Tipsters ensinam a burlar veto às bets em dez grupos
Reportagem acompanhou dez canais com promessas de ganho e rotas para burlar a proibição; TikTok removeu 27.882 anúncios em oito dias.

Dez grupos de Telegram e Discord acompanhados pela Folha durante uma semana ensinavam seguidores a contornar a proibição das apostas online. Os canais são administrados por tipsters, vendedores de palpites que prometem ganhos. O maior grupo encontrado tinha 26.589 membros.
A investigação publicada neste sábado mostra grupos fechados e pagamentos em criptomoedas sendo usados para contornar a proibição. Também há relatos de transferências a desconhecidos e reclamações de calote. Os números das plataformas revelam a dimensão desse trabalho de remoção.
Fiscalização mede canais e anúncios
A Secretaria de Direitos Digitais (Sedigi), vinculada ao Ministério da Justiça, localizou 2.898 sites e cerca de 700 perfis que promoviam jogos clandestinos. O levantamento também identificou 1.295 grupos no Telegram e um servidor no Discord.
Plataformas removeram conteúdo em diferentes formatos Ações informadas em relatório da Sedigi obtido pela Folha
| Plataforma | Ação registrada | Pedido das autoridades |
|---|---|---|
| TikTok | 27.882 anúncios removidos entre 25/9 e 3/10 | 450 |
| Meta | Pelo menos 840 URLs restringidos desde a medida provisória | 840 |
| Meta | 590 páginas removidas | Iniciativa própria |
Fonte: Sedigi, via Folha de S.Paulo. URLs, páginas e anúncios são unidades distintas e não devem ser somadas.
Os 450 pedidos do governo representam 1,6% das remoções de anúncios informadas pelo TikTok. Os demais 98,4% não foram atribuídos a essas solicitações no relatório. A empresa afirma sempre ter proibido propaganda de jogos de azar.
A Secretaria de Prêmios e Apostas informou ter bloqueado mais de 126 mil sites ilegais desde 2024. A pasta também identifica meios de pagamento e determina o bloqueio de contas usadas pelas operações. Esses números não indicam quantos sites e perfis continuam ativos.
Reclamações de calote têm resposta contestada
O influenciador Diogo Pólvora, conhecido como MD Tips, organizou um bolão sobre o segundo turno presidencial. Até 31 de outubro, participantes publicaram 15 reclamações no X sobre ausência de pagamento e de resposta. As postagens somavam mais de mil curtidas.
Pólvora não respondeu aos contatos da Folha. Em nota publicada em 1º de novembro, ele afirmou ter usado recursos próprios para devolver todos os valores originalmente depositados. O influenciador atribuiu o atraso a uma quebra de contrato com um fornecedor não identificado.
A reportagem não confirmou se todos os participantes receberam. As reclamações e a resposta precisam ser lidas como versões distintas. Não há decisão judicial citada na investigação sobre o caso.
A medida provisória assinada em 25 de setembro proíbe exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa. Alguns grupos indicam sites estrangeiros e programas para manter os palpites. Isso amplia o risco para quem transfere dinheiro sem conhecer o recebedor.
O problema também alcança o serviço público de saúde. Segundo o Ministério da Saúde, atendimentos ligados ao jogo patológico e a problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. A pasta oferece orientação e teleatendimento no aplicativo Meu SUS Digital.
O que dizem o influenciador e as plataformas: Pólvora declarou ter devolvido os depósitos originais com recursos próprios. A Meta afirma trabalhar para cumprir as determinações do governo; o TikTok informa sempre ter proibido anúncios de jogos de azar. Discord, Telegram e X não responderam à Folha até a publicação da reportagem.
Remoção não elimina a intermediação
A derrubada de anúncios reduz a publicidade aberta, mas os grupos investigados mostram outra etapa da operação. Tipsters podem cobrar pela promessa de acerto e direcionar o apostador a plataformas proibidas.
A fiscalização precisa acompanhar tanto os canais quanto os pagamentos. Para o consumidor, a promessa de prêmio elevado não oferece garantia de recebimento. O caso dos bolões deixa evidente o risco de entregar dinheiro a intermediários sem vínculo com uma empresa autorizada.
Como fizemos: Conferimos a investigação da Folha e os números do relatório da Sedigi reproduzidos pelo jornal. Dividimos 450 por 27.882 para calcular 1,6% e separamos anúncios, páginas e URLs. Não acessamos os grupos nem confirmamos os reembolsos; por isso, apresentamos queixas e respostas como relatos atribuídos.
Fontes
- Coaches divulgam bets e ensinam a driblar veto, e clientes reclamam de golpes — Folha de S.Paulo (07/11/2026)
- Audiência no STF e dados sobre danos das apostas — Conselho Nacional de Saúde (03/11/2026)
- Direitos dos apostadores e atuação da Secretaria de Prêmios e Apostas — Ministério da Fazenda (16/03/2026)



