Tesouro cancela leilões e recompra R$ 7,1 bi após alta dos juros

Após a reeleição de Lula, juros futuros subiram mais de 2 pontos percentuais em alguns prazos e o risco-país foi ao maior nível desde junho de 2025.

Sede do Banco Central do Brasil em Brasília, torre de concreto e vidro escuro sob céu azul
A sede do Banco Central em Brasília, instituição que decide a Selic no Copom (foto de 2010).Foto: Banco Central do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Às 14h37 desta segunda-feira (26), o Ibovespa, principal índice da bolsa, caía 14,58%. No mesmo dia, o Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões. Os dois movimentos vieram da reeleição de Lula, confirmada no domingo (25), com 51,79% dos votos válidos.

A reação dos juros é a parte que mais pesa no seu bolso, mesmo sem comprar títulos. Os juros futuros mostram a expectativa do mercado para a taxa básica de juros, a Selic, nos próximos anos. Quando sobem, o mercado espera juros altos por mais tempo.

Quanto custou a alta

O contrato de janeiro de 2031 estava em 12,641% ao ano na sexta-feira (23). Às 11h29, chegou a 14,460%, segundo o Economic News Brasil. A alta é de 1,82 ponto percentual, cálculo nosso. Os números estão na tabela abaixo.

Juros e mercado em 26 de outubro de 2026, em horário de Brasília Taxas ao ano e índices, valores registrados ao longo da tarde

Horário Indicador Valor
Sexta (23), fechamento DI janeiro de 2031 12,641%
9h58 DI janeiro de 2028 14,915% (antes, 12,859%)
11h29 DI janeiro de 2031 14,460%
13h35 Tesouro Prefixado 2032 15,78% (antes, 12,89%)
14h09 Dólar comercial R$ 5,446, alta de 9,06%
14h37 Ibovespa 175.032,74 pontos, queda de 14,58%
15h29 CDS de 5 anos (risco-país) 151,7 pontos, ante 120,2 na sexta

Fonte: InfoMoney, Economic News Brasil, Reuters (via CNN Brasil) e Money Times, com dados de cada horário. Diferenças em pontos percentuais e percentuais são cálculo nosso. Elaboração: redação.

Os dados são parciais. O fechamento do dia não entra nesta reportagem.

O que o Tesouro fez

O Tesouro cancelou os leilões de títulos prefixados, de quinta-feira (29), e de títulos atrelados à inflação, de terça-feira (27). Manteve só o leilão de títulos ligados à Selic. Em nota, disse que “continuará monitorando as condições de mercado”.

Às 12h50, o InfoMoney informou uma recompra de cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados. Segundo o Economic News Brasil, o cancelamento não quer dizer que o governo deixou de pagar as dívidas. Também não significa que o custo de todo o estoque subiu de imediato.

Em março deste ano, o economista Luis Felipe Vital, da Warren, explicou o limite dessa ferramenta. Disse, em entrevista ao Money Times: “O Tesouro não está ali para baixar juros.”

Quem paga a conta

A dívida pública federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto. Desse total, 52,74% são títulos ligados à Selic, recorde da série, segundo o Tesouro. Esses títulos acompanham a taxa básica. Os prefixados já emitidos mantêm a taxa de compra. A alta pesa mais no que vence e precisa ser renovado.

Para a Capital Economics, a dívida deve subir de cerca de 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 para cerca de 95% em 2030. A projeção é do economista-chefe de mercados emergentes, William Jackson. Ele disse: “A vitória de Lula colocará os problemas das finanças públicas do Brasil em evidência.”

Copom e crédito

O próximo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, decide a Selic nos dias 3 e 4 de novembro. A taxa está em 13,75% ao ano. A Capital Economics projeta manutenção nas duas reuniões que restam em 2026. Nenhuma fonte nomeada, até o começo da tarde, mediu o efeito sobre o crédito. Nossa leitura do mecanismo é que juros futuros mais altos tendem a encarecer empréstimos de prazo longo, como o financiamento imobiliário. Ainda não há dados públicos que comprovem isso.

O impasse e a leitura fiscal

Na noite de domingo, Flávio Bolsonaro disse: “É impossível reconhecer o resultado dessa eleição”. Também afirmou: “Vamos pedir a anulação dessas eleições”, segundo o InfoMoney. Fontes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) disseram à Reuters que a anulação tem chances remotas.

Nenhuma fonte nomeada atribuiu a queda dos juros e da bolsa à recusa do resultado. Os analistas citados apontam para as contas públicas. Esse ponto vai contra a leitura de que o problema seria só o impasse. Segundo a Reuters, o mercado tinha apostado numa vitória de Flávio, por achar que ele ajustaria mais as contas. Com a vitória de Lula, essa expectativa caiu.

Por isso, parte da alta reflete dúvida fiscal sobre o novo governo. Em entrevista publicada na noite de 25 de outubro, a estrategista Solange Srour, da UBS Wealth Management, disse: “Se o presidente não atacar essa causa, os juros podem ficar no patamar atual por muito mais tempo.”

O que diz o Tesouro Nacional: Em nota, afirmou que “continuará monitorando as condições de mercado e atuará de forma a assegurar o bom funcionamento”. A nota foi reproduzida pelo InfoMoney, que não informou horário de publicação do texto.

Investimentos em títulos e ações podem perder valor. Movimentos de pânico no mercado podem se aprofundar. Esta reportagem não é recomendação de compra ou venda.

O que isso significa

O custo da dívida depende do que o governo vende e do que precisa renovar. Por isso, a alta de hoje pesa mais no futuro do que no caixa imediato. A decisão do Copom em 4 de novembro mostrará se o mercado está certo sobre a Selic. A política fiscal do novo governo será o fator decisivo, segundo as análises citadas.

Como fizemos: Usamos cotações do InfoMoney e do Money Times, a nota do Economic News Brasil e a cobertura da Reuters publicadas até 15h50 de 26/10/2026, com acesso nessa data. Os dados são parciais, sem fechamento. Os percentuais e pontos percentuais são cálculos nossos. A participação dos títulos ligados à Selic vem do relatório mensal do Tesouro, segundo o Jornal do Comércio. Não usamos dados de crédito porque não há medição pública até a data.

Fontes