Resultado primário e nominal: como os juros mudam a conta pública
Em 12 meses até julho, o setor público teve déficit primário de R$ 89,3 bilhões; com os juros da dívida, o rombo nominal chegou a R$ 1,24 trilhão.

Em 12 meses até julho de 2026, o setor público brasileiro gastou R$ 89,3 bilhões a mais do que arrecadou, sem contar os juros. Somados os juros da dívida, o rombo chegou a R$ 1,24 trilhão, quase 14 vezes mais. Os números foram divulgados pelo Banco Central (BC) em 31 de agosto.
A distância entre os dois valores explica boa parte do debate sobre as contas públicas. O primeiro é o resultado primário. O segundo é o resultado nominal.
O que mede cada conta
O resultado primário compara as receitas e as despesas do dia a dia. De um lado, impostos e contribuições. Do outro, salários, aposentadorias, programas sociais, custeio e investimentos. Os juros ficam de fora.
Quando sobra dinheiro, há superávit primário. Quando falta, há déficit. Em 12 meses até julho, o déficit primário equivaleu a 0,67% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o BC.
O resultado nominal soma ao primário os juros da dívida pública. Nos mesmos 12 meses, esses juros chegaram a R$ 1,15 trilhão, ou 8,67% do PIB. Um ano antes, eram R$ 941,2 bilhões, ou 7,60% do PIB. O déficit nominal ficou em 9,34% do PIB.
Por que separar as duas
O primário mostra o esforço do governo sobre o que ele controla no curto prazo. Os juros dependem do tamanho da dívida e da Selic, a taxa básica de juros, definida pelo BC. Por isso, a meta fiscal do arcabouço, a regra que controla as contas federais, é de resultado primário.
Quando o primário é positivo, a sobra ajuda a pagar parte dos juros. Quando é negativo, o governo precisa tomar dinheiro emprestado até para as despesas correntes. Nos dois casos, a parte dos juros que não é paga vira dívida nova.
Quem publica os números
Dois órgãos divulgam essas contas todo mês, com métodos diferentes. O Tesouro Nacional mede o governo central “acima da linha”, somando o que entrou e o que saiu do caixa. O governo central reúne o Tesouro, a Previdência Social e o próprio BC.
O BC mede “abaixo da linha”, pela variação da dívida. Sua conta é mais ampla e cobre o setor público consolidado: governo central, estados, municípios e parte das empresas estatais. Pela lei do arcabouço fiscal, cabe ao BC apurar o resultado usado para checar a meta.
Os métodos podem dar números diferentes. Em 2025, o Tesouro registrou déficit primário de R$ 61,7 bilhões no governo central, segundo a Agência Brasil. Pelo critério do BC, o déficit do governo central foi de R$ 58,7 bilhões, informou o Poder360.
O que diz o Banco Central: Na nota de estatísticas fiscais de 31 de agosto, o BC atribuiu parte da queda dos juros de julho ao ganho de R$ 12,4 bilhões com swaps cambiais. Esses contratos protegem contra a variação do dólar. Os juros do mês caíram de R$ 109 bilhões, em julho de 2025, para R$ 99 bilhões.
O déficit nominal é o que, na prática, faz a dívida crescer. Em julho, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do PIB, ou R$ 10,9 trilhões, segundo o BC. Enquanto os juros pesarem tanto, equilibrar só o primário não basta para estabilizar a dívida.
Fontes
- Fiscal Statistics, Press Release de 31 de agosto de 2026 — Banco Central do Brasil
- Estatísticas fiscais — Banco Central do Brasil
- Déficit primário do Governo Central totaliza R$ 61,7 bilhões em 2025 — Agência Brasil
- Setor público consolidado tem deficit de R$ 55 bilhões em 2025 — Poder360
- Tesouro Transparente — Tesouro Nacional
- Lei Complementar nº 200, de 2023 (arcabouço fiscal) — Planalto


