérios e dos dados usados pelo BC. O próximo relatório mostrará se as novas regras de proteção conseguem interromper o avanço.
Como fizemos: Consultamos a metodologia do Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026 e os detalhes publicados por G1 e Agência Brasil. Comparamos os quatro critérios com os conceitos de inadimplência e score. Não calculamos a situação de indivíduos porque o relatório divulga dados agregados.
Fontes
- Relatório de Estabilidade Financeira — Banco Central, outubro de 2026 (acesso em 28/10/2026)
- Endividamento de risco cresce 75% em cinco anos — G1 (28/10/2026)
- Registrato: relatório de relacionamentos com instituições financeiras — Banco Central (acesso em 28/10/2026)
- Foto: Edifício-sede do Banco Central — Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)


