Juros caindo "muito rápido" por decreto é populismo, não economia

No debate da Band, Flávio prometeu queda 'muito rápida' dos juros via corte de gastos. O plano dele não traz meta de juros nem menciona o Banco Central.

O edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília.
O edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília; o Copom, colegiado do BC, define a Selic (foto de arquivo).Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na noite de domingo (18), no debate da Band, Flávio Bolsonaro prometeu uma queda veloz dos juros. Se eleito, disse ele, a taxa “vai cair de forma muito rápida”, segundo o Metrópoles. O motor da promessa seria um só: cortar o gasto público, que ele culpou pela Selic alta.

Para quem paga juros no cartão, no crediário e no capital de giro da empresa, a tentação é entender. A Selic, a taxa básica de juros do país, está em 13,75% ao ano. Mas a Selic não cai por decreto presidencial. Ela é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), o colegiado do Banco Central (BC) que se reúne a cada 45 dias — como esta revista já explicou.

E os cortes já estão acontecendo. São cinco quedas seguidas da taxa, a última decidida em 16 de setembro. O passo é curto por um motivo simples: a inflação não voltou à meta. O IPCA, a inflação oficial, acumula 4,58% em 12 meses, acima do teto de 4,5%. Com preço subindo além do combinado, o BC corta com conta-gotas.

Um plano sem meta de juros

Onde a promessa deveria estar escrita, ela não está. O plano de governo registrado propõe um tesouraço — o corte de pelo menos dez ministérios —, novas regras fiscais e uma revisão da reforma tributária, segundo a Forbes. O texto não define caminho para a Selic. Não traz meta de juros, nem prazo. Não menciona o Banco Central. A única engrenagem entre corte e juro menor é a palavra confiança.

No debate, os números que apareceram foram outros. Flávio prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e comprar as dívidas de famílias e empresas junto aos bancos, relatou o ND+. Comprar dívida privada com dinheiro público é gasto, não corte. É o tipo de medida que costuma fazer o mercado cobrar mais juro do governo, e não menos.

O que o mercado projeta

Os analistas já têm cronograma, e ele não inclui decreto. O boletim Focus, a pesquisa do BC com economistas do mercado, projeta Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 12% no fim de 2027, vencer quem vencer. A inflação esperada para este ano é de 5,22%, bem acima da meta de 3%, segundo a Bloomberg Línea.

Os bancos são mais cautelosos. Em levantamento da InfoEconomics, o Goldman Sachs vê pouco espaço para cortes no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste. O Inter só projeta quedas mais rápidas se chegar um pacote fiscal crível. O JPMorgan espera pausa até abril. O Santander trabalha com cerca de 11% apenas no fim de 2027. A palavra que se repete é gradual.

Até na própria campanha o calendário é menos entusiasmado. O coordenador Rogério Marinho disse, em agosto, que a Selic poderia cair para algo entre 12% e 13% se o controle fiscal vier cedo, segundo o Eu Quero Investir. De 13,75% para 12%, com o Congresso pela frente, isso não é “muito rápido”. É o ritmo que o Copom já pratica.

Há, é verdade, um número de Flávio que passou na checagem. No debate, ele citou a dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), e a Lupa confirmou a cifra como verdadeira. O problema é o outro número, o que não existe. A promessa de juros caindo rápido ainda não foi avaliada por nenhum checador. Talvez porque não haja o que checar: não há meta, nem prazo, nem mecanismo.

O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, o candidato defendeu que o corte de gastos restaura a confiança e derruba os juros. Se eleito, disse ele, a taxa “vai cair de forma muito rápida”, porque o gasto público do governo Lula é o obstáculo, segundo o Metrópoles.

Populismo econômico é prometer o resultado sem mostrar o mecanismo. Para quem defende livre mercado, a regra é o contrário: número, prazo e instituição. O Copom volta a se reunir em 3 e 4 de novembro, depois do segundo turno. Quem vencer no dia 25 vai herdar a mesma tarefa: convencer o comitê, com contas verossímeis, de que a inflação vai à meta. Até lá, “muito rápido” é adjetivo. E a Selic não responde a adjetivo.

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