Lula quer energia própria em data centers, mas lei permite contratos

Discurso sugere autoprodução, enquanto Redata aceita contratos ou geração própria; regulamentação pode sair em duas semanas.

Corredor entre fileiras de armários com servidores em um data center
Servidores em data center da Pi Data Centers, fotografados em 17 de agosto de 2021.Foto: PiDatacenters / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu na sexta-feira (6) que novos data centers construam a própria geração de energia. Data centers são instalações que abrigam servidores para armazenar e processar dados digitais.

“Quem vier investir construa a sua própria energia”, afirmou durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A declaração sugere autoprodução, mas a lei que criou incentivos ao setor também permite contratos de suprimento.

Discurso e lei apresentam alcances diferentes

A Lei 15.504/2026 instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). Para receber os benefícios, a empresa deve atender toda sua demanda com fontes renováveis ou de baixa emissão.

A lei admite duas formas de suprimento: contratos ou autoprodução. Autoprodução significa gerar energia no próprio empreendimento ou por meio de estrutura destinada ao consumo do investidor. A regulamentação definirá os detalhes.

Autoprodução é uma alternativa na lei, não a única Comparação entre o discurso de Lula e o regime aprovado

Ponto Situação verificada
Declaração de Lula Defende que o investidor construa a própria energia
Regra do Redata Permite contratos de suprimento ou autoprodução
Fontes aceitas na lei Renováveis ou de baixa emissão, conforme regulamento
Regulamentação Pendente; Casa Civil prevê anúncio em cerca de duas semanas

Fonte: Lei 15.504/2026, InfoMoney e Agência Brasil.

O discurso não altera essa legislação. Também não informa se a exigência pretendida valeria para todo data center ou somente para empresas habilitadas ao Redata. Essa diferença precisará ser esclarecida no texto regulamentar.

Governo quer investimento e capacidade nacional

Lula associou a atração de data centers às vantagens da energia brasileira. Também disse querer que uma parte da estrutura sirva ao armazenamento de dados do governo brasileiro. O argumento liga investimento, infraestrutura e capacidade nacional de processamento.

A reunião do CNPE aprovou o Plano Nacional de Transição Energética. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o país já soma cerca de R$ 80 bilhões em investimentos contratados em linhas de transmissão.

O ministério relaciona essa expansão à segurança do sistema e a demandas estratégicas, como data centers e inteligência artificial. O valor, porém, não representa investimento exclusivo para atender essas instalações.

A classificação das fontes aceitas também segue em discussão. Segundo o InfoMoney, há divergência sobre o enquadramento do gás natural. A resposta influenciará quais contratos e projetos poderão atender às exigências do Redata.

O que diz a Casa Civil: A ministra Miriam Belchior afirmou que a regulamentação do Redata está praticamente finalizada. Segundo o InfoMoney, ela previu anúncio em cerca de duas semanas, após nova discussão com Lula.

Regulamento terá de resolver a diferença

A fala presidencial coloca a proteção do sistema elétrico no centro da negociação com investidores. A legislação atual, contudo, preserva a possibilidade de comprar energia por contrato. O regulamento mostrará se essa alternativa permanecerá integralmente.

Até lá, não há nova obrigação geral de autoprodução decorrente do discurso. Empresas e consumidores aguardam critérios sobre fontes, contratos e investimentos exigidos. O texto definirá o alcance concreto da diretriz anunciada por Lula.

Como fizemos: Comparamos o discurso reproduzido pela Agência Brasil e pelo InfoMoney com a Lei 15.504/2026. Consultamos ainda o comunicado do Ministério de Minas e Energia sobre o plano aprovado em 06/11/2026. Não estimamos consumo ou custo de data centers porque a fala não apresentou esses dados.

Fontes