Inflação esperada de 5,2% e meta de 3%: o obstáculo que Flávio ignora
O mercado espera inflação de 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com os preços resistentes, bancos veem pouco espaço para juros caindo no ritmo que Flávio promete.

O mercado espera inflação de 5,22%. A meta oficial é de 3%. A distância entre os dois números aparece no boletim Focus de 13 de outubro. Ela é o maior obstáculo à promessa que Flávio Bolsonaro fez no debate da Band, no domingo (18). Ele garantiu que os juros vão cair “de uma forma muito rápida”, segundo o Metrópoles.
O boletim Focus é a pesquisa semanal do Banco Central (BC) com as projeções dos economistas do mercado. Os números foram reproduzidos pelo Diario de Pernambuco e pela Bloomberg Línea.
Há um dado a favor do candidato nesse mesmo boletim. A estimativa para a Selic no fim de 2026 caiu de 13,50% para 13,25%. A Bloomberg Línea associou a revisão ao avanço de Flávio nas pesquisas. O mercado aposta num ajuste fiscal. Falta o candidato mostrar qual.
Por que a meta manda nos juros
O BC tem uma tarefa principal: levar a inflação até a meta. A ferramenta para isso é a Selic, a taxa básica de juros do país. Juros altos encarecem o crédito, esfriam o consumo e ajudam a segurar os preços.
Quando a inflação esperada fica muito acima da meta, o BC tende a ir devagar nos cortes. Cortar rápido demais poderia reacender a alta de preços. É por isso que a inflação, e não o discurso de campanha, define o ritmo da Selic.
Hoje a Selic está em 13,75% ao ano, depois do quinto corte seguido do Comitê de Política Monetária (Copom), em 16 de setembro. O Copom é o grupo do BC que decide os juros. A queda já está em curso. O que está em discussão é a velocidade.
Os economistas de bancos olham justamente para a inflação. O Goldman Sachs vê pouco espaço para cortes no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste a cair, segundo o InfoEconomics. Inflação de serviços é a alta de preços de coisas como aluguel, escola e conserto.
O JPMorgan espera uma pausa nos cortes até abril. O Santander projeta a Selic em cerca de 11% só no fim de 2027. O Banco Inter vê cortes mais rápidos apenas se vier um pacote fiscal crível.
O próprio Focus aponta uma trajetória gradual. A projeção é de Selic em 13,25% no fim de 2026 e em 12% no fim de 2027. Ninguém, nesse grupo, fala em queda “muito rápida”.
A promessa que não fala de preços
O plano de governo de Flávio liga a queda dos juros a contas públicas em ordem. Promete um “tesouraço” nos gastos, o corte de pelo menos dez ministérios e novas regras fiscais. Mas não traz meta para a Selic nem menciona o BC, segundo a Forbes. É um plano de juros que deixa de fora a instituição que define os juros.
Ao mesmo tempo, o candidato soma promessas de gasto. No debate, falou em liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e em comprar dívidas de famílias e empresas junto aos bancos, segundo o ND+. Cada real a mais de gasto prometido torna o trabalho do Copom mais difícil, não mais fácil.
Há um ponto em que Flávio tem razão, e é preciso dizê-lo. A inflação está acima da meta, e isso pesa contra o governo atual. Mas apontar o problema não é o mesmo que resolvê-lo.
Os ex-presidentes do BC Arminio Fraga e Henrique Meirelles esperam que o candidato evite detalhar o ajuste fiscal, segundo o Jornal de Brasília. Sem detalhes, o mercado não tem como precificar o corte. E sem corte crível, a inflação continua mandando.
O próprio campo de Flávio tem dúvidas sobre o ajuste. Marcelo Kayath, cotado para a equipe econômica, considerou inviável cortar R$ 200 bilhões em um ano, segundo entrevista ao Estadão reproduzida pelo Terra.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O candidato atribui os juros altos ao gasto do governo e afirma que os cortes de despesa vão devolver a confiança na economia. Segundo ele, isso abriria caminho para uma queda rápida da Selic, como disse no debate da Band, relatado pelo Metrópoles e pelo ND+.
Para o consumidor, a conta é concreta. Inflação acima da meta corrói o salário no supermercado. Juros altos encarecem a prestação. Uma promessa que ignora o primeiro problema não resolve o segundo. No dia 25, o eleitor que paga essas duas contas merece um plano que comece pelos preços, e não pelo slogan.
Fontes
- Estimativa para a Selic ao fim de 2026 passa de 13,50% para 13,25% — Diario de Pernambuco
- Mercado reduz previsão para Selic a 13,25% com avanço de Flávio Bolsonaro nas eleições — Bloomberg Línea
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Favoritismo de Flávio Bolsonaro pode acelerar cortes da Selic — InfoEconomics
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Dívida pública, juros e custo de vida no debate da Band — ND+
- Lula critica “tesouraço” e questiona onde Flávio fará corte de R$ 250 bilhões — Terra/Estadão
- Dianteira de Flávio Bolsonaro gera expectativa por ajuste fiscal — Jornal de Brasília



