Fitch prevê aperto fiscal em 2027, seja quem for o eleito
A Fitch espera política fiscal mais rígida em 2027, qualquer que seja o eleito, enquanto os juros somam 8,86% do PIB em 12 meses.

Na quarta-feira (21), a Fitch previu um aperto fiscal no Brasil em 2027. Segundo a agência, a política fiscal ficará mais rígida seja qual for o vencedor da eleição presidencial.
A Fitch é uma agência de classificação de risco, empresa que avalia a chance de um país pagar suas dívidas. O segundo turno, no domingo (25), opõe Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O número que mais pesa, porém, não está no debate eleitoral. São os juros.
Em 12 meses até agosto, o setor público pagou R$ 1,182 trilhão em juros. Isso equivale a 8,86% do PIB, a soma de tudo o que o país produz em um ano.
A conta dos juros
A Fitch vê déficit do governo geral acima de 8% do PIB e dívida bruta acima de 80% do PIB. Déficit é quando o governo gasta mais do que arrecada. Dívida bruta é o total devido, sem descontar os bens que o governo possui.
O Banco Central usa outra base, o setor público consolidado, que inclui União, estados, municípios e empresas estatais. Nessa medida, o rombo com juros chegou a 9,48% do PIB em 12 meses até agosto.
Sem os juros, as contas ficam perto do zero. O resultado primário, que não considera a despesa com juros, foi um déficit de 0,62% do PIB, ou R$ 82,1 bilhões, no mesmo período. Os juros respondem por cerca de 93% do rombo.
A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o BC.
O que o aperto pode significar
Para a Fitch, os juros reais devem seguir altos. Juros reais são a taxa descontada a inflação. Por isso, a agência diz que eles limitarão o consumo das famílias, o investimento das empresas e o crédito.
A Selic, a taxa básica de juros da economia, está em 13,75% ao ano. A Fitch projeta 11,75% ao fim de 2027. Ela também diz que a taxa poderia cair mais rápido com um ajuste fiscal significativo.
A agência também revisou o crescimento. Ela projeta PIB de 1,9% em 2026 e de 1,4% em 2027. Em junho, a mesma Fitch previa 2,1% e 1,7%.
Na prática, menos crédito e menos investimento costumam significar menos vagas e salários que sobem devagar. Essa leitura é nossa, com base nas projeções da agência. Para os serviços públicos, a conta é mais simples. Cada real pago em juros deixa de financiar escolas, postos de saúde e obras.
O que diz a Fitch: No relatório divulgado na quarta-feira (21), a agência afirma que a política fiscal ficará mais rígida em 2027, qualquer que seja o eleito. O texto integral não foi localizado por nós. A posição vem da cobertura da ISTOÉ Dinheiro, republicada pela Bora Investir.
O que isso significa
A Fitch não diz que o próximo governo vai cortar gastos. Diz que o espaço fiscal será menor, seja quem for eleito. Os dados mostram que, com juros perto de 9% do PIB, esse espaço já é estreito.
O que está em aberto é como o aperto será feito: com corte de despesas, aumento de receita ou com juros altos por mais tempo. A escolha cabe ao próximo governo e ao Congresso.
Como fizemos: Usamos as séries do Banco Central acessadas em 24/10/2026: resultado nominal em 12 meses (série 5727), resultado primário em 12 meses (série 5793) e dívida bruta do governo geral (série 13762), além da divulgação de 30/09/2026 sobre as contas de agosto. A participação dos juros no rombo (8,86 ÷ 9,48, cerca de 93%) é cálculo nosso. Os dados do BC são do setor público consolidado, base diferente do déficit do governo geral citado pela Fitch. Eles não mostram as projeções da agência para 2027.
Fontes
- Fitch vê aperto fiscal no Brasil independentemente do resultado da eleição — Bora Investir, reproduzindo ISTOÉ Dinheiro (21/10/2026)
- Fitch eleva previsão para PIB do Brasil em 2026, mas corta para 2027 — Folha de Pernambuco, Estadão Conteúdo (04/06/2026)
- Fitch eleva previsão para PIB do Brasil em 2026, mas corta para 2027 — InfoMoney (04/06/2026)
- Contas públicas têm déficit de R$ 10 bilhões em agosto — O Povo, com Agência Brasil (30/09/2026)
- Série 5727, resultado nominal em 12 meses — Banco Central, API SGS (acesso em 24/10/2026)
- Série 5793, resultado primário em 12 meses — Banco Central, API SGS (acesso em 24/10/2026)
- Série 13762, dívida bruta do governo geral — Banco Central, API SGS (acesso em 24/10/2026)
- Edifício Sede do Banco Central do Brasil em Brasília — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



