Bradesco corta PIB de 2027 a 0,4% e adia cortes da Selic

Banco reduz projeção de crescimento de 1,0% para 0,4% em 2027 e eleva IPCA a 5,3%; cenário é mais pessimista que a mediana Focus.

Fachada de uma agência do Bradesco em Uruçuca, na Bahia
Agência do Bradesco em Uruçuca, na Bahia, fotografada em 13 de junho de 2023.Foto: EuLuaFonseca / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O Bradesco reduziu sua projeção para o crescimento brasileiro em 2027 de 1,0% para 0,4%. A revisão foi divulgada nesta sexta-feira (6) e representa corte de 0,6 ponto percentual. O banco também adiou para o segundo semestre do próximo ano o início esperado dos cortes da Selic, a taxa básica de juros do país.

O cenário é mais pessimista que a mediana do Boletim Focus publicado em 3 de novembro. A pesquisa do Banco Central apontava crescimento de 1,2% em 2027. As duas previsões são estimativas, não resultados observados nem decisões de política monetária.

Revisão combina atividade fraca e inflação maior

Para 2026, o Bradesco cortou a projeção do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,7% para 1,5%. O PIB é a soma dos bens e serviços produzidos no país. A equipe liderada por Fernando Honorato Barbosa cita juros restritivos, menor confiança e desaceleração do crédito.

Os economistas também estimam contração de 0,2% no terceiro trimestre de 2026. Esse é um cálculo do banco, ainda não um resultado publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A previsão considera a redução do endividamento das famílias e a perda de confiança empresarial.

Bradesco prevê menos crescimento e mais inflação que o Focus Projeções para 2027, em percentuais, exceto o dólar no fim do ano

Indicador Bradesco, revisão de 6/11 Focus de 3/11
Crescimento do PIB 0,4% 1,2%
IPCA 5,3% 4,76%
Selic no fim do ano 12,75% 12,50%
Dólar no fim do ano R$ 5,50 R$ 5,40

Fontes: Bradesco, via Valor Econômico, e Banco Central, via Agência Brasil. As instituições e as datas de coleta são diferentes.

A inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) teve projeção elevada de 4,1% para 5,3% em 2027. O aumento é de 1,2 ponto percentual. O banco cita câmbio, mudança da jornada de trabalho, reoneração de combustíveis e reforma tributária.

Selic ficaria parada por mais seis meses

O Bradesco espera que o Banco Central mantenha a Selic em 13,75% durante todo o primeiro semestre de 2027. Depois, projeta quatro cortes de 0,25 ponto percentual no segundo semestre. A taxa terminaria o ano em 12,75%.

A diferença para a mediana Focus é de 0,25 ponto percentual no fim de 2027. O mercado já esperava juros altos, mas o banco vê um alívio mais tardio. Para trabalhadores e empresas, isso significaria crédito caro por mais tempo caso o cenário se confirme.

O dólar projetado para o fim de 2026 subiu de R$ 5,00 para R$ 5,50. Para 2027, a estimativa passou de R$ 5,20 para R$ 5,50. O banco relaciona a pressão cambial ao aumento da dívida pública e defende reforço do arcabouço fiscal, conjunto de regras para as contas do governo.

O que diz o Bradesco: A equipe econômica afirma que condições financeiras mais restritivas devem aprofundar a perda de fôlego da atividade. No relatório divulgado pelo Valor, defende sinais fiscais críveis e prevê cortes graduais da Selic apenas no segundo semestre de 2027.

Cenário alternativo mostra incerteza

O banco também apresenta possibilidade de inflação de 6,7% em 2027. Esse não é seu cenário-base e aparece cercado de incerteza. A previsão principal continua sendo 5,3%, acima da mediana Focus de 4,76%.

Por outro lado, o relatório admite que medidas fiscais críveis podem estabilizar ou valorizar o real. Esse contraponto importa: a projeção depende de decisões públicas e do ambiente externo. Não há garantia de que câmbio, inflação e juros sigam a trajetória anunciada.

A revisão não altera contratos por si só. Ela registra uma avaliação privada mais negativa e reforça a disputa sobre quanto tempo o juro alto será necessário.

Como fizemos: Conferimos os números da revisão do Bradesco na reportagem do Valor e comparamos 2027 com o Focus divulgado pela Agência Brasil. Calculamos as mudanças em pontos percentuais. As fontes têm métodos e datas distintos; a tabela não mede consenso nem transforma previsões em fatos realizados.

Fontes