BC conta 20,3 milhões de superendividados, alta de 75%

Endividados de risco passaram de 11,6 milhões em 2021 para 20,3 milhões em 2026; baixa renda compromete 42% com dívidas.

Gabriel Galípolo fala ao microfone durante sabatina no Senado, com dois senadores sentados ao lado
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, durante sabatina no Senado em 8 de outubro de 2024.Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Brasil tinha 20,3 milhões de pessoas com endividamento de risco em junho de 2026, segundo relatório do Banco Central (BC) divulgado nesta terça-feira (27). O número cresceu 75% em cinco anos e representa 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional.

O peso é maior entre os mais pobres. Quem recebe até dois salários mínimos comprometia 42% da renda com dívidas. Na faixa acima de dez salários mínimos, a proporção era 18,6%. A primeira é 2,3 vezes a segunda, cálculo da redação.

O BC usa a expressão “endividado de risco”, em vez de afirmar que todas essas pessoas estão inadimplentes. A classificação exige ao menos dois de quatro sinais. São eles: atraso acima de 90 dias, dívidas acima de metade da renda, uso combinado de três modalidades caras ou renda restante abaixo da linha de pobreza.

Participação de devedores de risco volta a subir

Um em cada seis devedores já estava em situação de risco Percentual de endividados de risco entre os devedores do sistema financeiro, em junho de cada ano

Ano Participação
2021 9,7%
2022 13,1%
2023 13,0%
2025 14,7%
2026 17,0%

Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, com dados reproduzidos pelo SBT News. Não há dado de 2024 na fonte consultada.

Em quantidade, o contingente passou de 11,6 milhões para 20,3 milhões entre junho de 2021 e junho de 2026. São 8,7 milhões de pessoas a mais. A participação subiu 2,3 pontos percentuais só em relação a junho de 2025.

Baixa renda sofre maior pressão

Entre quem ganha até dois salários mínimos, estão 61,2 milhões de pessoas. Nesse grupo, o cartão de crédito sozinho respondia por comprometimento de 15% da renda em junho. O total, incluindo outras dívidas, chegava aos 42%.

Na faixa acima de dez salários mínimos, o cartão representava cerca de 4% da renda. O total era 18,6%. A diferença de comprometimento total entre os dois grupos chega a 23,4 pontos percentuais.

O BC registra aumento do comprometimento com o cartão em todas as faixas e alerta para ofertas constantes no ambiente digital. Segundo o relatório, essas ofertas podem estimular contratações incompatíveis com a renda, principalmente entre os mais pobres.

Novas medidas ainda este ano

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que o órgão pretende anunciar novas medidas ainda em 2026. O foco será conter ofertas agressivas, especialmente para quem já usa o crédito rotativo do cartão ou tem atrasos significativos.

Na sexta-feira (23), o BC já havia publicado regras para bloquear publicidade e ofertas ativas. Para clientes vulneráveis, novas propostas exigirão autorização específica. As ofertas deverão melhorar as condições do cliente, sem liberar novos recursos. O bloqueio começa a valer em 31 de março de 2027.

O que diz o Banco Central: Galípolo afirmou: “Pretendemos adicionar medidas ainda este ano”. Segundo ele, a preocupação está nas modalidades que crescem com pouca sensibilidade ao preço, como cartão, cheque especial e crédito pessoal sem consignação.

Apesar do aumento do risco das famílias, o relatório diz que não há risco relevante para a estabilidade financeira. O BC avalia que os bancos mantêm capital, liquidez e reservas para perdas em níveis adequados.

Os próximos textos dirão como o BC pretende atingir as linhas mais caras. Até lá, os dados mostram onde a pressão é mais forte: nas famílias que destinam quase metade da renda ao pagamento de dívidas.

Como fizemos: Consultamos o Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026 e reportagens da Agência Brasil e do SBT News, acessadas em 27/10/2026. Calculamos o aumento absoluto de 8,7 milhões, a razão de 2,3 entre os comprometimentos de renda e a diferença de 23,4 pontos percentuais. A série da tabela não tem 2024 porque a fonte consultada não informou esse ano.

Fontes