Dívidas consomem 42% da renda de quem ganha até dois mínimos

Comprometimento é 2,3 vezes o dos tomadores com mais de dez salários mínimos; cartão responde por 15% da renda dos mais pobres.

Torres do edifício-sede do Banco Central do Brasil vistas em recorte horizontal
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em fotografia de 23 de fevereiro de 2015, com recorte.Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

As famílias com renda de até dois salários mínimos destinam 42% do que recebem ao pagamento de dívidas. O dado consta no Relatório de Estabilidade Financeira divulgado pelo Banco Central (BC) na terça-feira (27). Entre quem ganha mais de dez salários mínimos, o comprometimento é de 18,6%.

A comparação mostra que o peso do crédito não é igual entre os brasileiros. No grupo de menor renda, a parcela é 2,26 vezes a do grupo mais rico. Isso significa que sobra menos dinheiro para alimentação, moradia e imprevistos depois dos pagamentos.

O levantamento considera tomadores do Sistema Financeiro Nacional, não toda a população. A faixa de até dois mínimos reúne 61,2 milhões de pessoas com crédito. Ela representa 64,2% dos 95,4 milhões de tomadores distribuídos nas quatro faixas de renda detalhadas pelo relatório.

Cartão pesa mais no orçamento pobre

Baixa renda compromete 2,3 vezes mais com dívidas Tomadores e comprometimento da renda por faixa, em junho de 2026

Faixa de renda mensal Tomadores Renda destinada às dívidas
Até dois salários mínimos 61,2 milhões 42,0%
Mais de dez salários mínimos 4,4 milhões 18,6%

Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central. Razão calculada pela redação.

No grupo mais pobre, o cartão de crédito sozinho consome 15% da renda mensal. Esse valor equivale a 35,7% de toda a parcela destinada a dívidas. Empréstimos pessoais sem consignação também têm participação relevante nessa faixa, segundo o BC.

Essas modalidades costumam ter juros maiores e prazos mais curtos que financiamentos com garantia. Entre os mais ricos, uma parcela maior das dívidas está ligada a imóveis e veículos. A diferença revela distintas finalidades e condições de acesso ao crédito.

Oferta digital amplia a exposição

O BC identifica risco na frequência das ofertas por aplicativos e outros canais digitais. Pesquisa citada no relatório aponta média de nove ofertas de crédito por mês para consumidores de menor renda. A facilidade de contratar pode estimular decisões sem planejamento.

O documento separa endividamento de inadimplência. Ter dívida não significa estar atrasado. O problema aparece quando as parcelas comprimem o orçamento, os atrasos superam 90 dias ou a pessoa combina modalidades caras para manter os pagamentos.

Em junho, 20,3 milhões de brasileiros estavam em endividamento de risco, critério que combina sinais de fragilidade. Eles eram 17% dos devedores do sistema. O número cresceu 75% em cinco anos, mas a nova fotografia por renda mostra onde a pressão é mais intensa.

O que diz o Banco Central: O relatório afirma que a digitalização ampliou a exposição dos consumidores de menor renda a ofertas e que o BC estuda medidas para reduzir o superendividamento. O presidente Gabriel Galípolo disse que novas ações para conter ofertas agressivas serão anunciadas ainda em 2026.

Proteção precisa alcançar o crédito caro

Os dados reforçam a importância das regras de oferta responsável anunciadas pelo BC. O órgão prepara painel com a visão consolidada das dívidas e mecanismos para bloquear ofertas. Parte das medidas começará a valer em 2027, enquanto outras ainda estão em estudo.

O próximo relatório permitirá verificar se o comprometimento recua e se o cartão perde peso entre os mais pobres. Sem essa mudança, a redução do juro básico pode demorar a aliviar o orçamento. A taxa cobrada do consumidor também inclui risco, custos e margem das instituições.

Como fizemos: Consultamos o Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026 e os detalhes publicados por G1 e Agência Brasil. Calculamos 42 dividido por 18,6 e 15 dividido por 42. Também somamos as quatro faixas de tomadores para obter a participação de 64,2%. Os dados não medem famílias sem crédito no sistema.

Fontes