Tesouro recompra mais de R$ 14,8 bi em títulos para conter juros
O Tesouro comprou de volta mais de R$ 14,8 bilhões em títulos em 26/10. Veja como funciona a recompra, quem participa e quais são os limites.

Na segunda-feira (26), o Tesouro Nacional, órgão que cuida da dívida pública federal, recomprou mais de R$ 14,8 bilhões em títulos. Segundo a Agência Brasil, a operação veio depois da vitória de Lula no segundo turno, com forte alta dos juros.
Recompra é uma das ferramentas mais diretas para mexer nas taxas. Veja como ela funciona, quanto custa e quais são os limites.
O que é a recompra
Recompra é quando o Tesouro compra de volta títulos que ele mesmo emitiu. Esses títulos são dívida: o governo toma dinheiro emprestado e promete pagar juros. Antes do vencimento, o órgão tira esses papéis de circulação.
Como funciona na prática
Cada operação segue um edital, o documento com as regras. Ele define quais títulos entram, a quantidade máxima e o horário das propostas. Só os dealers, instituições credenciadas pelo Tesouro, podem participar, segundo a InfoMoney. Na segunda, as propostas de NTN-F foram recebidas entre 11h15 e 11h45, e as de NTN-B, entre 15h30 e 16h.
NTN-F é um título prefixado, com taxa definida na compra. NTN-B, o Tesouro IPCA+, rende a inflação medida pelo IPCA, o índice oficial, mais uma taxa fixa.
Pela manhã, o Tesouro ofereceu comprar até 5 milhões de NTN-F em cada vencimento de 2031, 2033 e 2037. À tarde, ofereceu até 1 milhão de NTN-B em cada um de três vencimentos: agosto de 2030, maio de 2035 e agosto de 2050. Pelas contas da InfoMoney, o teto das NTN-Bs somava cerca de R$ 14,3 bilhões. Esse é o limite máximo, não o valor efetivamente comprado.
O Tesouro também cancelou os leilões regulares da semana, de prefixados e de títulos ligados à inflação. Só a LFT, atrelada à Selic, a taxa básica de juros, foi mantida.
Taxas dos títulos do Tesouro subiram forte na segunda-feira Taxa de fechamento, em % ao ano, na sexta (23/10) e na segunda (26/10)
| Título | Sexta (23/10) | Segunda (26/10) |
|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2032 | 12,89% | 15,50% |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 6,72% | IPCA + 7,80% |
| Tesouro IPCA+ 2050 (NTN-B) | IPCA + 6,42% | IPCA + 7,03% |
Fonte: InfoMoney, com taxas do Tesouro Direto. Elaboração: redação.
Por que a compra mexe nos juros
Taxa e preço andam em sentidos opostos. Quando a taxa sobe, um título já emitido perde valor. Com menos papéis à venda, a disputa pelo que sobra tende a empurrar o preço para cima e a taxa para baixo.
Na segunda, esse efeito não bastou para conter a alta. As taxas tiveram a maior alta diária da série histórica do Tesouro, medida pela abertura, segundo a InfoMoney.
O Prefixado 2032 abriu a 15,78% e fechou a 15,50% ao ano, ante 12,89% na sexta (23). Na conta da redação, a alta foi de 2,61 pontos percentuais em um dia.
Custo e limites
A recompra usa caixa do governo. O dinheiro sai do colchão de liquidez, a reserva que garante o pagamento dos vencimentos da dívida. Segundo a Bloomberg Línea, o Tesouro considera três meses de vencimentos o nível mínimo de conforto dessa reserva.
Há também o risco de expectativa. Uma fonte ouvida pela Bloomberg Línea, sem se identificar, alertou que recompras em larga escala podem criar expectativas persistentes de novas intervenções. Em março, o Tesouro somou uma recompra líquida de R$ 47 bilhões em cinco leilões extraordinários na semana, segundo a InfoMoney.
Recompra não é venda
Quando um investidor vende um título antes do prazo, recebe o preço de mercado do dia. O Tesouro Direto trata essa venda antecipada pela marcação a mercado.
A recompra é outra operação. Acontece em leilão com os dealers e busca conter oscilações do mercado de títulos, não atender a um investidor.
O que diz o Tesouro Nacional: Segundo a Agência Brasil, o órgão anunciou nova recompra de NTN-Bs, com condições no edital publicado em seu site, e cancelou o leilão de LFT previsto para terça (27). A redação não teve acesso ao edital durante a apuração.
O que isso significa
A recompra atua sobre o preço dos títulos no curto prazo. Ela troca caixa por títulos e não muda o resultado fiscal do governo, medido pela diferença entre receitas e despesas. Segundo a Bloomberg Línea, as intervenções também reduzem a reserva de liquidez.
Em aberto estão o valor da operação de terça, que não foi divulgado nas fontes consultadas, e se novas recompras serão necessárias nas próximas semanas.
Como fizemos: Usamos reportagens da Agência Brasil (27/10/2026), da InfoMoney (26/10/2026 e 18/03/2026) e da Bloomberg Línea (20/03/2026), acessadas em 27/10/2026, além de páginas do Tesouro Direto. O site do Tesouro Transparente e o edital não puderam ser abertos durante a apuração, por erro de acesso (HTTP 429 e 404). O teto de R$ 14,3 bilhões é cálculo nosso com dados da InfoMoney: 3 vencimentos × 1 milhão de títulos × R$ 4.770,21 de valor nominal atualizado. A alta de 2,61 pontos percentuais é a diferença entre 15,50% e 12,89%.
Fontes
- Para conter oscilações, Tesouro anuncia nova recompra de títulos — Agência Brasil (27/10/2026)
- Tesouro amplia intervenção e anuncia recompra de títulos atrelados à inflação — InfoMoney (26/10/2026)
- Taxas do Tesouro fecham em forte alta após vitória de Lula, mas aliviam após recorde — InfoMoney (26/10/2026)
- Tesouro faz nova recompra de títulos públicos; intervenção alcança R$ 47 bi na semana — InfoMoney (18/03/2026)
- Intervenções recordes do Tesouro reduzem o colchão de liquidez da dívida pública — Bloomberg Línea (20/03/2026)
- Tesouro IPCA+ — Tesouro Direto (acesso em 27/10/2026)
- Tesouro Prefixado — Tesouro Direto (acesso em 27/10/2026)


