Em 2008 e 2020, a bolsa caiu mais depois do primeiro choque

Em 2008 e em 2020, o Ibovespa ainda caiu muito depois do primeiro choque. Veja os níveis, o tempo até o fundo e a recuperação.

Operadores sentados de costas diante de monitores e de um grande painel com cotações em vermelho e verde no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), antecessora da B3, em foto de arquivo de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 20 de maio de 2008, o Ibovespa, principal índice de ações da B3, fechou em 73.516 pontos. Era o maior fechamento da história. Em 27 de outubro, segundo uma coluna do InfoMoney, o índice chegou a 29.435 pontos. A queda foi de cerca de 60%.

Quem vê uma queda forte costuma pensar que o pior já passou. Os números de 2008, de 2013 a 2015 e de 2020 mostram que nem sempre é assim. Os níveis abaixo são pontos nominais, sem correção pela inflação.

Em 2008, o fundo veio depois de meses de queda

Em 17 de setembro, o índice já estava em 45.909 pontos, cerca de 38% abaixo do pico, segundo o InfoMoney. Em 15 de outubro, caiu 11,39% em um só dia, segundo a Economatica, citada pela Suno.

O pico nominal de 2008 só foi superado em outubro de 2017, segundo a Alocação de Ativos. Pelo critério corrigido pela inflação, o recorde daquele ano aparece como 134.917 pontos, segundo a Economatica.

Em 2020, o fundo veio dois meses depois do recorde

O Ibovespa fechou em recorde de 119.527,63 pontos em 23 de janeiro de 2020, segundo a Suno. Em março, caiu 29,91%. Foi a pior queda mensal desde agosto de 1998, segundo a InfoMoney.

A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende a negociação em quedas fortes, seis vezes entre 9 e 18 de março, segundo a Moneytimes. No dia 18, a negociação parou às 13h17, com o índice em queda de 10,26%. No fechamento, o índice caiu 10,35%, aos 66.894 pontos, segundo o vLex.

O Poder360 registrou a mínima anual de 63.569 pontos em 23 de março. A InvestNews citou uma mínima intradiária menor, de 61.690 pontos, em março, sem dar o dia. Em relação ao recorde de janeiro, as quedas foram de cerca de 47% e 48%, nessa ordem. Em janeiro de 2021, o índice superou o recorde de janeiro de 2020, segundo a Revista Oeste.

Em 2013 a 2015, a queda durou três anos

Esse caso não teve um pico e um fundo claros. O índice caiu três anos seguidos. Em 2013, recuou 15,5%, para 51.507 pontos, segundo o Jornal do Brasil (JB). Em 2014, caiu 2,91%. Em 2015, caiu 13,31%, para 43.349 pontos, o menor fechamento desde abril de 2009, segundo a InfoMoney.

O dólar também subiu. Em 21 de dezembro de 2015, o dólar comercial fechou a R$ 4,023, pela primeira vez em quase três meses acima de R$ 4, segundo O Imparcial. No ano, a moeda subiu 48,5%, segundo a InfoMoney.

Nem toda queda termina em recuperação. Em 30 de outubro de 2013, a OGX, petroleira do empresário Eike Batista, pediu recuperação judicial. É um processo para renegociar dívidas sob supervisão da Justiça. A empresa declarou passivo, ou seja, dívidas, de R$ 11,2 bilhões, segundo a Exame. Naquele dia, a ação caiu 26%, para R$ 0,17. O processo foi encerrado em agosto de 2017, segundo a Forbes.

O que diz a B3: em sua página sobre o circuit breaker, a bolsa explica que, com queda de 10% em relação ao fechamento anterior do Ibovespa, “a negociação é interrompida por 30 (trinta) minutos”.

Três quedas, três tempos até o fundo Pontos do Ibovespa, valores nominais. Percentuais e prazos são cálculos nossos.

Episódio Queda até o fundo Tempo até o fundo Tempo até o pico voltar
2008 cerca de 60% cerca de 5 meses cerca de 9 anos e meio
2020 cerca de 47% cerca de 2 meses cerca de 1 ano
2013 a 2015 cerca de 29% em 3 anos 3 anos não verificado

O que isso significa

Os casos mostram um padrão. O primeiro sinal de queda não marcou o fundo. Em 2008, o índice perdeu cerca de 36% entre 17 de setembro e 27 de outubro, cálculo nosso com os níveis citados. Em 2020, o fundo veio duas semanas depois do primeiro acionamento do circuit breaker, em 9 de março.

Ninguém acerta o fundo com precisão. A recuperação do pico levou cerca de um ano em 2020 e quase dez anos em 2008. Empresas também podem não se recuperar. A OGX, por exemplo, entrou em recuperação judicial com R$ 11,2 bilhões em dívidas.

Esta reportagem não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar, como mostram os três casos.

Como fizemos: Usamos níveis de fechamento e de mínima do Ibovespa citados por InfoMoney, Poder360, Suno (com dados da Economatica), Moneytimes, vLex, InvestNews, Revista Oeste e Alocação de Ativos, além de reportagens do JB, de O Imparcial e da Exame, acessadas em 26/10/2026. Os níveis são nominais, sem correção pela inflação. Porcentagens, prazos e a queda acumulada de 2013 a 2015 (encadeando as três variações anuais) são cálculos nossos. O nível de 29.435 pontos em 27/10/2008 vem de uma única coluna, que não diz se é fechamento ou mínima do dia; não encontramos série oficial da B3 para confirmar. A mínima de 61.690 pontos não tem dia definido na fonte. O trecho sobre janeiro de 2021 vem de página da Revista Oeste que não abriu integralmente. Esta reportagem não analisa os movimentos do pregão de 26 de outubro de 2026, porque usa apenas dados históricos já divulgados.

Fontes