Cortar gastos para baixar juros: economistas divergem da aposta de Flávio

Flávio diz que cortar gastos fará os juros caírem rápido. Bancos exigem um ajuste crível, e um nome cotado para a equipe dele vê o corte como inviável.

O então presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, com a mão no rosto, durante reunião do Comitê de Política Monetária.
O então presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, durante reunião do Copom em Brasília, em julho de 2016 (imagem de arquivo).Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro apostou numa fórmula simples. Cortar gastos devolveria a confiança, e os juros cairiam “de uma forma muito rápida”, segundo o Metrópoles. A aposta tem uma lógica conhecida. O problema é que os economistas não concordam sobre o tamanho do efeito, nem sobre o prazo.

A lógica é esta. Se o governo mostra que vai controlar a dívida, o mercado cobra menos para emprestar a ele. Com menos risco no horizonte, o Comitê de Política Monetária (Copom), que define a Selic, ganha espaço para cortar. A Selic é a taxa básica de juros do país e está em 13,75% ao ano.

O que dizem os bancos

Entre os economistas de bancos, a divergência está no “como” e no “quando”. E nenhuma das casas ouvidas pelo InfoEconomics compra a ideia de queda “muito rápida” sem condições.

O Banco Inter vê cortes mais rápidos apenas se vier um pacote fiscal crível. Em outras palavras, a aposta de Flávio só funciona se o ajuste for de verdade. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste a cair. O JPMorgan espera uma pausa nos cortes até abril. O Santander projeta cerca de 11% no fim de 2027.

A inflação de serviços é a alta de preços de coisas como aluguel, escola e conserto. Ela costuma demorar mais para ceder do que a de alimentos.

O quadro, portanto, é de queda gradual, travada pela inflação. O próprio InfoEconomics registra que o favoritismo de Flávio pode acelerar os cortes da Selic. Mas só se o pacote prometido sair do papel. Cortar gastos ajuda, segundo esses analistas, mas não faz milagre de um mês para o outro.

O corte que ninguém mostra

A condição que todos citam é um ajuste crível. E é aí que a aposta de Flávio fica sem chão. O plano registrado promete um “tesouraço” nos gastos, mas não traz o valor da economia.

O único número que apareceu veio de uma reportagem da Folha. Segundo o jornal, a equipe estudou cortar cerca de R$ 250 bilhões em despesas obrigatórias. A campanha disse que aquela não era sua posição oficial, relatou a IstoÉ Dinheiro.

A conta desse corte também mostra onde ele doeria. Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano, segundo a BBC. É só 6% da meta de R$ 250 bilhões. O resto teria de sair das aposentadorias, e cerca de 70% dos beneficiários do INSS ganham um salário mínimo. O INSS é o Instituto Nacional do Seguro Social.

Nem dentro do time há consenso. Marcelo Kayath, cotado para comandar a economia num governo Flávio, considerou inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano. A avaliação foi dada ao Estadão e reproduzida pelo Terra.

Há economistas que discordam da própria premissa. O heterodoxo Luiz Gonzaga Belluzzo afirma que cortar gastos não derruba os juros. E diz que o corte defendido por Flávio chegaria aos mais pobres, em entrevista ao Brazil Economy.

Os ex-presidentes do Banco Central Arminio Fraga e Henrique Meirelles esperam outra coisa: que Flávio evite detalhar o ajuste. Analistas lembram que um Congresso fragmentado limita o que ele conseguiria aprovar, segundo o Jornal de Brasília. A reportagem resume o dilema: a dianteira de Flávio gera expectativa de ajuste fiscal, mas a chamada “pauta da vingança”, de anistia e embates com o Supremo, pode atrapalhar.

Um ponto, porém, joga a favor do candidato. A dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), que ele citou no debate, é verdadeira, segundo a Lupa. O problema que ele descreve existe. A divergência é sobre a solução.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O candidato afirma que o gasto público é a causa dos juros altos e que os cortes de despesa vão devolver a confiança na economia. Ele nega que pretenda cortar aposentadorias e diz que o tesouraço mira a corrupção.

Para o eleitor que paga juros no cartão ou no financiamento, a conclusão é direta. Cortar gastos pode, sim, ajudar a baixar os juros, desde que o corte exista, seja crível e passe no Congresso. Flávio promete o resultado sem apresentar o corte. No dia 25, essa é a diferença entre um plano e uma aposta.

Fontes