Opinião

Concorrência protege o consumidor melhor que o tabelamento de preços

Há 40 anos, o Plano Cruzado congelou preços por decreto e colheu falta de carne e ágio. Preço baixo e duradouro vem de mais concorrência, não de tabela.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Ilustração provisória: grandes aspas geométricas, em formas geométricas planas.
Imagem provisória, a ser substituída por fotografia ou infográfico da redação antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 27 de fevereiro de 1986, o Decreto-Lei 2.283 criou o cruzado e congelou todos os preços do país nos níveis daquele dia. O congelamento valia inclusive para aluguéis residenciais. O artigo 39 convocava “qualquer pessoa do povo” a denunciar quem desrespeitasse a regra.

Assim nasceram os “fiscais do Sarney”, consumidores que conferiam etiquetas e denunciavam remarcações. Segundo a Rádio Câmara, a Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), órgão que fiscalizava preços, multou milhares de lojas. No começo, a inflação despencou, e o consumo disparou.

Quarenta anos depois, a inflação voltou a incomodar. Em setembro, o IPCA, índice oficial de preços, subiu 0,82%, e o tomate ficou 37,76% mais caro, segundo o IBGE. Em momentos assim, a tentação de tabelar preços sempre reaparece. A experiência de 1986 mostra por que resistir a ela.

O que veio depois do congelamento

Com preços travados e demanda em alta, a produção não acompanhou. Faltou carne bovina, e pecuaristas seguraram o gado à espera de preços melhores, relata a Rádio Câmara. Nem importações nem apreensões feitas pela Polícia Federal resolveram o problema.

Surgiu então o ágio, uma cobrança por fora, acima da tabela, feita por quem apostava na liberação dos preços. O produto existia, mas só para quem pagasse mais. O congelamento escondia a inflação sem acabar com ela.

Em novembro de 1986, logo depois das eleições, veio o Cruzado II. O plano corretivo encerrou o congelamento e trouxe reajustes de até 120% em alguns preços, segundo a mesma fonte. A inflação voltou ainda mais forte.

O país ainda repetiria a receita nos planos Bresser, em 1987, e Verão, em 1989, ambos com novos congelamentos. A inflação só foi vencida pelo Plano Real, em 1994, que não congelou preços. Ele usou uma unidade de transição, a Unidade Real de Valor (URV), para desmontar a indexação aos poucos.

Por que a tabela falha

Preço não é só um número na etiqueta. Ele informa o quanto um produto está escasso e o quanto vale a pena produzir mais. Quando o governo trava esse sinal, o produtor perde o motivo para ampliar a oferta.

A concorrência faz o caminho oposto. Quando várias empresas disputam o mesmo cliente, quem cobra caro perde vendas. Margens altas atraem novos concorrentes, e a oferta maior empurra o preço para baixo. Esse desconto não depende de fiscal: ele se sustenta sozinho.

Isso não significa Estado ausente. Cabe a ele remover barreiras à entrada de novas empresas, reduzir tarifas de importação e punir cartéis. A Lei 12.529, de 2011, deu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a tarefa de prevenir e reprimir infrações contra a ordem econômica.

O que dizem os defensores do controle de preços: A equipe do Cruzado via o congelamento como arma contra a inflação inercial, a que se repete porque preços e salários são corrigidos pela inflação passada. Segundo artigo de Marcello Averbug na Revista do BNDES, o plano “baseava-se na neutralização do fator inercial de inflação, associada ao congelamento de preços e salários”. O Código de Defesa do Consumidor também proíbe elevar preços sem justa causa (art. 39, X).

O diagnóstico da inércia era sério, e o abuso existe e deve ser punido. Mas o Cruzado mostrou que tabelar preços trata a febre quebrando o termômetro. O que baixa preços de forma duradoura é mais gente vendendo, mais produto chegando e menos barreira no caminho.

Fontes