Flávio quer SUS com gestão de elite, e equipe estudou congelar o piso

Flávio promete um SUS "padrão Einstein", com mais gestão privada. A equipe dele estudou corrigir o piso da saúde só pela inflação, o que o candidato nega.

Claudio Lottenberg, Michel Temer e o então ministro da Saúde posam diante de um equipamento de radioterapia em um hospital.
Claudio Lottenberg (à esquerda), então presidente do Hospital Albert Einstein, na inauguração do centro de oncologia do hospital, em São Paulo, em dezembro de 2013 (imagem de arquivo).Foto: Anderson Riedel / Vice-Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro admitiu que a saúde não foi o ponto forte do governo do pai. E prometeu um SUS “padrão Einstein”, em referência ao Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, segundo a CNN Brasil. Quando Lula perguntou se isso significava privatizar, ele não negou diretamente.

O SUS é o Sistema Único de Saúde, a rede pública que atende de graça qualquer pessoa no país. A pergunta que interessa a quem paga imposto é simples: quem financia a gestão de elite prometida?

O que o plano propõe

O nome escolhido para a Saúde dá a direção. Em 28 de agosto, Flávio anunciou Claudio Lottenberg, ex-presidente do Einstein, como seu futuro ministro, segundo a Itatiaia. Lottenberg defende a gestão privada na saúde pública.

O plano de governo prevê mais parcerias com o setor privado e com organizações sociais (OSs) para hospitais e procedimentos complexos, segundo a Agência Brasil. As OSs são entidades privadas sem fins lucrativos contratadas para administrar unidades públicas. O plano promete ainda um prontuário eletrônico nacional compartilhado com hospitais privados e mais telessaúde. Em contrapartida, não fala em vouchers, parcerias público-privadas ou mudanças no piso da saúde, segundo a Agência Brasil. É um ponto a favor do candidato.

Esse prontuário, aliás, já existe, segundo checagem do Aos Fatos. A promessa vende como novidade algo que o país já tem.

Para um leitor liberal, gestão profissional na saúde pública não é palavrão. A questão é outra. Quando uma OS administra um hospital, quem paga o contrato continua sendo o contribuinte. Gestão privada não reduz a conta. Muda quem a administra.

O piso que a equipe estudou

É aqui que mora o ponto mais sensível. Segundo a Folha, a equipe econômica de Flávio estudou mudar a correção dos pisos de saúde e educação. Em vez de acompanhar a receita, eles seriam corrigidos só pela inflação, informou a IstoÉ Dinheiro.

O piso da saúde é o valor mínimo que o governo federal é obrigado a gastar no setor. Hoje ele cresce junto com a arrecadação. Corrigido só pela inflação, ficaria parado em termos reais, mesmo com a receita subindo. Na prática, se a arrecadação crescer acima da inflação, a saúde deixa de acompanhar esse ganho. A diferença ficaria livre para outros gastos ou para o ajuste fiscal.

A medida fazia parte de um pacote de cerca de R$ 250 bilhões, que também previa corrigir aposentadorias só pela inflação. Tudo seria aprovado numa “Super PEC” antes da posse. PEC é a proposta de emenda à Constituição. A campanha disse que o estudo não está no plano.

Em 16 de outubro, Flávio afirmou à Globo que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação, segundo O Liberal. É uma negativa importante, e esta revista a registra.

É preciso ser justo com o candidato. Duas agências de checagem, o Aos Fatos e a Lupa, classificaram como falsa a frase atribuída a ele de que privatizaria o SUS. A Lupa lembra que a privatização total violaria o artigo 196 da Constituição, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado. A participação privada complementar, porém, é permitida.

Os críticos vão além. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), alinhada ao PT, afirma que a contratação privada pode substituir a expansão da rede pública. Diz ainda que o plano não traz números de investimento. A CUT é parte interessada no debate. Mas a pergunta sobre o custo vale para qualquer eleitor, de qualquer lado.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato afirma que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de saúde e educação e que o estudo revelado pela Folha não está em seu plano. Ele promete um SUS “padrão Einstein”, com gestão mais eficiente, segundo O Liberal e a CNN Brasil.

Um SUS com gestão de hospital de elite é uma promessa atraente. Mas gestão de elite custa caro, e, segundo a CUT, o plano não diz quanto vai investir. Ao mesmo tempo, a equipe estudou travar o piso que garante o dinheiro mínimo da saúde. No dia 25, quem depende do SUS merece saber quem paga a conta, e não só quem vai administrá-la.

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