Plano de aposentadoria aos 67 empurra a conta para as mulheres
Opinião: o plano entregue a Flávio Bolsonaro eleva a idade mínima para 67 anos e adia em cinco anos a aposentadoria das mulheres.
Opinião. Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias de quem o assina, não necessariamente as da Revista Independência.

Opinião. Este texto é um artigo de opinião da Revista Independência, separado do noticiário.
Hoje, a regra geral permite que mulheres se aposentem aos 62 anos. Um plano entregue ao candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quer levar essa idade a 67, com transição de dez anos. O documento foi apresentado em 13 de outubro, em São Paulo, a cerca de 500 empresários.
A proposta parece justa porque vale para homens e mulheres. Não é. Para as mulheres, a conta é de cinco anos a mais de trabalho. Para os homens, são dois, já que a idade atual é 65.
O plano foi entregue por Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Segundo o ICL Notícias, ele foi elaborado pelo Instituto de Economia Gastão Vidigal, ligado à ACSP, em parceria com a Fundação Internacional para a Liberdade (FIL Brasil).
O presidente de honra da FIL é Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Jair Bolsonaro. A proposta também desvincula o piso previdenciário do salário mínimo, segundo o Correio da Manhã.
Quem carrega a jornada em casa
Em 2022, 92,1% das mulheres fizeram afazeres domésticos ou cuidaram de alguém. Entre os homens, a proporção foi de 80,8%, segundo a PNAD Contínua do IBGE. A diferença de tempo ficou em 9,6 horas por semana, ante 10,6 horas em 2019.
Esse trabalho não aparece como emprego, e por isso não conta para a aposentadoria. Quem cuida de filho ou de pai idoso reduz horas, muda de emprego ou sai do mercado formal. A regra de idade única não olha para essa diferença. A tabela mostra o ponto de partida de cada sexo.
O plano iguala a idade, mas as mulheres já carregam mais trabalho Idade, transição e indicadores por sexo; anos e percentuais, 2022 e 2024
| Indicador | Mulheres | Homens |
|---|---|---|
| Idade atual na regra geral | 62 anos | 65 anos |
| Idade proposta no plano | 67 anos | 67 anos |
| Transição proposta | 10 anos | 4 anos |
| Fazem afazeres ou cuidados (2022) | 92,1% | 80,8% |
| Expectativa de vida ao nascer (2024) | 79,9 anos | 73,3 anos |
Fonte: ICL Notícias (plano); IBGE, PNAD Contínua 2022 e Tábuas Completas de Mortalidade 2024, citados pelo Brasil de Fato e pelo Diário de Pernambuco. Elaboração: redação.
O argumento contrário e a conta fiscal
A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, segundo o IBGE. As mulheres vivem 79,9 anos, e os homens, 73,3 anos. A diferença de 6,6 anos favorece as mulheres, e é o melhor argumento contra esta coluna.
A média nacional esconde desigualdades. Não encontramos levantamento nacional recente que meça a expectativa de vida por faixa de renda. Mas quem começa a trabalhar cedo, em serviço pesado ou sem carteira, tende a chegar aos 67 anos com mais desgaste físico. Quem trabalha na roça, na construção ou na rua não consegue esticar a carreira como um escritório. Para essas pessoas, cinco anos a mais podem significar anos sem renda formal.
O contra-argumento é real e merece resposta. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, o Regime Geral de Previdência Social somou R$ 1,027 trilhão em 2025. Isso equivale a 8,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e a 42,9% da despesa primária da União.
Se a tendência atual continuar, o gasto pode chegar a 9,1% do PIB em 2030, segundo o SBT News. A IFI atribui a pressão ao envelhecimento da população, segundo o Poder360. A reforma de 2019 foi apresentada como capaz de gerar economia de R$ 800 bilhões em dez anos, também segundo o Poder360. Para a IFI, ela não bastou para conter a alta, segundo o SBT News.
Dito isso, o problema fiscal é real. Mas as reportagens consultadas não trazem a economia estimada só pela mudança de idade. Sem esse número, ninguém pode dizer se o ganho compensa o custo para quem trabalha mais e vive menos.
O que isso significa
A Previdência é uma conquista do país. A Lei Eloy Chaves, de 1923, completou cem anos em 2023, em sessão especial do Senado. Ela foi construída por trabalhadores, e não pode virar apenas uma linha de ajuste.
Antes de subir a idade de todos, o debate precisa perguntar quem trabalha mais, quem cuida mais e quem chega ao fim da carreira com menos saúde. Sem essa conta, a idade mínima de 67 anos cobra mais de quem já paga mais.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Segundo o Correio da Manhã, a campanha afirmou que “propostas apresentadas por terceiros não devem ser tratadas como posições oficiais do candidato”. Não localizamos manifestação da campanha sobre a idade de 67 anos. Esta coluna não enviou perguntas à campanha para este texto.
Como fizemos: Usamos as reportagens do ICL Notícias (15/10/2026) e do Correio da Manhã (16/10/2026) sobre o plano. Os dados do IBGE vieram da PNAD Contínua, Outras Formas de Trabalho de 2022, reproduzida pelo Brasil de Fato (11/08/2023), e das Tábuas Completas de Mortalidade de 2024, reproduzidas pelo Diário de Pernambuco (28/11/2025). Tudo foi acessado em 23/10/2026. Cálculos nossos: 67 menos 62 anos dá 5 anos para as mulheres; 67 menos 65 dá 2 anos para os homens; 79,9 menos 73,3 dá 6,6 anos de diferença. Não encontramos a cobertura original da Folha nem estimativa oficial da economia gerada só pela mudança de idade. Os dados do IBGE chegaram por reportagens que os citam, e a consulta direta às tabelas é recomendada.
Fontes
- Flávio discutiu com empresários plano para elevar idade de aposentadoria e rever Bolsa Família — ICL Notícias (15/10/2026)
- Empresários pedem a Flávio elevação da idade de aposentadoria para 67 — Correio da Manhã (16/10/2026)
- Previdência consome R$ 1 tri e 42,9% da despesa da União — Poder360 (dados da IFI, RAF nº 112)
- Gastos com a Previdência começam a forçar nova reforma, diz Instituição Fiscal — SBT News (21/05/2026)
- Congresso conclui reforma da Previdência — Poder360 (22/10/2019)
- Mulheres fazem trabalho doméstico por 9,6 horas a mais que os homens, aponta IBGE — Brasil de Fato (11/08/2023)
- Expectativa de vida no Brasil volta a subir e atinge 76,6 anos em 2024, aponta IBGE — Diário de Pernambuco (28/11/2025)
- Sessão Especial - Centenário da Previdência Social no Brasil — Agência Senado, Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



