Relatório da dívida do Tesouro: cinco números para acompanhar

O Tesouro divulga o relatório de setembro da dívida federal, que fechou agosto em R$ 9,29 trilhões. Veja o que cada número mostra.

Mulher fala ao microfone diante de uma tela com tabelas, em apresentação do Tesouro Nacional em Brasília
Ana Paula Vescovi, à época secretária do Tesouro Nacional, comenta o resultado primário do Governo Central.Foto: Wilson Dias / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em agosto, a Dívida Pública Federal (DPF) fechou em R$ 9,293 trilhões. O valor subiu só 0,04% em relação a julho. Os dados são do Tesouro Nacional, órgão do Ministério da Fazenda que administra a dívida.

O Tesouro publica todo mês o Relatório Mensal da Dívida (RMD). O de agosto saiu em 28 de setembro, e o de julho, em 26 de agosto. Pelo padrão recente, o relatório com os números de setembro deve sair no fim de outubro.

O que compõe a dívida

A DPF é o dinheiro que o Tesouro toma para cobrir o déficit do governo, ou seja, o gasto acima da receita. Ela também inclui a renovação dos títulos que vencem. Os títulos são papéis de dívida vendidos a investidores, sobretudo em leilões.

A dívida tem duas partes. A dívida interna, chamada DPMFi (Dívida Pública Mobiliária Federal interna), somava R$ 8,944 trilhões. É cerca de 96% do total, e é paga em reais.

A dívida externa, a DPFe (Dívida Pública Federal externa), chegou a R$ 348,26 bilhões. É cerca de 4% do total, e é paga em moeda estrangeira, normalmente o dólar.

Por que a dívida sobe mesmo com resgates

Em agosto, o Tesouro resgatou R$ 84,43 bilhões a mais do que emitiu. Ou seja, pagou mais títulos vencidos do que vendeu novos. Mesmo assim, os juros que entraram no estoque somaram R$ 88,39 bilhões.

Esses juros superaram os resgates, e a dívida subiu, ainda que pouco. Isso mostra que os juros se acumulam sobre o estoque. Quanto maior a taxa, mais rápido essa soma cresce.

Custo, prazo e títulos ligados à Selic

A Selic é a taxa básica de juros do país. Ela serve de referência para a maior parte dos títulos. Em agosto, os papéis atrelados à Selic chegaram a 52,74% do total, o maior nível da série histórica. Em julho, eram 51,11%.

Composição da dívida federal por indexador, em agosto de 2026 Participação no total da DPF, em %

Indexador Participação
Selic (taxa flutuante) 52,74%
Inflação 23,22%
Prefixado (juro fixo) 20,31%
Câmbio (atrelado ao dólar) 3,74%

Fonte: Agência Brasil, com dados do Tesouro Nacional. Elaboração: redação.

O custo médio dos últimos 12 meses subiu de 12,45% para 12,59% ao ano. É o juro médio pago sobre a dívida, sem descontar a inflação. O prazo médio, até quando a dívida vence em média, passou de 4,05 para 4,10 anos.

A parcela que vence em até 12 meses caiu de 18,91% para 16,39%. Com menos dívida vencendo logo, o Tesouro precisa vender menos títulos novos no curto prazo.

Quem compra os títulos

Quem detém a dívida interna, em agosto de 2026 Participação na dívida interna, em %

Detentor Participação
Instituições financeiras 31,22%
Fundos de previdência 22,63%
Fundos de investimento 22,52%
Estrangeiros 9,91%
Seguradoras 3,34%

Fonte: Agência Brasil, com dados do Tesouro Nacional. Elaboração: redação.

Bancos, fundos de previdência e fundos de investimento somam 76,37% da dívida interna. Como os fundos de previdência reúnem dinheiro de aposentadorias, parte da poupança de trabalhadores está nesses títulos.

O que observar no relatório de setembro

  • Estoque total. Em agosto, a dívida era de R$ 9,293 trilhões. Em janeiro, o Tesouro projetou entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões ao fim de 2026.
  • Peso da Selic. Se a fatia atrelada à taxa seguir alta, cada mudança de juros pesa mais na conta.
  • Custo médio. Se o custo de 12,59% ao ano continuar subindo, o juro pago sobre a dívida cresce.
  • Reserva de liquidez. É o caixa do Tesouro para pagar títulos que vencem. Em agosto, era de R$ 1,208 trilhão, queda de 11,89%, o suficiente para cerca de 7,18 meses de vencimentos.

O que isso significa

Em agosto, os juros superaram os resgates, e a dívida ficou quase estável. O custo da dívida e a fatia ligada à Selic são os pontos a acompanhar. Os números sozinhos não dizem se a dívida é sustentável.

Essa resposta depende do crescimento da economia e das decisões sobre gastos e receitas. O relatório de setembro será o próximo teste desses números.

O que diz o Tesouro Nacional: Na projeção para o fim de 2026, o órgão afirmou que o intervalo de R$ 9,7 trilhões a R$ 10,3 trilhões leva em conta os juros que se incorporam à dívida. A posição foi reportada pelo Poder360 em 28/01/2026.

Como fizemos: Usamos os dados do Relatório Mensal da Dívida de agosto de 2026, divulgado em 28/09/2026, como reportados pela Agência Brasil e pela Tribuna do Paraná, acessados em 26/10/2026. Não conseguimos extrair o PDF oficial nem abrir o site do Tesouro durante a apuração, por limite de acessos. A alta de cerca de 14% em 12 meses (R$ 9,293 trilhões ante R$ 8,14 trilhões em agosto de 2025) e as participações de 96% e 4% da DPMFi e da DPFe são cálculos nossos. Os dados não mostram o perfil de cada título nem o relatório de setembro.

Fontes