Opinião

Fim da escala 6x1: a conta maior fica com o pequeno empregador

A Emenda 141 corta a jornada de 44 para 40 horas sem redução de salário. No pequeno comércio e nos serviços, cada hora trabalhada fica 10% mais cara.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Ilustração provisória: grandes aspas geométricas, em formas geométricas planas.
Imagem provisória, a ser substituída por fotografia ou infográfico da redação antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Na sexta-feira (16), o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141, que acaba com a escala 6x1. Quem tem carteira assinada passa a ter dois dias de descanso remunerado por semana, um deles de preferência no domingo. A mudança começa em 15 de dezembro.

O limite semanal cai de 44 para 42 horas nessa data e para 40 horas um ano depois. O artigo 2º da emenda proíbe qualquer redução salarial, “nominal, proporcional ou de qualquer outra espécie”. Segundo o Ministério do Trabalho, citado pela Agência Senado, cerca de 14,9 milhões de pessoas trabalham hoje na escala 6x1.

O desejo de mais descanso é legítimo, e não o discuto. Discuto quem paga a conta.

A conta da hora trabalhada

A matemática é simples. Quem recebia um salário por 44 horas passa a recebê-lo por 40. O custo de cada hora sobe 10%. Na primeira etapa, de 44 para 42 horas, a alta é de cerca de 4,8%.

Uma loja aberta seis dias por semana não vai fechar um dia porque a escala mudou. Para cobrir o mesmo horário, o dono tem três saídas: contratar, pagar hora extra ou reduzir o atendimento. Pela Constituição, a hora extra custa no mínimo 50% a mais que a normal.

Grandes redes diluem esse custo. Têm caixa, equipes maiores para montar escalas e dinheiro para automação. A padaria, o salão de beleza e a pequena oficina não têm. Neles, o salário é a maior parte da despesa.

As estimativas divergem muito. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta alta de até R$ 267 bilhões nos custos de produção, segundo a Agência Brasil. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula um impacto médio bem menor. Mesmo ele, porém, aponta alta de 6,6% no custo total das empresas de vigilância e segurança, setor intensivo em mão de obra.

A média esconde justamente quem depende mais de gente. E esse é o perfil do pequeno comércio e dos serviços de bairro.

O que ainda pode atenuar

A própria emenda reconhece o problema. O artigo 5º permite que uma lei complementar crie medidas transitórias para microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. A condição é que mantenham os níveis de emprego.

Essa lei ainda não existe, e as empresas têm menos de dois meses para reorganizar turnos. O Congresso deveria votá-la antes de 15 de dezembro. Um prazo maior para chegar às 40 horas, ou um alívio temporário nos encargos sobre a folha de quem preservar vagas, reduziria o choque.

Também é preciso usar bem a flexibilidade que o texto já dá. Até a etapa das 40 horas, acordos e convenções coletivas podem ampliar a jornada diária. Eles também podem manter outras escalas, desde que garantam, na média do mês, dois dias de descanso por semana.

O que dizem os defensores da redução da jornada: A Central Única dos Trabalhadores (CUT) chamou a mudança de vitória “maiúscula da luta, do suor e da organização da classe trabalhadora brasileira”. Para Miguel Torres, presidente da Força Sindical, a medida “beneficiará milhões de pessoas pelo país, que poderão contar com mais tempo para cuidados com a saúde”. O Ipea estima “um impacto de 1% no custo total das empresas” de setores como comércio e indústria, segundo a Agência Brasil.

Mais descanso é uma conquista quando vem acompanhado de produtividade. Sem ela, o ajuste tende a vir pelo lado mais fraco: menos vagas formais e mais informalidade nos pequenos negócios. A lei complementar prevista no artigo 5º é a chance de evitar esse desfecho.

Fontes