Confiança da indústria cai pelo terceiro mês em outubro

ICI recua a 91 pontos, e avaliação do momento atual é a pior desde dezembro; expectativas melhoram, mas seguem abaixo de 100.

Trabalhadores com capacetes azuis em uma fábrica de alumínio durante visita institucional
Trabalhadores da Companhia Brasileira de Alumínio, em São Paulo, durante visita institucional em 13 de abril de 2006.Foto: Ricardo Stuckert / PR / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu 0,3 ponto em outubro, para 91 pontos. Foi a terceira queda mensal consecutiva, segundo sondagem divulgada nesta quarta-feira (28) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

O indicador mede a percepção dos empresários, não a produção efetivamente realizada. A escala vai de zero a 200 pontos, com 100 separando avaliações otimistas das pessimistas. O resultado atual está 9 pontos abaixo dessa linha de equilíbrio.

A piora veio principalmente das condições presentes. O Índice de Situação Atual (ISA) recuou 1,1 ponto, para 92,5. É o menor nível desde dezembro de 2025. As expectativas para os próximos meses melhoraram, mas também permanecem abaixo de 100.

Presente piora enquanto expectativa reage

Avaliação do momento atual cai quase o dobro do ICI Componentes da sondagem industrial, em pontos

Indicador Setembro, calculado Outubro Variação mensal
Confiança da Indústria (ICI) 91,3 91,0 -0,3 ponto
Situação Atual (ISA) 93,6 92,5 -1,1 ponto
Expectativas (IE) 89,2 89,8 +0,6 ponto

Fonte: FGV Ibre. Valores de setembro calculados pela redação a partir das variações divulgadas.

Na média móvel trimestral, que suaviza oscilações mensais, o ICI perdeu 2,1 pontos, para 92. A queda mais intensa nessa medida reforça a leitura de enfraquecimento gradual. Não se trata apenas de uma variação isolada entre setembro e outubro.

O economista Stéfano Pacini, do FGV Ibre, associou o resultado à desaceleração da demanda e ao acúmulo de estoques. Estoques são produtos ainda não vendidos. Quando aumentam além do planejado, empresas tendem a rever produção, compras e contratações.

Melhora setorial não evita queda geral

A confiança aumentou em 10 dos 19 segmentos pesquisados. Isso representa 52,6% dos setores, mas não foi suficiente para elevar o índice agregado. A pesquisa combina respostas com pesos diferentes, portanto altas em mais segmentos não garantem alta no total.

A divergência entre situação atual e expectativas também limita o otimismo. O avanço de 0,6 ponto no indicador de expectativas recupera apenas parte do terreno negativo. Empresários podem esperar melhora futura e, ao mesmo tempo, relatar dificuldades no presente.

O acúmulo de estoques merece atenção porque afeta o uso da capacidade instalada. Se as vendas não reagirem, a empresa pode reduzir turnos e adiar investimentos. A sondagem não mede quanto cada segmento deverá cortar.

Para o leitor, a sondagem funciona como sinal antecipado, não como confirmação de emprego ou produção. Esses efeitos precisam ser conferidos nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Novo Caged, registro oficial de admissões e demissões.

O que diz a FGV Ibre: Pacini afirmou que o resultado confirma as análises de desaceleração da demanda e acúmulo de estoques. A instituição destacou a piora mais intensa nos indicadores da situação atual, apesar da leve melhora das expectativas.

Próximos dados medirão a atividade real

O mercado de trabalho continua resistente, mas não tem bastado para sustentar a confiança industrial, segundo o economista. As condições de financiamento e as incertezas econômicas também pesam nas decisões das empresas.

A próxima leitura da sondagem mostrará se a recuperação das expectativas ganha força. Os dados de produção industrial indicarão se a percepção negativa se transforma em retração efetiva. Por ora, o quadro é de cautela, não de conclusão sobre uma crise industrial.

Como fizemos: Consultamos os resultados da Sondagem da Indústria divulgados pela FGV Ibre e reproduzidos pelo Valor e pelo BP Money em 28/10/2026. Calculamos os níveis de setembro invertendo as variações mensais e a proporção de segmentos em alta. Não usamos o ICI como medida de produção ou emprego.

Fontes