A Selic já está caindo: Flávio promete o que o mercado já projeta

O Copom fez cinco cortes seguidos, e o boletim Focus já vê a Selic em 12% no fim de 2027. Flávio vende como promessa sua uma queda que já está em curso.

Fachada do edifício-sede do Banco Central do Brasil, um prédio alto de vidro escuro, vista de baixo, com árvores em primeiro plano.
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em fevereiro de 2015 (imagem de arquivo).Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Selic, a taxa básica de juros do país, está em 13,75% ao ano. Chegou a esse nível em 16 de setembro, depois do quinto corte seguido do Comitê de Política Monetária (Copom). O Copom é o grupo do Banco Central (BC) que define os juros. A queda, portanto, começou antes de qualquer voto no segundo turno.

No domingo (18), no debate da Band, Flávio Bolsonaro prometeu que, se eleito, os juros vão começar a cair “de uma forma muito rápida”, segundo o Metrópoles. Ele culpou o gasto do governo pelos juros altos. E disse que cortes de despesa vão devolver a confiança à economia.

O que o mercado já espera

O boletim Focus é a pesquisa semanal do BC com as projeções dos economistas do mercado. A edição de 13 de outubro projeta a Selic em 13,25% no fim de 2026 e em 12% no fim de 2027. A estimativa para este ano caiu de 13,50% para 13,25%, registrou o Diario de Pernambuco.

Há um dado a favor de Flávio, e esta revista não o esconde. A Bloomberg Línea associou essa revisão ao avanço dele nas pesquisas. O mercado gosta da ideia de um ajuste nas contas públicas, e isso pesa nas projeções.

Mas a direção da Selic já era de queda antes da campanha esquentar. A trajetória do Focus vale para o cenário do mercado, ganhe quem ganhar. Prometer juros menores, nesse quadro, é prometer algo que os próprios analistas já colocam na conta.

Os bancos, aliás, não falam em queda “muito rápida”. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste a cair. O JPMorgan espera uma pausa nos cortes até abril. O Santander projeta cerca de 11% só no fim de 2027, segundo o InfoEconomics.

O Banco Inter é o mais otimista, mas com uma condição. Ele só vê cortes mais rápidos se vier um pacote fiscal crível, isto é, um plano de corte de gastos em que o mercado acredite.

Uma promessa sem caminho

É aqui que a promessa de Flávio tropeça. O plano de governo registrado prevê um “tesouraço” nos gastos, o corte de pelo menos dez ministérios e novas regras fiscais. Mas não traz meta para a Selic e não menciona o Banco Central, segundo a Forbes.

Isso importa porque quem decide os juros não é o presidente da República. É o Copom. Um candidato pode prometer criar as condições para os cortes. Não pode prometer o corte em si, e muito menos o ritmo dele.

As condições, por enquanto, também estão no ar. Marcelo Kayath, cotado para a equipe econômica de Flávio, considerou inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano. A avaliação foi dada ao Estadão e reproduzida pelo Terra.

Os ex-presidentes do BC Arminio Fraga e Henrique Meirelles esperam que Flávio evite detalhar o ajuste. Analistas lembram ainda que um Congresso fragmentado limita o que ele conseguiria aprovar, segundo o Jornal de Brasília.

A inflação é outro freio. O mercado espera alta de preços de 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com a inflação longe do alvo, o Copom tende a ser cauteloso, seja quem for o presidente.

Nenhuma agência de checagem avaliou a promessa de juros caindo rápido, registrou a Lupa. A checagem confirmou outro dado de Flávio no debate: a dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O problema fiscal que ele aponta é real. O atalho que ele promete, não.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O candidato afirma que o gasto público é a causa dos juros altos e que o corte de despesas vai devolver a confiança, abrindo caminho para uma queda rápida da Selic. O argumento foi apresentado no debate da Band, segundo o Metrópoles.

Para quem tem financiamento ou paga juros no cartão, a queda projetada deve chegar de qualquer forma, no ritmo que o Copom permitir. A pergunta do dia 25 é outra: qual candidato tem um plano fiscal crível para acelerar esse ritmo? Até aqui, Flávio ofereceu o slogan. O plano, com números, ainda não apareceu.

Fontes