Novo teto do MEI pode ampliar déficit em até R$ 98 bilhões

Estimativa de especialista considera 500 mil novas adesões e efeitos até 2099; cálculo não inclui eventual perda de arrecadação tributária.

Senadora Gleisi Hoffmann preside reunião da Comissão de Assuntos Econômicos no Senado
Reunião da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre pauta do microempreendedor, em 13 de setembro de 2016.Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A ampliação do teto do Microempreendedor Individual (MEI) pode acrescentar entre R$ 60 bilhões e R$ 98 bilhões ao déficit previdenciário até 2099. A estimativa é do especialista Rogério Nagamine Costanzi, publicada pelo Valor nesta sexta-feira (6). O resultado é uma projeção independente, não um cálculo oficial do governo.

O estudo supõe cerca de 500 mil novas adesões após a mudança. A faixa depende da política de reajuste do salário mínimo. Sem ganho real, o acréscimo seria de R$ 60 bilhões. Com alta real de 1,5% ao ano a partir de 2027, chegaria a R$ 98 bilhões, sempre a valor presente.

O que entra na conta

A Lei Complementar 238/2026 elevou o limite anual de faturamento dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027. Em 2028, o teto chega a R$ 140 mil. O texto também permite dois empregados e prevê perdão de dívidas federais, com regras próprias.

O cálculo cobre o Regime Geral da Previdência Social (RGPS), sistema que reúne os trabalhadores vinculados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nagamine considera aposentadorias por idade, perfil etário e de gênero dos participantes e a tábua de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2024.

Projeção varia conforme o reajuste real do salário mínimo Déficit atuarial do MEI a valor presente, de 2027 a 2099

Cenário Resultado estimado
Sem mudança no teto R$ 711 bilhões
Teto ampliado, sem ganho real do mínimo Acréscimo de R$ 60 bilhões
Teto ampliado, mínimo com alta real de 1,5% ao ano Acréscimo de R$ 98 bilhões

Fonte: estimativas de Rogério Nagamine Costanzi publicadas pelo Valor em 06/11/2026. Valores não representam despesa anual nem previsão oficial.

Déficit atuarial é a diferença estimada entre obrigações futuras e recursos esperados, trazida a valores de hoje. Portanto, os R$ 98 bilhões não serão pagos de uma vez. Segundo o autor, o maior peso deve ocorrer por volta de 2060, quando mais participantes atuais estiverem aposentados.

Proteção social e financiamento

O MEI paga hoje 5% do salário mínimo à Previdência, equivalente a R$ 81,05 por mês. A contribuição dá acesso a benefícios, mas não reproduz o financiamento de um emprego com carteira assinada. Nesse formato, também existem contribuição patronal e depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Nagamine alerta para a chamada pejotização, quando uma relação de emprego é substituída por contrato com pessoa jurídica. Ele afirma que a mudança pode reduzir receitas e direitos. O estudo, porém, não mede quantas das 500 mil adesões viriam da informalidade, de empregos formais ou de outros regimes empresariais.

Também não entram na projeção pensões por morte, salário-maternidade e auxílio-doença. Outra exclusão é uma eventual perda tributária causada pela migração entre regimes. Essas escolhas limitam a comparação e precisam acompanhar qualquer debate sobre o valor final.

Para o pesquisador Manoel Pires, da Fundação Getulio Vargas, ouvido pelo Valor, o programa ampliou a proteção, mas também atraiu profissionais que antes pagavam mais tributos. É uma ressalva à leitura de que toda adesão representa necessariamente um trabalhador retirado da informalidade.

O que diz o Ministério do Empreendedorismo: No portal Prospera MEI, a pasta afirma que o pacote ataca o teto defasado, as dívidas e a burocracia dos pequenos negócios. O governo apresenta a ampliação como valorização do empreendedorismo e não publicou no portal uma avaliação da estimativa de Nagamine.

O debate que fica para 2027

O Mapa de Empresas registrava 13,7 milhões de MEIs ativos até setembro, segundo dados citados pelo Valor. A escala torna o desenho da política relevante tanto para empreendedores quanto para a Previdência. Formalização e proteção social precisam ser avaliadas junto com financiamento e prevenção de falsos vínculos.

Nagamine defende focalizar a alíquota reduzida e cobrar contribuição patronal de empresas que contratam MEIs. Essas são propostas do especialista, não medidas aprovadas. A lei já determina os novos tetos, mas ainda faltam dados públicos que permitam testar suas premissas e monitorar as migrações.

Como fizemos: Reconstituímos os cenários publicados pelo Valor em 06/11/2026 e comparamos seus limites e premissas com a Lei Complementar 238/2026 e o portal Prospera MEI. Não refizemos o cálculo atuarial porque a memória detalhada não foi publicada. A tabela separa estoque estimado, acréscimos e horizonte temporal para evitar leitura como gasto anual.

Fontes