Previdência teve déficit de R$ 18,6 bi em agosto; o rural pesa mais

O Tesouro registrou déficit de R$ 18,6 bilhões da Previdência em agosto; veja de onde vem a conta e o que o número não mostra.

Entrada de uma agência do INSS: um homem de camisa clara entra pela porta de vidro enquanto uma atendente espera no balcão e pessoas aguardam em fila ao fundo
Atendimento em uma agência do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em fevereiro de 2019.Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em agosto de 2026, a Previdência Social fechou o mês com déficit de R$ 18,6 bilhões. O dado faz parte do resultado mensal do Tesouro Nacional, divulgado em 29 de setembro. Ou seja, o regime pagou mais em benefícios do que recebeu em contribuições e outras receitas.

Para entender o rombo, é preciso separar as contas.

Dois regimes, duas contas

A Previdência tem dois grandes sistemas. O Regime Geral de Previdência Social (RGPS), administrado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), atende trabalhadores da iniciativa privada e do campo. Já os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) atendem servidores efetivos da União, dos estados e dos municípios.

Os R$ 18,6 bilhões são do RGPS. O regime dos servidores tem contas próprias, que aparecem em outros relatórios do Tesouro.

O Governo Central, que soma as contas do Tesouro, da Previdência e do Banco Central, teve déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto, sem contar os juros da dívida. Tesouro e Banco Central, somados, tiveram superávit de R$ 5 bilhões.

A conta da Previdência é simples. De um lado entram as contribuições e outras receitas. Do outro saem os benefícios. Quando a saída é maior, há déficit, e a diferença é coberta com recursos do Orçamento da União.

Em agosto, a arrecadação líquida da Previdência subiu 6,3%. Segundo o Tesouro, a alta veio da melhora do mercado de trabalho, do maior recolhimento do Simples Nacional e da volta gradual de contribuições sobre a folha de salários.

Quem puxa a conta: o rural

O déficit não se distribui igualmente entre trabalhadores urbanos e rurais. Uma análise de Luiz Guilherme Schymura, no Blog do IBRE da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra o peso do campo. Nos 12 meses até junho de 2025, o RGPS teve déficit de 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB) na parte rural e de 0,8% na urbana. O PIB é a soma de tudo o que o país produz em um ano.

Somadas, as duas partes dão cerca de 2,5% do PIB. A parte rural responde por cerca de dois terços: 1,7 dividido por 2,5 dá 68%, cálculo nosso.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) traz outro corte. Em 2024, os benefícios rurais custaram R$ 196,9 bilhões, e as contribuições do setor somaram R$ 9,8 bilhões. A diferença, cerca de R$ 187 bilhões, é nosso cálculo; os dois levantamentos usam períodos e métodos diferentes.

O piso e o salário mínimo

Boa parte dos benefícios pagos pelo RGPS vale o piso previdenciário. Segundo o Poder360, 21,9 milhões dos 35,15 milhões de benefícios ativos do regime, ou 62,5%, têm esse valor. Em 2026, o piso é de R$ 1.621, após reajuste de 6,79%.

O piso acompanha o salário mínimo. A Constituição determina que benefício que substitui a renda do trabalho não pode ser pago abaixo do mínimo (artigo 201, parágrafo 2º). Por isso, cada R$ 1 a mais no salário mínimo custa cerca de R$ 298 milhões ao orçamento previdenciário, segundo o Poder360.

O que o número não mostra

Um mês não define a tendência. O resultado de agosto mostra só o caixa daquele mês. Para ver se o rombo cresce, é preciso olhar o acumulado de 12 meses.

Do outro lado da conta estão aposentados e pensionistas que dependem desse pagamento.

Dados do TCU mostram outro ponto. Em dezembro de 2024, 34,8% dos benefícios rurais tinham sido concedidos pela Justiça, contra 13,8% dos urbanos. O dado não diz, sozinho, se as concessões estavam certas ou erradas. Ele mostra apenas onde a discussão se concentra.

O que diz o Tesouro Nacional: Ao divulgar o resultado de agosto, o órgão atribuiu a alta da arrecadação previdenciária à melhora do mercado de trabalho, ao Simples Nacional e à reoneração gradual da folha. A Revista Independência não enviou perguntas ao órgão para esta explicação; a posição vem da publicação oficial, citada pela imprensa.

O que vem a seguir

O próximo resultado mensal do Tesouro trará os números de setembro e o acumulado do ano. Pelas datas das últimas divulgações (30 de julho, 27 de agosto e 29 de setembro), a publicação deve sair no fim de outubro. Não localizamos a data exata no calendário oficial.

A discussão sobre o rombo passa pela regra do piso e pela arrecadação do campo. Qualquer mudança depende do Congresso e do governo.

Como fizemos: Usamos o resultado do Tesouro Nacional de agosto de 2026, divulgado em 29/09/2026 e reportado pela imprensa, e a auditoria do TCU sobre a Previdência rural, de 27/08/2025, acessados em outubro de 2026. Os percentuais do PIB são do Blog do IBRE/FGV, referentes aos 12 meses até junho de 2025. A divisão de dois terços, a diferença de R$ 187 bilhões e a soma das duas partes são cálculos nossos. Os dados não mostram o déficit do regime dos servidores nem a tendência de 2026, que exige o acumulado de 12 meses.

Fontes