Endividamento de risco: como o BC classifica as famílias

Indicador exige pelo menos dois de quatro sinais, como atraso acima de 90 dias e mais da metade da renda presa às dívidas.

Recorte horizontal das torres do edifício-sede do Banco Central do Brasil
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em foto de 2015, com recorte.Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Banco Central (BC) identificou 20,3 milhões de pessoas em endividamento de risco em junho de 2026. O número não representa todos os consumidores com dívidas nem todos os inadimplentes. Ele reúne tomadores que apresentam pelo menos dois de quatro sinais de fragilidade financeira.

A metodologia consta no Relatório de Estabilidade Financeira de outubro. O objetivo é localizar situações em que o crédito pode se tornar insustentável. Uma pessoa pode ter parcelas em dia e ainda assim ser classificada, se outros critérios mostrarem vulnerabilidade.

O levantamento usa informações de tomadores do Sistema Financeiro Nacional. Não é uma pesquisa domiciliar nem uma lista pública de nomes. O resultado de 20,3 milhões corresponde a 17% das pessoas com dívidas no sistema.

Quatro sinais formam a classificação

Pelo menos dois critérios precisam estar presentes Sinais usados pelo BC para medir endividamento de risco

Critério O que indica
Inadimplência superior a 90 dias Atraso prolongado no pagamento
Mais de 50% da renda comprometida Grande parte do orçamento presa às parcelas
Renda restante abaixo da linha da pobreza Recursos insuficientes após pagar dívidas
Uso simultâneo de três créditos caros Dependência de modalidades sem garantia

Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, outubro de 2026.

O último critério reúne cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo. O rotativo é o juro cobrado quando o consumidor não paga o total da fatura do cartão. A combinação das três modalidades precisa ocorrer ao mesmo tempo para completar esse sinal.

Ter apenas um dos quatro critérios não basta para entrar no grupo. Alguém com atraso superior a 90 dias, por exemplo, precisa apresentar outro sinal. Essa regra evita tratar qualquer atraso isolado como endividamento de risco.

Indicador não é nota de crédito

A classificação não funciona como o score usado por bureaus de crédito. Score é uma pontuação estimada por empresas para prever comportamento de pagamento. O indicador do BC é estatístico e combina critérios objetivos para avaliar riscos no sistema financeiro.

Ele também não significa que todas as dívidas sejam ruins. Financiamentos podem ajudar a comprar moradia ou investir em um negócio. O problema surge quando as parcelas reduzem a renda disponível, se acumulam atrasos ou há uso simultâneo de linhas caras.

A faixa de até dois salários mínimos apresenta 42% da renda comprometida com dívidas. Entre quem ganha mais de dez mínimos, a proporção é de 18,6%. A diferença mostra que o mesmo mercado de crédito produz pressões distintas por renda.

O que diz o Banco Central: O relatório afirma que o endividamento de risco cresceu 75% em cinco anos e que a oferta digital aumenta a exposição de consumidores de menor renda. O BC estuda medidas para reduzir contratações inadequadas e fortalecer a sustentabilidade do crédito.

O que a pessoa pode conferir

O primeiro passo é somar as parcelas mensais e comparar com a renda líquida. O segundo é identificar juros, prazos e saldo de cada contrato. O BC oferece o Registrato, serviço que permite consultar relacionamentos e dívidas registradas no sistema financeiro.

A classificação agregada não informa se uma pessoa específica faz parte dos 20,3 milhões. O cálculo individual depende dos quatro critérios e dos dados usados pelo BC. O próximo relatório mostrará se as novas regras de proteção conseguem interromper o avanço.

Como fizemos: Consultamos a metodologia do Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026 e os detalhes publicados por G1 e Agência Brasil. Comparamos os quatro critérios com os conceitos de inadimplência e score. Não calculamos a situação de indivíduos porque o relatório divulga dados agregados.

Fontes